Europa Central - Boletim ASA nº 111, mar-abr/2008

Lênin acabou em um parque de estátuas    

Renato Mayer / Especial para ASA

                           

Praga é uma festa. Exuberante, a cidade, que sempre foi bela, fervilha agora de turistas e exibe com alegria sua arquitetura e seu dourado barroco bem restaurado. Visitantes de todo o mundo acorrem a essa nova meca. A excelente cerveja custa menos do que a água mineral, o que, para muitos, é uma atração a mais. O inglês se tornou a língua de comunicação geral; não deixa de ser impressionante como, em menos de uma geração, essa população, que arranhava o alemão e aprendia por força o russo, aderiu ao idioma universal.

Isso, porém, remete a algo maior. Com a saída dos comunistas – hoje restritos a 13% de representação no Parlamento da República Tcheca – do poder, a integração européia e o retorno das propriedades, o “altruísmo do Estado” cedeu lugar a uma verdadeira explosão de criatividade e iniciativa. Os mais variados negócios estabeleceram-se por toda parte, com marcada profusão de restaurantes. Não há vestígios dos antigos táxis Volga, de fabricação russa, e, assim como os particulares, estes seguem hoje os modelos mais modernos, alguns até mesmo com o sistema GPS de orientação eletrônica.

As grandes marcas multinacionais estão bem presentes e visíveis. Nos arredores da capital, novos prédios exibem os nomes que, de um pólo a outro, todos conhecem. O pequeno, mas interessante, Museu do Comunismo, expõe, com ironia e distanciamento, relíquias do realismo socialista e do modo de produzir da época. Desperta curiosidade um aviso: “Chegar pontualmente ao trabalho desfere o golpe decisivo nos agressores americanos.” O Museu fica em cima de uma concorrida lanchonete do McDonald’s. O elegante restaurante Rostov, na conhecida Praça Venceslau, de propriedade cooperativa, no qual estive em 1986, virou um ...cassino.

O circuito, muito bem organizado, pelo Bairro Judeu é parte do roteiro turístico. As visitas às cinco sinagogas e ao Velho Cemitério são próximas e articuladas entre si, expondo cada etapa e característica da vida naquela que foi uma das mais pujantes comunidades da Europa, reduzida atualmente a 5 mil pessoas. No Velho Cemitério, onde as pedras tumulares estão dispostas meio desorganizadamente, fica-se sabendo que os mortos estão enterrados em várias camadas sob elas. O último enterro foi há mais de 200 anos, e o fato do local ter sido preservado até mesmo nos períodos mais negros na História judaica desperta uma atração mística. Como no Kótel, o Muro do Templo de Jerusalém, os visitantes deixam sobre as tumbas pequenas folhas dobradas de papel, contendo seus desejos mais profundos. Sinal dos tempos, poucos são pedidos de paz, a maioria tratando de votos de saúde, aspirações a grandes amores e até a aumentos de salário. Alguns religiosos rezam junto à pedra do Rabino Loew, o Maharal de Praga, aquele que, no final do século 16, deu vida ao Golem de argila para proteção da comunidade.

Ao cabo, o momento mais impactante na Sinagoga Pinkas. Em seu interior deixaram apenas a bima e o espaço da Arca. A sinagoga, porém, não está vazia. Em todas as suas paredes, escritos um a um, os nomes dos 80 mil judeus da Boêmia e da Morávia enviados aos campos da morte. Eles estão lá.

Igualmente tocantes foram as impressões da noite de Kol Nidrei, na majestosa sinagoga de três andares, em estilo mourisco, na Rua Dohány, no centro de Budapeste, considerada a segunda maior no mundo. Três gerações estavam presentes, enchendo o recinto, reafirmando a identidade e a vitalidade do judaísmo. Fala-se de uma comunidade de até 80 mil judeus na capital húngara, mas o número é controverso e, provavelmente, menor. De toda forma, eles também estavam lá, após tantas décadas de adversidades.

Homens e mulheres, velhos e crianças sentam-se juntos em ruidosa confraternização. Cumprimentam-se, conversam, desconcentram-se. O ritual não induz à participação: baseia-se todo o tempo num belíssimo coro e nos acordes de um órgão, e há poucos mahzorim disponíveis. Muitos deixam a sinagoga antes do encerramento da cerimônia. Por um momento, aqueles rostos ashquenazim me pareceram muito familiares, como se terras e oceanos não nos tivessem jamais separado.

Na véspera, um ônibus de excursão levou um grupo de turistas, a maioria jovem, a um parque nos subúrbios da cidade, bucolicamente instalado entre casas e latidos de cachorros. O Parque das Estátuas é o lugar destacado para marcar o fim de uma era. Lá, a quase uma hora do centro, estão dispostas, com certa harmonia, as estátuas que, no período pós-stalinista, decoravam os lugares públicos: monumentos aos soldados libertadores do Exército Vermelho, à amizade russo-húngara, a Bela Kuhn e à sua República Húngara dos Sovietes, até mesmo aos policiais mortos pelos revoltosos de 1956. Lá reencontrei Lênin, gigantesca estátua de bronze que, nos anos 80, por ocasião de minha primeira visita, se postava em local bem visível e central de Budapeste. Os heróis do passado, circunscritos a aquele pequeno espaço, hoje não podem senão reverenciarem-se uns aos outros.

Teriam exagerado na dose? No Parque reinstalaram também o monumento aos húngaros participantes da Brigada Internacional na Guerra da Espanha. Qual país não se orgulharia de tais combatentes, voluntários e idealistas?

Talvez porque o passado ainda esteja muito presente em Budapeste e na aparência da cidade, o esforço pelo seu expurgo parece ser maior. O antigo Partido dos Trabalhadores Socialistas Húngaro, comunista, teve que se refazer, transformando-se em social-democrata e defensor do livre mercado. Do original, restou, apenas, uma pequena fração, com menos de 1% do eleitorado e sem assento no Parlamento. Um museu, moderno na concepção e bem articulado em sua capacidade de envolver emocionalmente, expressa de forma mais gritante esse repúdio ao antigo regime. É o Museu da Casa do Terror, instalado no famigerado endereço do Boulevard Andrássy, 60, sede da Polícia Política desde os tempos dos fascistas da Cruz Flechada até 1956.

De sala em sala, de mostruário a mostruário, nos subterrâneos do prédio de cela em cela, vão tomando forma as dimensões de gigantesco Estado Policial, das atrocidades dos nazistas húngaros ao regime que se seguiu de 1945 a 1956, freqüentemente devorando suas próprias entranhas, contribuindo para o envio de dezenas de milhares de cidadãos para campos de trabalho forçado na União Soviética, espionando a todos qual desvairado Grande Irmão, perseguindo, processando, torturando. Consta que, de 1950 a 1953, foram adotadas ações legais contra 1 milhão e 500 mil de pessoas na Hungria, cerca de um terço da população adulta. Mesmo após a fracassada revolução de 1956, a mão aparentemente contemporizadora do governo reposto pela intervenção russa puniu 14.378 pessoas com penas de prisão e 230, incluindo um menor de idade, com execuções.

À saída, deixa-se o Museu com um profundo sentimento de opressão e peso, ansiosos pelo ar fresco do Boulevard, tomado aos sábados por multidões de ciclistas. Ressoa no cérebro o questionamento de um visitante, registrado no livro de impressões: o que dizer do povo húngaro, que viveu regimes tão diferentes, como agente da História? As populações são, afinal, vítimas, coniventes ou participantes?

Renato Mayer, economista, é colaborador do Boletim ASA.

 

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