| A foto, a história - Boletim ASA nº 111, mar-abr/2008 |
Elias Salgado/ Especial para ASA
Como cheguei à conclusão tão óbvia? Estava assistindo a uma entrevista de Ariano Suassuna na televisão e me vieram à memória fatos de minha adolescência escolar, lugar no meu tempo pessoal − seguramente no da maioria de nós, humanos − onde toda a minha história de amor com a literatura começava. A série era a 5ª, o colégio, o meu querido Liessin, ali na Visconde de Ouro Preto, em Botafogo, uma escola pequena, como eram todas as da comunidade judaica carioca e brasileira. O ano, 1969. Naquela época, eu não conseguia me situar além das fronteiras que me permitiam meus 11 anos. Ou seja, o que acontecia à minha volta, eu só consegui contextualizar anos mais tarde. Mas algo de estranho eu já percebia no ar: a fumaça das bombas de gás lacrimogêneo que a Polícia e o Exército jogavam nos estudantes no Largo do Machado e que nós tínhamos que engolir até arder em lágrimas, quando passávamos com a velha Linha 4 por ali. Fora isso, na minha “bolha” de adolescente classe média judeu, tudo era só alegria: eu era feliz na escola, o “mascote” da turma. Dei muito trabalho à dona Elisa e à morá Dvorah, nossas coordenadoras; apaixonei-me pelas morot Rivka, de Hebraico, e Clarisse, de História Judaica, e, claro, pela Drorit! Naquela época, tive que penar de joelhos e chapéu de bobo da corte na cabeça, perante toda a turma, quando dona Adélia, nossa professora de Desenho, me flagrou roubando um beijo da Drorit, como eu fazia sempre em suas aulas enquanto Drorit, caxias ao extremo, estava vidrada no quadro-negro, onde dona Adélia se deliciava a desenhar suas famosas rosáceas. Testemunhas oculares? Perguntem ao Gerson, ao Alberto, aos Henriques (Chor e Boms), à Shirley, e a todos os colegas da turma daquele ano. Ah! E, claro, à própria Drorit, minha amiga de toda a vida. Voltando ao tema: o mestre em questão era, na verdade, uma mestra. Teria ela no máximo 21 anos, a timidez e o olhar assustado escondidos detrás de um par de óculos. Sonhava, certamente, no seu idealismo de professora em início de carreira, em fazer sua pequena revolução − mudar o mundo ou, ao menos, o nosso então triste país. Tirá-lo daquelas trevas medievais em que andava metido. Naquele momento, tudo o que eu queria era ser feliz! Sair com minha galera, ir às festas hi-fi, onde dançávamos “juntos” e brincávamos de “pêra, uva, maçã ou salada mista”. Mas entre minha adolescência e o mundo real estava aquela professora de Português, a quem minha memória insiste em não fazer justiça, impedindo-me de lhe lembrar o nome. E, entre nós, o Auto da compadecida, do Ariano Suassuna − será que ele ainda é leitura obrigatória? Se não é, deveria. Àquela época, meus hormônios em ebulição tramavam contra a professora idealista e contra mim mesmo (só vim a saber disto anos depois). “Professora! Este livro é muito chato e complicado. Não sei pra quê ele serve, não está me ensinando nada. Não dá pra senhora escolher um outro mais interessante?” “Veja, Elias, acho que já expliquei o quanto este autor, Ariano Suassuna, e esta sua obra, O auto da compadecida, são importantes dentro da literatura nacional e, portanto, fundamentais para a sua formação como leitor e cidadão brasileiro. Mas, se você não estiver entendendo agora, de qualquer forma leia até o final e tenha certeza de que um dia, quando for adulto, vai entender perfeitamente o que estou dizendo.” É preciso dizer mais? Eles têm ou não têm razão sempre? Passados todos esses anos e todo um rio caudaloso sob a ponte da minha vida, o que temos? Aquele Liessin querido de minha adolescência já não existe mais. Sobre ele passou o progresso e o “arrastou” para a Sorocaba com São Clemente, estendendo-se até a Barra da Tijuca, onde o futuro é mais que presente. Saudosismos à parte, pretendo concluir fazendo justiça. Afinal, como diziam nossos sábios, tsédek, tsédek tirdof (justiça, justiça persigas). O nosso Liessin cresceu, é um adulto com eterna alma de criança, sempre buscando na criatividade a resposta para os desafios, sem perder o senso de realidade e com o olhar aguçado e atento para o futuro. Eis uma fórmula mais que boa de sucesso. Seria algo como “endurecer (crescer, encarar desafios bravamente), sem perder a ternura, jamais! |
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