Beco da mãe -Boletim ASA nº 111, mar-abr/2008

O charme de Alessandro Porro

Henrique Veltman / Especial para ASA

                
Em outubro de 1973, vocês se recordam, aconteceu a Guerra do Iom Kipur. E porque a mídia não apresentava uma visão clara, honesta e objetiva do confronto entre árabes e israelenses, o presidente da Federação Israelita de São Paulo, Marcos Firer, reuniu um grupo de jornalistas que, na sede da entidade, durante muitas noites e madrugadas, sintonizava as rádios de Israel, BBC, Moscou & adjacências, e produzia um boletim impresso na pequena off-set da Federação, distribuído ao amanhecer pelas residências, lojas e escritórios da chamada rua judaica de São Paulo.

Era nossa forma de combater, e eu guardo ótimas recordações daquela empreitada.

No meio da madrugada, terminado o “expediente”, a gente saía da Federação, todos excitados e esfomeados. Mas não havia muitas opções abertas na cidade, a não ser o Zi Tereza, na Rua da Consolação. E lá íamos nós, famintos, enfrentar as delícias da pizza paulistana.

Uma madrugada, alguém pediu um calzone. Mas o saudoso Alessandro Porro nos impediu de experimentar o prato.

“Isto aí não é um calzone coisa alguma”, disse ele.“É uma reles falsificação.”

O pizzaiolo desafiou: “Se faz melhor, por favor, a cozinha é sua!”

E não é que o Sandro vestiu o avental, separou os ingredientes e produziu o melhor calzone que comemos em todas nossas vidas – inclusive o pizzaiolo, que na verdade era o proprietário do Zi Tereza. Ele ficou tão encantado com o calzone do Porro que lhe ofereceu no ato sociedade na pizzaria. Mas o Sandro declinou da oferta...

Alessandro Porro, ao lado de Samuel Wainer, foi um dos poucos jornalistas que eu classificaria de charmant, encantador. As mulheres que o conheceram mais de perto, claro, se apaixonaram. Por isso mesmo, nós, seus companheiros, evitávamos ao máximo aproximar nossas musas daquele cavalheiro, geralmente trajando uma roupa branca e com uma lábia irresistível.

Numa época de minha vida, fui mazkir (secretário político) nacional da Tnuat Aliá (organização sionista apartidária de incentivo à imigração de jovens casais para Israel). O Porro havia sido meu antecessor no movimento (dá pra acreditar?).

Numa de minhas visitas a Israel, subi a Jerusalém, onde, na noite seguinte, o Alessandro faria uma palestra para um grupo de judeus chilenos. Informado de que ele anunciara sua desistência do compromisso, liguei para o Sandro em Tel Aviv, e ele me confirmou: não agüentava mais o governo fascista do Begin e portanto renunciava ao movimento da Tnuat Aliá e não falaria mais aos chilenos. Fiz ver ao Sandro que isso não era motivo para cancelar a palestra. Ele que viesse e dissesse aos judeus chilenos do seu desencanto com o Estado de Israel, com seus governantes etc. e tal. Assumira o compromisso de falar, e portanto deveria falar.

Ele concordou. Na noite seguinte, diante de uma platéia atenta, começou perguntando o que os chilenos achavam de seu país, de Pinochet, da situação política mundial.

Alguns dos judeus se declararam fiéis adeptos da ditadura de Pinochet. Pra quê? Alessandro Porro explodiu, fez a mais candente palestra sionista de sua vida, disse aos chilenos que eles voltassem pra Santiago, “Israel não precisa de fascistas reacionários”, “Begin passará” e mais algumas declarações do gênero.

Foi ovacionado pela maioria dos futuros olim chilenos, carregado em triunfo pelas ruas de Jerusalém.

Comemoramos numa padaria ali ao lado do kótel.

Não conheci todas as mulheres de Porro. Com certeza vou me esquecer de algumas, mas cabe registrar Anna Maria, Graziella, Lina, Irene, Valeria e Irene Maria .

Irene Maria era uma mulata estonteante. Ela foi com Sandro para Israel e se transformou numa figura obrigatória em qualquer acontecimento social do eixo Tel Aviv-Jerusalém.

Converteu-se ao judaísmo e eu não sei muita coisa mais sobre o destino dessa antiga modelo maravilhosa. Mas lembro que, numa véspera de Natal, alguns jornais israelenses registraram que o então ministro da Defesa, o incorrigível Don Juan Moshé Dayan, enviara para Irene Maria um enorme vaso de plantas acompanhado de um carinhoso cartão de boas festas. Um caminhão do Exército depositou o presente de Dayan na porta do prédio do casal Porro. Um guarda florestal e um marceneiro foram contratados para reduzir a planta ao tamanho da sala do apartamento...

Já a outra Irene era locutora da TV Rio quando conheceu o nosso herói. Foi uma louca paixão. Mas um dia, Sandro anunciou que estava de partida, ia para um posto de correspondente em Paris. “Apareça”, disse ele ao se despedir de Irene. Ela chorou muito. Mas, incrível, juntou o dinheirinho e, um belo dia, apareceu em Paris, na porta do apartamento de Porro. Que destruiu, no ato, o romance:

“Ué, o que é que você está fazendo aqui ?”

Ela hoje é uma das damas do teatro e da televisão brasileira. Porro era tão cara de pau que, um dia, na revista Cláudia, contou com detalhes esta história. Em francês a gente diria que ele era um charmoso canaille.

 

Henrique Veltman, carioca, 71 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador deste Boletim.

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