Idéia para o século 21
Heliete Vaitsman/ Especial para ASA
À medida que o sionismo e o Holocausto, os dois grandes marcos históricos do judaísmo do século 20, deixam de fazer parte da experiência vivida e se tornam itens da memória coletiva, também se desfazem as certezas sobre a transmissão da herança judaica. Desde o Iluminismo judaico do século 19, as indagações em torno do significado de ser judeu produziram milhares de páginas de reflexões. Filósofos, rabinos, eruditos, sociólogos e escritores continuam, hoje, a perguntar-se sobre a identidade judaica, num âmbito em que nada preencheu o vácuo deixado pelo declínio das utopias. Embora a maioria das respostas reitere valores consagrados, ocasionalmente surgem idéias instigantes, como a que aproveita o conceito do pós-modernismo para pensar uma nova categoria, o pós-judaísmo (Posjudaísmo – Debates sobre lo judio em el siglo XXI, org. Darío Sztajnszrajber, Prometeo Libros, 2007), que acolhe tudo, menos a desqualificação do outro e o banimento das alternâncias.
Tendo o judeu sido sempre o outro no Ocidente, ainda que um outro íntimo e até estável (Le Juif et l’Autre, Esther Benbassa e Jean-Christophe Attias, Le Relié, 2002), o judaísmo criou, por sua vez, alteridades e particularismos excludentes (das mulheres, dos homossexuais, dos desiguais). Isso não ajuda a viver num mundo em que convivem a globalização e reivindicações étnicas ancestrais.... Então, que cada um seja judeu à sua maneira, como proclama o sítio <www. yoktime.com>, que reúne o pensamento pós-judaico argentino e convida à exploração de novas formas de relação em marcos informais.
Não dispomos de estatísticas, mas os números das eleições comunitárias indicam que se repete no Brasil o quadro dos nossos vizinhos: segundo pesquisa recente, a maioria da população judaica de Buenos Aires e Grande Buenos Aires não freqüenta instituições da comunidade, ainda que considere “ser judeu” muito importante e busque padrões de pertencimento em valores culturais compartilhados − música, literatura, vida social, gastronomia. Daí o sucesso do movimento Yok, que costuma reunir milhares de judeus em atividades culturais, artísticas e sociais. São judeus de múltiplas identidades, sem uma unidade, nem por isso especialmente confusos (não mais confusos que os demais cidadãos, ao menos).
O pós-judaísmo prescinde de denominador comum. Não quer reformular os rituais para melhor mantê-los. E não se preocupa em prever se a maioria silenciosa judaica terá, em algum momento do século 21, representantes que substituam os autoproclamados herdeiros legítimos da tradição. “O pós não substitui, explora (...) Assumo posições que amanhã serão outras (...)”, provoca o filósofo Darío Sztajnszrajber, professor do Seminário Rabínico Latino-Americano, que considera o laicismo – algo bem diferente do ateísmo – um bom antídoto contra as angústias produzidas pelo fim das certezas.
Se é impossível entender o judaísmo sem a religião e sua narrativa coletiva, tampouco se pode entendê-lo sem o laicismo e sua dimensão individual. O escritor Moacir Scliar sintetizou o significado dessa dimensão ao afirmar que sua ligação com o judaísmo não se deve nem à fé nem ao orgulho nacional, mas a “forças emocionais poderosas”. Aqui, a psicanálise pode explicar mais que a sociologia.
Ser judeu laico no século 21 não é ser anti-religioso – é optar por relacionar-se com todos os discursos, inclusive o religioso (que inclui novas maneiras de exercer a espiritualidade, como mostra a emergência dos estudos cabalísticos). As crenças se tornaram só um dos possíveis elementos fundadores da existência, ao lado da filosofia, da arte ou da ciência. Os que dizem que judeu é tão somente o filho de mãe judia, ou insistem que casamentos mistos ameaçam o povo judeu, desconhecem a importância do compromisso identitário, que não se sujeita aos monopólios de sentido e poder (político e religioso, mas também econômico) do judaísmo. A auto-identificação prescinde da obediência cega às normas: o indivíduo se permite viver seu judaísmo como parte de um conjunto de valores, afetos e relatos que constituíram sua personalidade, admitindo como limites apenas aqueles dados pela ética e pelos direitos humanos.
Digamos que eu opte por não fazer jejum em Iom Kipur por não crer que isso garantirá a anotação do meu nome no Livro da Vida do próximo ano. Ora, a falta de jejum talvez nada signifique além do fato de que não creio que Deus olhe diretamente para mim... Indiretamente, isso me torna mais responsável por minhas ações (boas e más) na Terra do que se confiasse nas bênçãos e no perdão celestes. Polêmica interna que não deixa de ser bastante judaica!
Segundo Darío Sztajnszrajber, nascemos judeus sem saber por que e assim morreremos, sem respostas definitivas. “Mas como é difícil pensar deste modo!...Assumir que morreremos sem respostas!”, escreve. Em vez de substituir e superar, o pós-judaísmo sugere “desdogmatizar” e “ressignificar”. Ou existem valores judaicos que permanecem sempre idênticos a si mesmos?
A resposta do pós-judaísmo é um rotundo não.
Heliete Vaitsman, jornalista e tradutora, é colaboradora do Boletim ASA.
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