| Israel - Boletim ASA nº 109, nov-dez/2007 | |||||
Moisés Storch / Especial para ASA
Ao final da Segunda Guerra Mundial, os ingleses − que no final da Primeira Guerra haviam tomado do Império Otomano o poder colonial sobre a Palestina – não conseguiam mais impor sua autoridade aos 2 milhões de árabes e judeus que a habitavam. Os confrontos entre os movimentos de libertação nacional concorrentes, o judeu (sionista) e o árabe, atingiam seu clímax. O império britânico exercera uma política pendular – privilegiando ora judeus, ora árabes. Em 1917, a Declaração Balfour oficializou sua “simpatia pelas aspirações sionistas”, afirmando-se “favorável ao estabelecimento na Palestina de um Lar Nacional para o povo judeu”. Mas, já em 1922, imigrados 25 mil judeus após a Declaração Balfour, o Churchill White Paper retirou a Transjordânia do Mandato da Palestina e afirmou que “a imigração não poderia exceder a capacidade econômica do país para absorver novas chegadas”. Um massacre dizimou a antiga comunidade judaica de Hebron em 1929. Kibutzim tinham que manter guarda dia e noite. Em 1935, os árabes iniciaram uma greve geral contra a imigração judaica. Ataques armados se multiplicaram contra judeus e ingleses. O sentimento antijudaico era potencializado por líderes carismáticos como o múfti de Jerusalém, Haj Amin Al-Husseini, que mais tarde se aliaria a Hitler. Uma proposta inglesa de partilha (a Peel Commission) foi por eles rejeitada, e a violência prosseguiu até 1939, ano em que se publicou o MacDonald White Paper (Livro Branco). Abandonando a idéia da partilha, os ingleses proibiam toda imigração judia, vedavam aos judeus a compra de terras na maior parte da Palestina e propunham a criação de um Estado Palestino binacional governado por árabes e judeus segundo o número de habitantes (25% da população eram judeus). A Inglaterra, indiretamente, foi culpada pela morte de centenas de milhares de judeus europeus, ao fechar uma saída vital para escapar do inferno nazista. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, reveladas as terríveis dimensões do Holocausto, havia um consenso mundial pela criação de um Estado judeu. A Inglaterra, criticada por impedir a imigração judaica e tendo suas forças combatidas por árabes e judeus na Palestina, entregou a questão às Nações Unidas, já na sua 1ª Assembléia Geral. Em 29 de novembro de 1947, a 2ª Assembléia Geral da ONU aprovou por maioria de 2/3 a Resolução 181, partilhando o Mandato da Palestina em dois Estados soberanos, um judeu e um árabe. O objetivo sionista era endossado mundialmente: construir na Palestina um país que pudesse servir de refúgio seguro para os judeus, um povo sem terra, que por séculos foi vítima indefesa de perseguições e preconceitos. Entre os 33 votos favoráveis, Brasil incluído, estavam as duas superpotências emergentes, Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS). Foi uma das raras vezes em que ambas estiveram na ONU do mesmo lado. Segundo Avi Davis, “na visão de Stálin, a criação de um Estado judeu moderno teria maior possibilidade de deter a influência do Ocidente do que um regime árabe retrógrado... Terminada a Segunda Guerra, os soviéticos ficaram sem nenhuma área de influência no Oriente Médio. As grandes reservas de petróleo da Arábia Saudita e do Iraque estavam sob controle de empresas petrolíferas americanas e inglesas. Stálin não tinha nenhum amor pelos judeus, mas percebeu na formação socialista da liderança sionista uma oportunidade única para fincar o pé da URSS na região...”. Em 1947, a URSS atacou a política britânica de impedir a imigração para a Palestina de centenas de milhares de judeus amontoados na Europa em campos de refugiados. Após a votação, o bloco soviético foi o principal fornecedor de armas ao novo exército israelense. O presidente Truman não via como estratégica a criação de um Estado judeu fraco e dependente do Ocidente. Pesavam mais os interesses petrolíferos nas alianças com os países árabes.
Por outro lado, antevia uma grande injustiça para os judeus da Palestina e os sobreviventes do Holocausto, caso não fosse criado o Estado judeu. Só às vésperas da votação, após a Liga Árabe declarar que enviaria tropas de seus países para a fronteira palestina, os Estados Unidos se definiram a favor da resolução. O mapa da partilha considerava a distribuição demográfica das comunidades árabes e judias. E a utopia de uma intensa cooperação entre elas.
Previam-se dispositivos para preservar a liberdade de trânsito e de visita entre os dois Estados e Jerusalém. Garantiam-se em cada uma dessas áreas o acesso a locais sagrados e a proteção dos direitos e liberdades de religiões, minorias e gêneros. Determinava o ensino livre de línguas e tradições culturais das respectivas minorias em estabelecimentos educacionais próprios. A resolução 181 estipulava, já em seu título, a união econômica entre os dois futuros Estados, descendo a detalhes como moeda única, taxas alfandegárias comuns e livre-comércio entre eles: “... Será estabelecido um Comitê Conjunto de Administração Econômica, que consistirá de três representantes de cada um dos dois Estados e três membros estrangeiros nomeados pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas.” [Parte I – D.3] Se esta concepção era, no mínimo, ousada para a época, o traçado das fronteiras pressupunha uma intensa cooperação pacífica entre judeus e árabes, inimaginável naquele clima: cada um dos dois Estados se comporia de três sub-regiões não-contíguas, ligadas entre si por estreitas passagens cuja travessia só seria possível num clima de completa paz. Atendendo à urgência do momento, a resolução ainda determinava explicitamente o levantamento pelos britânicos das restrições à imigração de judeus: “A potência mandatária irá envidar seus melhores esforços para assegurar que seja evacuada, na data mais próxima possível ... uma área situada no território do Estado judeu, incluindo um porto marítimo e espaço em terra adequados para oferecer facilidades para uma imigração substancial...” [Parte I – A.2] Enquanto a liderança da comunidade judia na Palestina (ishuv), apoiada por judeus do mundo todo, aceitava o plano, os seis países da Liga Árabe − Egito, Iraque, Líbano, Arábia Saudita, Síria e Iêmen − rejeitaram a resolução, acompanhados apenas por Cuba, Grécia e Índia. Não admitiam qualquer entidade soberana judia na região. Os árabes palestinos, em vez de se organizarem em instituições políticas para estabelecer um Estado independente – como o ishuv – ficaram à mercê de um clima ideológico que pregava abortar o nascimento do Estado judeu. Bernard Lewis observa que já “em 17 de dezembro de 1947, o Conselho da Liga Árabe anunciou que iria impedir pela força a partilha proposta da Palestina...” Em 14 de maio de 1948, o Reino Unido renunciou ao Mandato da Palestina, retirando suas tropas. No mesmo dia, em meio a uma onda de violência entre as comunidades árabe e judia, foi proclamada a independência do Estado de Israel. Na declaração se lê:
O nascente Estado judeu foi imediatamente atacado por exércitos regulares dos países árabes vizinhos. O incipiente Exército de Defesa de Israel conseguiu conter os ataques. Após meses de combates sangrentos, repeliu a invasão e ampliou suas fronteiras, especialmente na Galiléia. O choque dos dois movimentos nacionais, competindo pela mesma pequena terra, é alimentado pelo que Uri Avnery chama de ‘Duelo de Traumas’. “Os judeus trazem consigo o velho trauma da perseguição dos judeus na Europa − massacres, expulsões em massa, a Inquisição, pogroms e o Holocausto...”. A defesa contra ataques árabes era sentida como a batalha pela sobrevivência de alguém que por pouco acaba de escapar de ser assassinado. Do lado árabe-palestino, os imigrantes judeus são vistos como novos colonizadores. A vitória de Israel em 1948 significou o que os palestinos chamam de Nakba (Catástrofe). Conforme Avnery, “a guerra iniciada pelos árabes após o plano de partilha foi inevitavelmente uma guerra “étnica”, onde cada lado busca conquistar tanta terra quanto possível e remover a população do outro lado...”. A Nakba foi também uma catástrofe humanitária para 750 mil palestinos, deslocados pela guerra para acampamentos de refugiados nos países vizinhos. Boa parte deles e seus descendentes são até hoje mantidos por fundos da ONU, em condições miseráveis, sem quaisquer direitos de cidadania. A identidade nacional árabe-palestina foi se forjando no exílio, em função da sua trajetória de sofrimento como povo destituído da terra. Por uma trágica ironia da História, um fenômeno idêntico ao que havia gerado a identidade nacional judia, o sionismo. Iniciaram-se em Oslo conversações secretas entre representantes de Israel e da OLP, que culminaram em setembro de 1993 no reconhecimento mútuo dos direitos nacionais dos dois povos. Hoje temos um primeiro-ministro em Israel e um presidente na Autoridade Palestina, eleitos ambos com a plataforma de implementar uma solução de dois Estados. Moisés Storch é coordenador dos Amigos Brasileiros do PAZ AGORA – www.pazagora.org.
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