Beco da mãe - Boletim ASA nº 108, set-out/2007


O caju

Henrique Veltman / Especial para ASA

                               

O consultório do doutor Afonso ficava num sobrado da Rua General Caldwell. A sala de espera era imensa e duas escarradeiras estavam estrategicamente colocadas nas laterais. Duas obras de arte...
O piso da sala era de blocos de vidro, o que permitia a todos, inclusive ao médico, observar o que se passava lá embaixo, na farmácia. Que era do doutor Afonso, claro.

Ele era, provavelmente, o médico mais badalado da Praça Onze. Até onde a minha memória alcança, todos os meninos e meninas judeus da região passaram pelo seu consultório, aí pelos anos 1940. Ele tinha um concorrente, sim. O doutor Mafra, ali do lado da igreja matriz de Santana e, claro, nos fundos de sua farmácia. Mas os patrícios da Praça Onze, em sua maioria, entregavam seus filhotes às competentes mãos do doutor Afonso.

A garotada dos anos 40, primeira geração nascida no Novo Mundo, era geralmente franzina. Havia casos de raquitismo, bronquites crônicas, asma, gripes e resfriados constantes. Por isso mesmo, um dia, doutor Afonso recomendou a minha mãe de forma clara e incisiva: “Estes meninos (meu irmão e eu) precisam tomar banho de mar.”
Naqueles tempos, as praias gozavam de muita fama no quesito saúde. Proclamavam-se as virtudes do iodo, o qual, acumulado e aliado a outras condições naturais, e pela exposição ao sol, proporcionaria o bem-estar de numerosas pessoas que nelas procuravam a cura dos seus males de origem reumática e óssea.

O doutor Afonso insistia que o iodo era fundamental na cura de reumatismos, doenças pulmonares, asma e bronquites crônicas. O iodo era o remédio universal, como hoje são os anti-depressivos e o prozac.
Assim, dona Raquel não teve outra saída senão nos levar à praia − praia do Caju, conhecida na rua judaica como extremamente saudável. Imaginem que os banhistas, sempre, acabavam saindo do mar com grossas placas nas pernas e nos braços. Segundo o vulgo popular, eram as disputadas placas de iodo, absolutamente necessárias à saúde de todos!

Claro, levamos muito tempo até descobrir que eram apenas manchas do óleo despejado no mar pelos navios e pelo estaleiro do Caju...
A decepção de minha mãe foi imensa. Acho que foi aí que ela desistiu das praias para sempre.
Mas foi lá que a criançada aprendeu a nadar. Bons tempos.
Nos anos 1940, como os banhos de mar tinham caráter terapêutico, as pessoas iam para a Praia do Caju ao raiar do dia, às vezes ainda de madrugada. Vestiam geralmente, como trajes de banho, duas peças feitas de um tecido felpudo de lã: calça até os tornozelos, camisa de mangas compridas, franzida e com uma espécie de lapela.

Não me lembro bem dos nossos calções de banho. Mas os maiôs de dona Raquel − e das outras mães − também, eram terríveis.
O Caju se enchia, então, de famílias cobertas de mantas e cobertores discretos, recebendo nas manhãs a ainda mais discreta bênção do iodo, aspirando pelas narinas aquela mistura feita de sargaço, água salgada, areia suja de algas.
A menção do iodo calava todas as dúvidas. Repousante, vivificante para os pulmões e doenças respiratórias, o reumatismo, os problemas de pele e os males do amor, o iodo era o que as sulfamidas e o mercurocromo deviam ser para ferimentos em geral.
Alguns anos mais tarde, a medicina cabocla trocou a praia pelas estações de água. E a Praça Onze descobriu finalmente São Lourenço, Caxambu e adjacências.

Para ir à praia, a condução era o bonde 57 (ou seria 18?). Ele tinha duas versões − Ponta do Caju e Caju Retiro. A primeira opção levava os passageiros até a pracinha, quase dentro da praia. A segunda, deixava o pessoal algumas quadras para trás.
A viagem era uma tortura, claro. O bonde ia pela Rua General Gurjão, bem pertinho dos cemitérios. Uma visão lúgubre! Muitos meninos, eu inclusive, fechávamos os olhos para não ver os mausoléus e túmulos.
Um pouco de história. O Rio de Janeiro do início do século 19 era uma cidade infestada por carrapatos, mosquitos e outros insetos, que não poupavam nem mesmo os integrantes da família real portuguesa. Dom João VI foi um dos que mais sofreram. Uma ferida na perna, fruto da mordida de um carrapato, infeccionou e ele teve que buscar ajuda.
Para tratar a saúde, foram recomendados a Dom João VI banhos de mar. De São Cristóvão − onde ficava a família real portuguesa − até o Caju, havia um caminho fácil de ser percorrido. Aquele mesmo que nós, crianças judias do século 20, percorríamos em busca do milagroso iodo...

O Caju era um balneário, com muitos terrenos à beira de uma Baía da Guanabara ainda limpa. O mar batia na beira de uma casa construída no começo do século 19 e que até hoje está preservada como um símbolo da história do Rio. É a Casa de Banho de Dom João VI.
Dom João era imperador. Por isso, ele não se trocava na frente de qualquer um. Usava a casa como vestiário. Dizem ainda que, com medo de caranguejos e outros bichos do mar, ele tomava banho dentro de um barril em vez de mergulhar.
Hoje, no Caju, não há sinal de praia. A área foi aterrada para a construção do porto e da Ponte Rio-Niterói. A Casa de Banho é o Museu da Comlurb, com a memória da limpeza urbana do Rio, mas guarda um busto de Dom João VI, para que ninguém esqueça que, além da garotada da Praça Onze, a realeza já freqüentou a Praia do Caju.

Para substituir o cemitério existente nos fundos da Santa Casa, em 1839 foi aberto outro na praia de São Cristóvão. E foi este o primeiro campo-santo oficial, organizado em bases regulares, que se estabeleceu na cidade.(Mas eu acho que o primeiro, mesmo, ligeiramente irregular, foi o Cemitério dos Ingleses, destinado aos protestantes, mas onde se sepultavam também os judeus do período colonial).

Os cemitérios do Caju (e outros que depois se abriram) só começaram a ser procurados quando, em 1850, por motivo da primeira epidemia de febre amarela − tudo a ver com a atual epidemia de dengue −, o governo proibiu os enterramentos em igrejas. É que, até então, para os mortos vip havia sempre uma catacumba no claustro dos conventos ou uma campa no chão dos templos.
Enfim, nós sofríamos no trajeto do bonde. Até porque eram vários cemitérios; nós, na nossa ignorância, achávamos que tudo era “cemitério do Caju”. Muitos anos depois é que aprendemos que havia o de São Francisco Xavier, o da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência e o da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo.

Claro, hoje estão ali também o Cemitério Comunal Israelita e o crematório da cidade.

Argh!

 

Henrique Veltman, carioca, 71 anos, é casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América.

 

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