A foto, a história - Boletim ASA nº 108, set-out/2007


Vá visitar nossa filha

Helena Dora Wstazka / Especial para ASA

                   

           Tudo pronto para a grande viagem. Vacina, passaporte, visto, passagem e carta de chamada. Kaluszin ficara para trás havia alguns anos e, agora, Varsóvia também seria parte de suas lembranças. Faria a América como milhares antes dele. Iria para o Brasil, onde alguns tios moravam.   Não havia navio direto. Ele iria ao porto de Gdinia, de lá até Cherbourg, na França, e então pegaria outro navio até Santos.
Nas vésperas, amigos, vizinhos, parentes vêm se despedir. Um casal lhe pede que vá visitar a filha, que mora em Santos. Eles contam orgulhosos que sua menina está muito bem, tem uma confecção em sociedade com outra imigrante − até lhes manda constantemente uma ajuda −, e seu noivo é um prestamista religioso. Tanchim guardou com cuidado o endereço junto com o de seus parentes.
Algum tempo depois, instalado e empregado em São Paulo, resolveu passar um domingo em Santos. Acostumado a invernos rigorosos, encantou-se com o clima ameno. E aquele era um dia muito bonito para passear.

          Sempre muito estudioso, comprara, ainda na Polônia, um dicionário polonês-português que era de muita valia na comunicação. Com alguns pedidos de informação, localizou o endereço da moça.  Foi atendido por uma mulher em penhoar de lingerie, que o convidou a entrar e chamou em voz alta pelo nome da jovem procurada: “Rifka, vem cá! Tem um rapazinho lindo, de faces coradas, querendo ver você!”

          Chega, então, uma mulher bonita, nos mesmos trajes da outra. Ela se emociona ao ouvir notícias dos pais. E começam a chegar várias mulheres, que acham muita graça naquele jovem gringo. E logo fazem um cerco bem animado em torno dele. Todas querendo dar-lhe atenção “especial”.

          A confecção era um randevu. A imigrante era prostituta. E não era a dona.  Colocadas em dia as novidades de Varsóvia, Rifka lhe pede que não conte para a família qual é o seu verdadeiro trabalho. Ele concorda. Cumpriu a promessa e jamais escreveu uma linha sequer sobre o que viu.  Anos depois, os pais dela morreram nas mãos dos nazistas, dando graças a Deus que sua Rífkale estava no Brasil, a salvo e bem de vida.

 

Helena Dora Wstazka (Achinta) é professora, cronista, artista plástica e membro do Coral Israelita Brasileiro.

 

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