Israel - Boletim ASA nº 111, mar-abr/2008


Uma brasileira em Tel Aviv

Esther Kuperman/ Especial para ASA

 

Depois de mais de 30 anos longe desta terrinha, estar aqui é como reencontrar passado e futuro. Porque este é ainda o mesmo país, mas, em certas situações, trata-se de um lugar novo e desconhecido.

Algumas coisas no espírito dos israelenses tornaram-se mais evidentes. Uma delas é a capacidade de brigar entre si. Quando eu vivi aqui, já era famosa a sua agressividade. Dizia-se que o sabra era como a fruta do cáctus – espinhoso por fora, mas doce por dentro. Hoje, pelo visto, a doçura foi substituída por amargura e ironia. Sintoma de uma sociedade pressionada pela extrema competição e pela convivência com uma guerra que não parece ter fim.

A guerra está presente em todos os passos da gente daqui. Para entrar em locais públicos passamos por filas intermináveis, nas quais meninos, recém-saídos da adolescência, em uniformes do Exército, revistam a todos e reviram bolsas, embrulhos, sacolas e bagagens. Este é um dado do cotidiano do qual, ao contrário de outros, o cidadão não reclama. É como se o israelense, em geral tão atento ao seu bem-estar e cioso de seus direitos, se rendesse ao argumento de que este é o preço a pagar pela sua tranqüilidade.

É impossível entrar nas rodoviárias, shoppings, universidades, museus sem passar pela revista que, muitas vezes, se resume a um ritual, mas que serve para mostrar que esta é uma sociedade sempre alerta.

Outro capítulo é a relação do israelense com o telefone celular. Aqui, ele não parece ser um simples meio de comunicação. É como se, para a maioria da população, ele fosse a conexão com o mundo. A cidade está cheia de homens e mulheres em movimento, pendurados ao céu pelo celular, sempre aos berros. Para um visitante desavisado, poderia tratar-se de um ritual em honra de alguma importante entidade celeste recém- descoberta, que precisa ser reverenciada em movimento, com as mãos coladas ao ouvido e em altos brados....O rito em sua homenagem envolve quase toda a população da cidade, e toma quase todo o seu tempo....

A relação do israelense com o rádio é outro fato interessante. Ninguém consegue fazer nada sem o radinho ligado. Não importa o que esteja se passando em torno, o israelense estará ouvindo rádio. Este rádio onipresente toca música, anuncia produtos, transmite notícias e debates sobre os temas mais diversos, mas sempre aos berros. O rádio e o celular são as ferramentas mais constantes na vida dos israelenses. Até nos ônibus somos sempre brindados com importantes transmissões de notícias, músicas românticas e reclamações sobre tudo, inclusive sobre o funcionamento dos próprios ônibus.

Por falar em ônibus, antes, todos pertenciam à Eged, uma cooperativa na qual o cooperado precisava possuir seu próprio veículo. Embora fossem uniformemente cinzentos por fora, por dentro eram diferentes, enfeitados, coloridos, de acordo com o gosto do dono, com fotos, flores, pingentes e todo tipo de ornamento. Hoje, todos são iguais, por dentro e por fora. De cooperativa, a Eged passou a ser uma empresa onde os motoristas são funcionários. Há uma outra empresa de ônibus urbanos e interurbanos, a Dan, que faz concorrência, no melhor estilo capitalista, com a Eged.... A única coisa que não mudou foram as transmissões radiofônicas em todos os veículos, e sempre em volume suficiente para que ninguém sinta falta do rádio nos ônibus. Mas as ruas são limpas, o calçamento irretocável, a sinalização perfeita e bem distribuída, as estradas bem asfaltadas. Dá até vontade de dar uma corridinha, embora isto seja motivo para que a polícia rodoviária, educada e eficiente, nos brinde com uma bela e merecida multa.

Em todo caso, parece que a prioridade da estrutura urbana é o carro, em detrimento do transporte coletivo. Prova disto são os imensos engarrafamentos – chamados por aqui de pkaks – nos pontos de entrada e saída dos bairros e das cidades. É que o limpo e confortável transporte público, apesar de ter horário e parada certos, exige um tempo de espera longo. E só agora, após a constatação de que os pkaks são uma realidade cada vez mais séria, resolveram construir o metrô.

Viajar neste país é fácil, se você tem carro. Do contrário, prepare-se para o desconforto de ter de colocar e retirar as malas dos bagageiros dos ônibus e contar com o seu faro e senso de orientação, pois nas ruas e rodoviárias pouca gente se dispõe a dar uma informação. Se der, você corre o risco de ser enviado para o lado oposto do que pretende. Caso o informante veja que você é turista, talvez ainda o trate com alguma consideração. Mas se aparenta ser imigrante, conte com a sua má vontade. Nós, brasileiros, ainda por cima, enfrentamos o preconceito dirigido aos imigrantes russos, porque nossa pronúncia da língua hebraica é muito semelhante à deles, especialmente o lámed (a letra ele). Porque, da mesma forma que em muitos países desenvolvidos, o cidadão local não vê com bons olhos o imigrante, especialmente aquele vindo do Leste Europeu. Mas isto já é um outro capítulo.....

Esther Kuperman, historiadora, é colaboradora do Boletim ASA.

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