Comunidade - Boletim ASA nº 110, jan-fev/2008


O caminho é o diálogo

Jacques Gruman / Especial para ASA

                   

Tem gente incomodada com a ASA. Nos últimos tempos, ao lado de críticas respeitosas, sempre bem-vindas, temos sido bombardeados por outras infundadas e alguns insultos. A linguagem rancorosa, traço comum de alguns comentários pessoais e de mensagens enviadas para o jornal virtual Alef e para nosso endereço eletrônico, denuncia um ranço autoritário e um claro desconforto pela nossa existência. Quanto maior o desconforto, maior o nível de agressividade. O leão é mais feroz quando se sente encurralado.
Quais têm sido os campeões de audiência? Seríamos um “clubinho” incorrigível, “parado no tempo” e disposto a vender a alma “por dinheiro” (por termos alugado o auditório para um evento do Partido dos Trabalhadores, o demônio da vez). Além disso, com a grife da caça às bruxas, rotulam-nos de “anti-sionistas infantis” e “comunistas anti-Israel”. Quando divulgamos num dos informativos virtuais Boca no Trombone a nossa preocupação com o crescimento das manifestações de preconceito em várias partes do mundo, fomos acusados (!) de condenar a islamofobia. E por aí vai. Distorcer e coçar é só começar.


De que forma interpretar os ataques irracionais e desinformados? Por que será tão difícil para certos setores da comunidade judaica aceitar as vozes dissonantes? Por que se prefere a desqualificação do interlocutor em vez do diálogo? Há dois mitos rondando o ambiente comunitário. Ambos são boas chaves para decifrar estas questões. Vamos a eles.


1. O mito da unidade – É comum ler e ouvir que a unidade comunitária é desejável. A não ser em casos específicos, quando há um claro inimigo comum (o anti-semitismo, por exemplo), esta é uma perigosa ilusão. Somos uma sociedade profundamente dividida e, atrevo-me a dizer, é bom que seja assim. Há opções para todos os gostos: religiosos (de múltiplas correntes e origens) e laicos (entre eles os ateus), sionistas (de direita e esquerda) e não-sionistas (de direita e esquerda), e muitos etcetera. Cada grupo com suas referências, suas idiossincrasias. Mesmo a definição de quem é judeu não é universalmente aceita (há várias, todas legítimas). Onde, então, a unidade? Ela é, com razão, tema do anedotário judaico. Em nome dela, entretanto, pode-se tentar abafar os contrastes. A meu ver, é isto que alguns pretendem fazer com a ASA.
Veja-se, por exemplo, o clichê ideológico. Há os que tentam marginalizar-nos sob a “acusação” de “comunistas”. Esquecem por conveniência, ou não sabem, que a ASA é uma entidade apartidária, que abriga em sua diretoria ativistas filiados a várias correntes de pensamento. Nossas programações não são reféns de uma concepção isolada. Os que as freqüentam debatem abertamente, divergem com freqüência − salve a democracia! − e não parecem preocupados com o doutrinarismo cego que alguns querem nos atribuir. Os críticos rancorosos montaram uma fantasia, inspirada na Guerra Fria e no figurino totalitário. Ressurreição bolorenta dos tribunais macartistas.


2. O mito da perfeição de Israel – Aqui o bicho pega. Existe uma grave deformação conceitual, que iguala judaísmo a sionismo. Judaísmo é uma forma de identidade, que admite desde a forma religiosa até a concepção de nacionalidade, passando pela cultura. Nenhuma delas predomina sobre as outras. Desde a queda dos muros dos guetos na era do Iluminismo, ser judeu passou a ser uma escolha entre muitas alternativas possíveis. Sionismo é um projeto político, que nasceu como movimento de massas influenciado pelos nacionalismos do século 19. Foi amplamente minoritário nas direções das grandes kehilot européias até a Segunda Guerra Mundial. O Holocausto e a crise dos colonialismos viraram o jogo. É como doutrina política que o sionismo deve ser encarado e, como tal, sua aceitação ou rejeição deve ser vista com naturalidade. Não estamos diante de um dogma religioso, nem da ameaça de extermínio.
Com o interminável conflito árabe-palestino-israelense, segmentos sionistas fecharam um anel de aço em torno de Israel, protegendo-o de qualquer crítica e insinuando que judeus que ousam criticá-lo são traidores. Muitos não-judeus que não aderem ao ufanismo são tachados de anti-semitas. A imagem de um Estado perfeito, democrático para todos os seus cidadãos e socialmente justo, passou a ser o mantra daqueles segmentos, hoje claramente hegemônicos na comunidade judaica brasileira. Um dos leitores que escreveram ao Alef chegou a dizer que “uma entidade judaica (...) não deve acusar o Estado sionista de desrespeitar os direitos humanos”. Mesmo quando há provas definitivas de que isso acontece com grande freqüência.
Não adianta mostrar que a ASA já defendeu publicamente, mais de uma vez, a proposta de “dois povos, dois estados” para o conflito de Israel com os palestinos. Menos ainda que nossas programações, em momento algum, abrigaram quem defende a destruição de Israel. O problema é que estamos lidando com um preconceito e, como disse Einstein, é mais fácil dividir um átomo do que eliminar um preconceito. Quando exibimos o documentário Ponto de Encontro, que registra os contatos de famílias israelenses e palestinas traumatizadas por perdas violentas, houve gente que abriu o saco de bondades: que horror, essa turma só sabe mostrar os palestinos como anjinhos e os israelenses como vilões! Seria cômico se não fosse patético.
O jornalista Alberto Dines, ele mesmo um sionista esclarecido, criou a expressão ‘judeus da vitória’. Usando suas palavras: “em seguida ao triunfo na guerra de junho de 1967, passaram a trombetear a sua visão arrogante e xenófoba do judaísmo”. Xenofobia e arrogância que trazem à memória a campanha do ‘ame-o ou deixe-o’, da ditadura militar brasileira. Era a truculência verbal para calar a oposição. Quando ouço judeus dizendo que não há ocupação de territórios palestinos, que estes foram “libertados” pelo Exército israelense, percebo onde foi parar a xenofobia. Já dizia o poeta inglês Shelley: “O poder é como a peste: contagia todos que estão próximos.”


Dialogar não é fácil. Olhar o outro, percebê-lo, respeitá-lo (mais do que tolerá-lo), aprende-se ... dialogando. Clarice Lispector comentou que “a arte de discordar consiste, especialmente, em não agredir”. Mesmo isso não é mole, não. Afinal de contas, quem define o que é agressão? De qualquer forma, a aposta da ASA, dos judeus progressistas que se identificam com a ASA, é o diálogo, a legitimidade do dissenso. Este Boletim é um espelho concreto desta atitude. Aos que nos acusam do que não somos e/ou distorcem nossas posições, sugiro que baixem as armas. Vamos enriquecer a arte judaica da controvérsia.

Jacques Gruman é diretor de Comunicação/Divulgação da ASA e colaborador deste Boletim.

 

 

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