| Cinema - Boletim ASA nº 109, nov-dez/2007 |
Newton Goldman / Especial para ASA
O todo-poderoso L.B.Mayer, que dirigia a Metro com mão de ferro, tinha uma predileção especial pelos filmes da série de Andy Hardy, em que o adolescente vivido por Mickey Rooney se metia em pequenas trapalhadas das quais no final era perdoado, após sofrer uma boa descompostura do pai, o sábio juiz Hardy. Esta série retratava uma América absolutamente fantasiosa, imagem que Louis B. desejava vender para o mundo e que correspondia a um ideal de ordem e perfeição, um reflexo da personalidade deste indômito produtor. Em um dos filmes da série, um roteirista sugeriu que Andy Hardy desse um beijo um pouco mais ousado na sua eterna namoradinha, Polly Benedict. Ao ouvir semelhante heresia, Mayer avançou para cima do escritor e lhe perguntou se não achava que ela deveria também desabotoar a braguilha das calças do adolescente, já que no ideário Mayer todos os meninos direitos dos Estados Unidos só faziam sexo após o casamento e, mesmo assim, unicamente com o fito de procriar. A Metro de Mayer era um templo de dignidade, princípios morais rígidos, amor filial e patriotismo. Seu filme favorito, A comédia humana, produzido em 1943, narrava as desventuras e a coragem de uma família cujo filho havia partido para a guerra. Sempre que via o filme, Mayer se derramava em lágrimas, e durante algum tempo ofereceu o céu e a terra para o idealizador da história, o escritor William Saroyan. Todos os domingos, o chefe do estúdio reunia em casa, para um lauto almoço, a maioria dos astros e estrelas da Metro, e ai daquele que faltasse, pois para os atores ele gostava de posar como um pai, um confidente e um conselheiro. Este papel de pater familias fez com que o humorista J.S.Perelman causticamente rebatizasse a sigla M.G.M como Mayer’s Gantse Mishpohe. No restaurante do estúdio, instituiu uma sopa de galinha com bolinhos de matse, receita herdada da mãe russa. Outra piada da época foi a entrevista de Robert Taylor com L.B. para pedir aumento. Depois de uma hora de lamentações, choros, abraços e protestos, Taylor saiu da sala e, perguntado se havia obtido o aumento, respondeu: “Não sei,só sei que ganhei um pai!” Leizer Meir nasceu em 1885, numa pequena cidade chamada Dymer, na Ucrânia, lugarejo situado alguns quilômetros ao norte de Kiev. Quanto ao dia de nascimento, ao se naturalizar americano, em 1911, optou por 4 de julho, data da independência americana. Durante a infância, a família que havia imigrado para os Estados Unidos no final do século 19, viveu em vários lugares, acabando por se radicar em Nova Brunswick, no Canadá, onde o pai montou um pequeno ferro-velho, enquanto a mãe (a esta altura com mais duas filhas e dois filhos, além de Leizer) ajudava no orçamento familiar vendendo galinhas de porta em porta. Data dessa época a idolatria de L.B. pela mãe, devoção que pautou grande parte dos seus atos e que o norteou na educação de suas duas filhas: Edith e Irene. Ao se naturalizar, adotou o nome de Louis B. (Burton ou Barton), modificando o sobrenome para Mayer, que possuía um som mais americano. Muito jovem ainda, mudou-se para Boston, casou-se com a filha de um açougueiro kosher e se dedicou ao negócio de ferro-velho, mas, ao contrário do pai, prosperou, e de tal forma que passou a procurar maneiras de diversificar seus negócios. Ao perceber o interesse do público pela novidade que era a exibição dos filmes de um rolo, Mayer reformou uma velha casa de espetáculos, colocou sua mulher na bilheteria, usou o irmão como lanterninha e deu início a uma série de compras e reformas de velhos teatros, formando uma respeitável cadeia de cinemas no estado da Nova Inglaterra. Ao assistir ao épico de Griffith O nascimento de uma nação , em 1915, ficou tão entusiasmado que adquiriu os direitos de exibição do filme por todo o Estado, tornando-se um milionário em pouco tempo. Em 1917, muda-se para Nova York e começa a produzir filmes, criando a empresa Alço, que mais tarde receberia o nome de Metro. Dali, mudar-se para Los Angeles, associar-se a Marcus Loew e aos irmãos Schenck (acionistas e donos de uma enorme cadeia de cinemas em toda a América) foi um passo. Em 1923, contrata um jovem de 23 anos chamado Irving Thalberg, que se havia revelado um gênio na administração da Universal, compra junto com Loew as ações e uma parte do terreno de Samuel Goldwyn e funda, em 1924, a Metro Goldwyn Mayer, que viria a ser um dos estúdios mais importantes durante as décadas de 1920,30,40 e início dos anos 50. L.B.Mayer foi o homem que acreditou no talento de Greta Garbo, Clark Gable, Jean Harlow, que cuidou pessoalmente das carreiras de Judy Garland, Mickey Rooney, Greer Garson e Elizabeth Taylor, que criou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e que foi durante mais de trinta anos o assalariado mais bem pago dos Estados Unidos. Nada mal para um imigrante judeu, dono de um depósito de ferro-velho. Newton Goldman é tradutor e apaixonado por cinema.
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