Beco da mãe - Boletim ASA nº 109, nov-dez/2007


Comunista-mirim

Henrique Veltman / Especial para ASA

                  

 

Acredite quem quiser, mas eu fiz parte da turminha comunista da ABDE (Associação Brasileira de Escritores). De calças curtas! Claro, foi meu irmão Moysés quem me levou pra lá, na sede da avenida Beira-Mar. Eu assistia às reuniões de bico calado, e participava dos almoços na Casa Urich, restaurante da Rua São José, onde os intelectuais disputavam quem iria pagar a conta na base da descrição de situações inacreditáveis: já imaginaram Mário Lago descrevendo casos nojentos, esperando pra ver quem não agüentaria e pediria penico ?

Pois foi exatamente como membro dessa turma que, quando da realização do Congresso da ABDE, no Instituto de Educação, fui designado como delegado-mirim!
Esse congresso, em 1945, realizou-se em pleno Estado Novo, sob as lideranças de Jorge Amado, Sergio Milliet e Aníbal Machado. Exigiu a volta da democracia e garantias de liberdade de expressão. Todos esses encontros deixaram claro o seu caráter político e as preocupações com os problemas mais urgentes da época.

Fora do programa no Instituto de Educação, aconteceu um almoço na Quinta da Boa Vista. Eu, do alto dos meus nove anos, fui grandemente paparicado pelos escritores...
   

Guardo ótimas recordações da ABDE. Foi lá que o maestro Cláudio Santoro nos explicou, ilustrando sua palestra com gravações de Schoemberg & adjacências, o que era o dodecafonismo... Foi lá que o poeta Gastão de Holanda queria porque queria conquistar uma homenagem da associação, mas foi barrado pela ação do Dias Gomes. E Gastão queria resolver o assunto na marra. Mas foi contido pela pronta reação de outros poetas...
   

A Associação Brasileira de Escritores foi criada em 1942 por intelectuais democratas, em geral contrários ao Estado Novo. Desde o início os comunistas dela participaram, tornando-se majoritários em sua direção a partir de 1945. Muitos intelectuais e artistas brasileiros acabaram se afastando da ABDE, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Érico Veríssimo, Otto Maria Carpeaux,  Álvaro Lins, Alceu Amoroso Lima.
   

Um dos momentos mais dramáticos do processo de cisão da intelectualidade brasileira ocorreu exatamente durante a eleição da ABDE em março de 1949. Surgiram, pela primeira vez, duas chapas: uma apoiada pelos comunistas e outra pela oposição dos liberal-democratas. Dessa chapa de oposição participavam Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Afonso Arinos de Melo Franco, Otto Maria Carpeaux, entre outros – a grande parte deles havia assinado o manifesto de 1947 e apoiado os candidatos comunistas.
   

Contam as crônicas da época que os intelectuais chegaram a entrar em confronto físico pela ata da reunião. Carlos Drummond de Andrade foi agredido. Os comunistas ganharam a eleição, mas a organização se esvaziou, perdeu seu caráter unitário – de frente cultural – e toda a importância que teve nos anos anteriores.
   

Intelectuais como Antônio Cândido e Sérgio Milliet foram tachados pela revista Fundamentos (do Partidão) de “escória cultural da terra, em que pontificam tarados, renegados, lumpens e até mesmo alguns retardados mentais”.  Um artigo desta fase foi o de Osvaldo Peralva, intitulado “Os intelectuais que traíram o povo”, na revista Paratodos. Sobre Carlos Drummond ele afirmava: “anticomunista raivoso, para quem a lealdade jamais constituiu uma pedra no meio do caminho”. O crítico comunista Emílio Carréra Guerra, referindo-se ao grande poeta, escreveu: “Essa doença que lhes faz ver tudo negro, num mundo de problemas e contradições sem saída, é próprio de sua gente, da classe podre, arcaica, degenerada e moribunda”.
   

Magoado com a atitude dos comunistas, o poeta Manuel Bandeira afirmou: “Houve um tempo em que vi com bons olhos os nossos comunistas (...) O episódio da ABDE me abriu os olhos. Hoje sou insultado por eles ao mesmo tempo em que sou tido como comunista por muita gente.”

                                                     

Uma entrevista memorável
   

Moysés marcou a entrevista para o início da tarde. E me levou junto. Enquanto meu irmão conversava com aquele senhor bem velhinho, eu me deliciava com o refresco e os docinhos que uma senhora bondosa, dona Amélia, me oferecia.
   

Depois de um certo tempo – me pareceu uma eternidade, as despedidas, tchau, foi um prazer, até mais ver. Claro, a entrevista foi publicada no GHB, jornalzinho do Hebreu Brasileiro. E eu levei muitos anos pra descobrir que o entrevistado era Clóvis Beviláqua, e que Moysés tinha, na ocasião, apenas treze anos !
     

Jornalista, jurista, magistrado, historiador, político e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Clóvis Beviláqua foi convidado pelo presidente Epitácio Pessoa a elaborar o anteprojeto do Código Civil Brasileiro. O que ele fez até março de 1900. O Código  vigorou até recentemente. “A inteligência, irmanada com a força de vontade e com a esperança, produz uma idéia”, palavras do grande jurista.
   

Provavelmente, a entrevista ao GHB foi a última concedida por Clóvis Beviláqua, que faleceu poucos meses depois do seu encontro com Moysés.

 

Henrique Veltman, carioca, 71 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador deste Boletim.

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