| A foto, a história - Boletim ASA nº 109, nov-dez/2007 |
Paulo Blank / Especial para ASA
Convidado para escrever nesta página, pensei na foto batida nos areais de Ashquelon, a 12 quilômetros da Faixa de Gaza, nos idos de 1960. Quando fui procurá-la, havia desaparecido. Nela, entre restos de construções abandonadas e alguns cactos, dois rapazes olhavam em direção à maquina fotográfica com a expressão compenetrada. Atrás deles a planície arenosa se estendia até o horizonte, onde o Mediterrâneo lambia a praia cheia de ruínas do antigo porto despedaçado. O rapaz espichado de braços largados ao longo do corpo e calça preta pesca-siri era eu, vindo direto da Praça Onze, onde a família embarcou em direção à travessia dos mundos. O meu companheiro de foto era o Moshé. Sabra nascido em Tel Aviv, era mais alto do que eu e tinha ombros largos, o queixo quadrado, e um olhar determinado por baixo das sobrancelhas cheias. Um cara inteligente que tentava me tirar dúvidas nunca sanadas de matemática, física, química, qualquer coisa que tivesse a ver com números. Anos depois, quando conseguiu me redescobrir aqui no Brasil, Moshé me diria que tinha fascínio pelo que considerava a minha modernidade. Afinal, eu havia chegado da América. Ele nunca esqueceu que eu usava um suéter vermelho com gola em V e uma echarpe comprada num camelô em Nápoles. No inverno eu pegava a echarpe, dava-lhe um nó meio agravatado e enfiava as pontas por dentro da gola do suéter. Coisas da minha mãe e suas origens européias. Morávamos num conjunto residencial onde algum candidato a Messias resolvera juntar judeus de todas as cores e tradições. Eu lhe contava do Brasil e ele me introduzia em verdades que não se falavam em sala de aula. Freqüentemente, Moshé incomodava os professores trazendo questões que, na época, poucos ousavam discutir. Estudávamos numa escola erguida em enormes barracões cobertos de zinco, em um país cheio de opiniões e conflitos, onde eu aprendia a velha arte judaica da controvérsia. Tsalaf se diz em hebraico do sujeito de mira apurada. Moshé, que sempre se destacou nos nossos exercícios de tiro, acabou sendo um tsalaf do Exército e por isto tinha uma ferramenta de trabalho pessoal e sofisticada. Um fuzil de última geração, todo desmontado numa caixa de couro, atestava a sua importância e o seu profissionalismo. Quando se fazia necessário, ele era levado até a frente de batalha e, depois de montar peça por peça a sua arma, começava a tarefa. Naquele dia de 1973, depois do susto da ofensiva egípcia, veio a reação de Israel, e Moshé foi transportado até as margens do Suez. Um superior mais afoito ordenou que Moshé, já instalado e com o seu fuzil pronto, atirasse em “qualquer pessoa” que se movesse no canal. Como muitos de seus companheiros do Tsahal, Moshé acreditava no tohar haneshek, a pureza das armas, o princípio de que existe uma ética até mesmo durante a guerra. “Qualquer pessoa” era bem diferente. Desconfiado, perguntou se podia ser um civil. Sim, respondeu o oficial, e, surpreso, ouviu o seu subordinado recusar a ordem. Diante daquela atitude, o superior ameaçou-o de prisão se continuasse a desrespeitá-lo e disse que ele mesmo atiraria se o franco-atirador não o fizesse. Com a mesma determinação com que o vi contestar os professores na escola, Moshé avisou ao seu comandante que, se desse mais um passo em direção à arma pela qual era responsável, seria forçado a atirar nele. É claro que o tempo fechou. Moshé foi preso, mas, depois de alguns dias de cadeia, convenceu outros soldados prisioneiros como ele a fazer uma greve de fome por melhores condições de alimentação. Foi transferido para um lugar onde oferecesse menos perigo e, mais tarde, desligado do Exército. Passado um tempo, mudou-se para Nova York, de onde veio me visitar anos depois. Quanto à foto que sumiu, como a Itabira de Drummond, ficará como um retrato pendurado na parede incerta da memória. Paulo Blank é psicanalista e escritor. |
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