Bertha Vitis Feferman - Boletim ASA nº 111, mar-abr/2008


Minha vida desde menina

                   

Nasci Bruha (“bênção”, em hebraico) − traduzido para Bertha no passaporte familiar e adotado para toda documentação daí por diante −, em 17 de setembro de 1904, nos arredores de Beltz, uma pequena cidade russa da Bessarábia, hoje Moldávia, filha de Moshe (Moysés) Vitis e Rivka (Marieta) Eidelman Vitis.

Pelos olhos e observação de uma criança, como eu era, seria apenas o lugar onde ficava “a nossa casa”: cidade limpa, casas em grupos geminados − cada casa com sua varandinha para a rua principal e uma janela dupla, para abrigar do frio rigoroso e que, fechada, nos permitia olhar a movimentação da rua.

Contava mamãe que, através da janela, víamos a passagem dos reservistas, em seus exercícios para alguma guerra próxima... Mamãe aproveitava o tempo − estava à minha espera − bordando toalhas, de que ainda tenho duas como carinhosa lembrança e que, pelas datas bordadas, lembram minha idade − 1904! Não poderia ter melhor certidão de nascimento, antes de figurar no passaporte familiar! Em Beltz, a limpeza das ruas era impecável: vedado atirar objetos, lixo, até mesmo água usada em bacias; a vigilância era rigorosa. Lembro-me de minha mãe discutindo com um guarda, por ter derramado um pouco do líquido onde não era permitido (não havia ainda água corrente). Em Beltz não tinha mais que um templo judaico, apesar do grande número da população judaica ali residente.

Sei que existem, em ídish, várias obras sobre essa cidade, como, por exemplo, um livro de Moacir Scliar com gentil dedicatória, mas que não pára comigo.

As lembranças dos meus pais são as melhores, em ambiente da classe média simples, judaica. Os ganhos do pai, como representante em vendas de cereais (a comissão) cobriam bem as despesas da família, com certo conforto e bem-estar. Minha mãe, moça muito bonita e doce, zelosa administradora do lar e da observância dos ritos a que obrigava a vida judaica, teve cinco filhos, alguns com intervalo de cerca de um ano ou um pouco mais entre eles, sendo: Eva, em 1903, Bertha, em 1904, Zalmen, em 1905, Soibel (Célia), em 1907, Tuba (Teresa), pouco depois.

Zalmen (Zalminho) era o “herói” da família, por ser o único “varão” entre as meninas. Não se esqueçam de que cabe aos filhos homens a oração fúnebre às mães, além dos estudos e as formaturas, até mesmo em profissões liberais, sendo a de médico a “glória suprema. Mas o nosso menino viria a falecer ainda criança de uma disenteria, apesar dos maiores cuidados em hospital de cidade próxima (não havia ainda nem a penicilina!).

A irmã mais velha, Eva, foi “adotada” pela tia Beyla, que já criara meu pai porque sua mãe morrera muito cedo. Casada com o tio Israel, Beyla não tivera filhos. Eva, que papai levava em suas pequenas viagens (“para aliviar o trabalho da mãe”), acabou ficando aos cuidados de Beyla, na vila de Falesti, onde essa tia era dona de um conceituado e próspero armazém (empório). Eu fiquei sendo “a mais velha”, sempre, em casa.

Educada com muito conforto e carinho, Eva, porém, foi, mais tarde, pivô de uma pequena “tragédia”, pois ao prepararmos nossa viagem ao exílio, a tia não quis entregá-la. Foi uma tristeza, essa separação, que durou longos anos(quantos?!) até nosso reencontro no Brasil, já casada.

Voltando à mamãe: ela, como as demais jovens judias de então, não tivera qualquer estudo, pois rareavam as instituições primárias adequadas: sua instrução consistia no acompanhamento das rezas, na sinagoga, através de um manual (geralmente em hebraico), além de sua vivência ao lado do meu pai, que era autodidata e alcançara um nível razoável de conhecimentos, através das leituras constantes em ídish, russo e traduções.

Além de seus cuidados com a prole e a casa, cabiam a mamãe não só a administração caseira e a comida, mas também a confecção dos pães gostosos e refinados para os fins-de-semana − o Shabat − substituindo o pão escuro de todos os dias (que hoje adotamos nas dietas...). Suas tarefas eram, pois, bem duras, apesar de termos tido sempre o auxílio da empregada doméstica! Para evitar o incômodo das crianças, mamãe realizava essas tarefas de madrugada.

Tenho a lembrança do seu maior carinho comigo, que, quando adulta, já trabalhava para auxiliar a família. Ela tinha “pena” de mim (“coitadinha de Bertha, tão fraquinha”). Veremos, adiante, que esta “fraquinha” sobreviveu às outras e às que vieram depois...

 

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