| Sefarad - Boletim ASA nº 109, nov-dez/2007 |
Aron Hazan / Especial para ASA
No ano de 1071, os turcos seljúcidas iniciaram a conquista da atual Turquia, derrotando os exércitos do fraco Império greco-bizantino. Os judeus (conhecidos como romaniotas) respiraram aliviados, os turcos os libertavam dos seus opressores. Mas a felicidade durou pouco, pois veio a reação européia, conhecida como Cruzadas, que provocou a destruição de muitas comunidades. No século 13, empurrado pelos mongóis, o clã dos otomanos chegou à Turquia, instalando-se num território fronteiriço. Em 1492, o sultão Bajazé 2˚ ironizou a inteligência (?) de dom Fernando, que, ao expulsar os sefaradim da Espanha,empobrecia seu reino e enriquecia o Império turco. O Império se empenhava para que nada faltasse às dezenas de milhares de escorraçados da Península Ibérica. Os sefaradim, que receberam muita ajuda dos romaniotas, foram instalados em várias cidades − em Salônica, durante 400 anos o ladino foi a língua principal. Médicos judeus (como algumas gerações da família Hamon) passaram a servir aos sultões, atuando muitas vezes como conselheiros e conseguindo benefícios para seus compatriotas. Em 1517, o sultão Selim conquistou a Síria, a Palestina e o Egito. As comunidades judaicas locais, conhecidas como mizrahim (orientais), passaram para o domínio otomano. Muitas vezes confundidas com os sefaradim, adotaram deles a liturgia mas não o ladino, e continuaram falando árabe. Solimão, o Magnífico, chamado de Shlomó Haméleh (rei Salomão), foi o grande protetor dos judeus, defendendo-os das arbitrariedades de vários monarcas europeus. Além do Duque de Naxos, título que Nassi recebeu do sultão, outro judeu que muito se destacou na política externa do Império otomano foi Salomão Eskenazi, que conseguiu obrigar a República de Veneza a devolver bens confiscados dos judeus. Enquanto isso, mais e mais cristãos novos chegavam ao Império otomano. Mas, com a transferência do eixo comercial do Mar Mediterrâneo para o Oceano Atlântico, os marranos passaram a procurar Antuérpia, Amsterdam, Hamburgo, o que colaborou para o declínio da comunidade judaica do Império turco. Outro golpe foi o episódio do falso messias Sabetai Tsvi. O alvoroço entre os judeus que acreditaram nele e a sua conversão ao islamismo levaram os rabinos a exercer maior influência sobre as comunidades e a impedirem contatos com o exterior. Até o ladino, escrito com letras latinas, passou a usar mais letras hebraicas. Os judeus, outrora cultos e procurados pelos otomanos para cargos de confiança, perderam suas posições para armênios, gregos, eslavos, maronitas e outros. Mas a Turquia continuava aberta para os judeus perseguidos, como aqueles que sobreviveram aos massacres realizados pelos cossacos na Ucrânia. Era a vez dos judeus ashquenazim encontrarem refúgio no território turco. No século 19, a Alliance Israélite Universelle, com um ensino moderno e o estudo do francês, dava novas oportunidades aos jovens judeus. Muitos, assim como donmes (seguidores de Sabetai Tsvi), ingressaram em movimentos que pediam reformas, como os Jovens Turcos. A deposição do sultão Abdulhamid 2˚ trouxe a igualdade para os povos subjugados pelo Império. Os judeus deixaram de ser dhimmis, mas também perderam o direito de não servir o exército mediante uma taxa conhecida como bedel. Este fato marca o início das grandes migrações dos judeus turcos. No entanto, também muitos judeus fugindo da opressão czarista eram aceitos na Turquia e seguiram para a Palestina. Entre 1948 e 1956, 40 mil judeus imigraram para Israel. Atualmente, 25 mil vivem na Turquia, dos quais 22 mil em Istambul. Aron Hazan é cientista social e professor de História.
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