| A foto, a história - Boletim ASA nº 110, jan-fev/2008 |
Nélio Galsky/ Especial para ASA
Meu avô, Haim Tischler, nasceu em 1900. Dizer que ele completou 18 anos em um período conturbado da História polonesa seria um exemplo de redundância. Afinal, paz e prosperidade sempre tinham sido artigos de consumo raros, naquela região da Europa. Surgida das ruínas dos impérios Germânico, Austro-Húngaro e Tsarista, a Polônia restaurada de 1918 era carente de recursos e de unidade cultural. Primando pelos conflitos étnicos, a única coisa que as minorias alemã, lituana e ucraniana tinham em comum com a população polonesa majoritária era o anti-semitismo. Desta forma, para os cerca de três milhões de judeus da recém-criada República havia poucas perspectivas. A maioria sonhava em emigrar para a América, outros buscavam refúgio na riqueza espiritual do Hassidismo. Muitos veriam na Revolução de Outubro a passagem para um futuro melhor. Segundo meu avô, foi na época do seu engajamento na Marinha (foto), que ele teria tomado contato com as idéias socialistas. Dois anos depois, em 1920, o chefe do governo polonês, Pilsudski, invadiria a Rússia aliado a ucranianos anticomunistas. A sua derrota, próximo a Kiev, seria seguida por um contra-ataque do Exército vermelho, que chegaria às portas de Varsóvia. Para muitos judeus poloneses, a falta de oportunidades econômicas e políticas fazia a presença das tropas russas ser encarada mais como esperança do que como invasão. Sem contar que muitos líderes da Revolução eram de origem judaica. Porém, menos de seis meses depois do início dos conflitos, os bolchevistas seriam derrotados por uma coalizão liderada por um oficial francês (Weygand). De acordo com os poucos comentários que fazia com a família, Tischler teria se envolvido em uma conspiração para apoiar o Exército revolucionário. Com a derrota do movimento, foi obrigado a fugir para não ser preso. Chegando ao Brasil no final de 1922, ele viria a ter por toda a sua vida uma participação intensa na ala progressista da comunidade judaica. Ironicamente, a ordem de prisão e a militância socialista salvaram sua vida. Pois, se tivesse permanecido na Europa, provavelmente teria perecido no Holocausto como aconteceu com todos os seus cinco irmãos. Pouca coisa falava meu avô dos seus tempos de Polônia. A maioria das histórias que contava dizia respeito a sua juventude no Rio de Janeiro. Aliás, ao folhearmos o seu álbum de retratos fica impossível não notar a diferença entre as fotos da Europa e aquelas que registram os seus momentos iniciais no Brasil. Apesar de estarem separadas por apenas um ou dois anos, há um contraste flagrante entre elas. Nas primeiras, as pessoas estão sempre sérias e com poses formais. Nos cenários brasileiros, em geral, os personagens estão sorrindo. Ao contrário dos retratos poloneses, predominam as cenas ao ar livre. Não faltam festas e passeios pelas ruas do Rio de Janeiro. Em muitas, Tischler está com minha avó Rosa e Aron Shenker, jornalista e ativista da comunidade, que seria seu companheiro de ideais por toda a vida. Não deixa de ser interessante notar a descontração existente nas fotos cariocas. Em uma delas, meu avô e Aron aparecem até fazendo “pose” de chapéu de palha e bengala. Não resta dúvida de que, apesar de todas as dificuldades, o ambiente aqui encontrado era menos tenso ou oferecia mais perspectivas. Talvez, uma das razões para um certo otimismo estivesse nas promessas de transformações, que sacudiam o país no final da década de 1920. Aqui também existia o anti-semitismo. Mas as barreiras que separavam os judeus recém-chegados da sociedade brasileira não eram tão rígidas quanto na Polônia. Há um fato que talvez ilustre este último aspecto. Meu avô contava que, durante os seus primeiros anos no Brasil, recebeu a ajuda de um médico humanitário na doença e nos partos de sua esposa. Era Pedro Ernesto, naquela época já conhecido pelo apoio que dava ao Movimento Tenentista. Mais tarde, prefeito do Rio de Janeiro, seria preso sob a acusação de colaborar com a “Intentona” comunista de 1935. Tischler guardaria até o fim de sua vida os atestados e receitas fornecidos por ele. Um deles ainda está conosco, como uma espécie de relíquia da família. |
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