Beco da mãe - Boletim ASA nº 110, jan-fev/2008

Paixão que mata

Henrique Veltman / Especial para ASA

                  

 

Esta história até poderia ser transformada em filme ou seriado de televisão. Fica a sugestão.


Em 1912, em São Paulo, um jovem imigrante judeu, provavelmente clientéltchik, matou-se com um tiro na cabeça. E ganhou uma reportagem no Estado de São Paulo.
Nos entretítulos da matéria (hoje, a imprensa brasileira aboliu essa forma de iniciar as reportagens), a gente lê que

 
“Um moço, julgando-se abandonado pela mulher que amava, põe termo à existência disparando um tiro de revólver na cabeça − Em um quarto do hotel ‘Universo’ − Quem era o suicida − Outras informações”. “O amor, mais uma vez, armou ontem o braço de um homem de espírito fraco, fazendo com que ele, em um momento de exaltação, pusesse termo à existência, disparando um tiro na cabeça.”

 

Vocês já percebem, pelo tom do lead, que essa história bem poderia servir de roteiro para um filme. Abrahão Scholnick, este era o seu nome, há já bastante tempo aportara no Brasil, cheio de energia, esperanças e boa vontade. O jornal sugere que o rapaz mascateou por vários Estados e por fim chegou São Paulo. Mais ainda, o Estadão informa que ele trouxe economias, “fruto de um labor insano, muitas vezes exposto à chuva ou ao sol para fazer jus a um minguado salário”. Trabalhando muito, Abrahão reuniu-se a dois patrícios e se estabeleceu com uma grande casa de gramofones, à Rua de São João, nas proximidades do Largo do Paissandu. Nascia a firma Kobilisky, Raichberg & Cia.


Seus negócios prosperaram e Abrahão passou a residir no quarto n˚ 42 do Hotel Universo (Rua de São João, fundos para o beco do Paissandu, 6).
A vida decorria calma, até conhecer Elvira, por quem se apaixonou. Ela correspondeu ao amor ardente do jovem. Um dia, porém, Elvira mudou seus sentimentos.” Já não era a mesma dos outros dias. Negava-lhe os seus carinhos e os seus grandes olhos negros desviavam-se do olhar ardente e apaixonado do negociante”, registra o Estadão.
Elvira não mais esperava à janela, como outrora. Mas Abrahão continuava apaixonado. Insone, passava as madrugadas lendo romances de amor, cheios de cenas repassadas de ternura, terminando quase sempre pelo suicídio do protagonista, que se via abandonado pelo ente amado.
Abrahão tentou uma reconciliação. Nada feito. Elvira não queria mais saber do rapaz. Desvairado, ele se recolheu ao quarto e algum tempo depois um disparo chamava a atenção dos demais hóspedes do hotel.


A imprensa teve acesso ao quarto de Abrahão. Estava tudo em ordem. Sobre uma pequena mesa, junto ao lavatório, estava o paletó, um chapéu mole, preto, uma gravata e o colarinho.
Em uma cama de casal, o corpo do infeliz moço, com uma perna caída para o chão e a outra apoiada nos pés da cama. Tinha a cabeça em uma poça de sangue e ainda vivia.
Na mão direita empunhava o revólver e na outra um volume do Romance de um moço pobre, aberto na página 37. Ao lado, estavam dois volumes do Amante ideal, de Victorien du Saussay, e o Como se conquistam mulheres ou Conselhos a um rapaz.


Ele foi removido para a Santa Casa. Tarde demais: logo exalou o seu último suspiro. Amigos e patrícios fizeram o funeral. Deve ter sido sepultado no Cemitério dos Protestantes, ali na Consolação. A conferir.

Uma entrevista memorável

Moysés marcou a entrevista para o início da tarde. E me levou junto. Aliás, meu irmão me levava para todos os lados, entrevistas, teatro, óperas. Acho que o entrevistado morava num apartamento térreo da Rua Pedro Guedes, quase esquina de Ibituruna. Não tenho muita certeza. Enquanto meu irmão conversava com aquele senhor bem velhinho, eu (ainda de calças curtas) me deliciava com o refresco e os docinhos que uma senhora bondosa, dona Amélia, me oferecia.
Depois de um certo tempo − me pareceu uma eternidade −, as despedidas, tchau, foi um prazer, até mais ver. Claro, a entrevista foi publicada no GHB, jornalzinho do Hebreu Brasileiro. E eu levei muitos anos pra descobrir que o entrevistado era Clóvis Beviláqua, e que Moysés tinha, na ocasião, apenas 13 anos!
Jornalista, jurista, magistrado, historiador, político e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Clóvis Beviláqua foi convidado pelo presidente Epitácio Pessoa a elaborar o anteprojeto do Código Civil Brasileiro. O que ele fez até março de 1900. Código que vigorou até recentemente. “A inteligência, irmanada com a força de vontade e com a esperança, produz uma idéia”, palavras do grande jurista.
Provavelmente, a entrevista ao GHB foi a última concedida por Clóvis Beviláqua, que faleceu poucos meses depois do seu encontro com Moysés.

 

Henrique Veltman, carioca, 71 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador deste Boletim.

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