Pelo diálogo
Diz a sabedoria popular que há muitas formas de se escaldar um gato. Assim também com a solução de conflitos. Pode-se apelar para a violência, possibilidade sempre latente em qualquer sociedade, ou apostar no consenso construído pelo diálogo.
O cinema mostrou, recentemente, histórias que ilustram algumas alternativas em jogo. Exibimos em outubro o documentário Ponto de Encontro (ver NOTAS), que relata exemplos muito fortes de superação da dor. Palestinos e israelenses que passaram por perdas traumáticas, como o assassinato de parentes e amigos em ações militares e atos terroristas, recusam a vingança e investem na arte do diálogo. Comunicando-se diretamente, descobrem a humanidade de pessoas antes pintadas como brutais e insensíveis. Debatendo com o público, a diretora Julia Bacha informou que cresce o número de famílias que aderem a esta iniciativa. É a difícil arte do encontro desafiando a espiral de violência.
Tropa de Elite virou mania nacional. Antes mesmo de estrear, o filme ganhou versões piratas que inundaram o mercado. No debate acalorado sobre o possível caráter “fascista” do filme, uma questão se sobressai: é legítimo alguém usar sistematicamente a tortura como método de trabalho? Mais ainda: matar os traficantes de drogas a granel, não raro com requintes de crueldade, resolve o problema da violência urbana? Há notícias de que, em diversas sessões, as platéias aplaudem tanto a tortura como a brutalidade policial. Os “caveiras” do BOPE são promovidos a anjos exterminadores, a agentes da revanche. A desumanização na grande cidade não distingue suas vítimas.
Duas situações, duas saídas. Claro que se trata de contextos sociais e históricos muito diferentes. No entanto, em cada um deles sempre está à mão a alternativa mais complexa, ou seja, a de que os problemas podem ser enfrentados sem necessariamente se colocar o dedo no gatilho. Quanto mais harmoniosa e equilibrada for uma sociedade, menores serão os índices de violência. Quanto mais olho no olho, menos olho fechado e debaixo da terra.
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