| EDITORIAL - Boletim ASA nº 111, mar-abr/2008 |
Em certa passagem da peça Hamlet, de Shakespeare, o personagem-título, irônico, diz: “Há, portanto, esperança de que a memória de um grande homem possa sobreviver-lhe por meio ano”. Fragilidade da carne, fragilidade das histórias. O esquecimento é o destino de boa parte das narrativas individuais. Ano passado, faleceu Bertha Vitis Feferman, uma das grandes ativistas do judaísmo progressista brasileiro. Sua vida, rica de atividades e significados, repercutiu em mais de uma geração de admiradores. O desapego aos bens materiais, a ética entranhada em cada gesto, a valorização intransigente da ação coletiva, fizeram de dona Bertha uma referência indispensável. Sua presença na Associação Feminina Israelita Brasileira e na colônia de férias Kinderland ajudou a lhes dar o mesmo caráter libertário e amoroso que desejamos para toda a sociedade. Como, entretanto, evitar que sua saudosa presença “possa sobreviver-lhe por (apenas) meio ano”? Com quase um século de vida, dona Bertha começou a escrever (com caneta e papel, computador era muito impessoal ...) suas memórias. O material, inédito, começa a ser publicado nesta edição do Boletim. Muito mais do que uma homenagem, é a forma que a ASA encontrou para amenizar a saudade dos que a conheceram e mostrar aos demais uma história inspiradora. Dona Bertha não gostava de ser o centro das atenções. Dizia que não tinha méritos pessoais, os bons resultados eram fruto do trabalho de muitos. Ela que nos desculpe, mas vamos contrariá-la. Sem desmerecer as equipes em que trabalhou, sua vida merece registro e destaque. Numa feliz coincidência, esta edição de ASA sai ao mesmo tempo do lançamento do livro Senhoras progressistas e uma terra de crianças, de Monique Sochaszewski (ver capa), que conta a história da AFIB e da Kinderland. Somado às memórias de dona Bertha, completa um amplo painel da história recente da comunidade judaica no Brasil e representa uma importante contribuição à preservação da memória coletiva. |
| * * * [topo] |