| Sefarad - Boletim ASA nº 108, set-out/2007 |
Cecilia Fonseca da Silva / Especial para ASA
Sefarad é o nome hebraico da Península Ibérica, já mencionado na profecia de Abdias como um dos lugares habitados por exilados de Jerusalém. Sefaradi é o termo usado para designar os descendentes dos judeus expulsos da Espanha em 1492, e que mantêm sua identidade e seu patrimônio hispânico, preservando seus costumes, rituais religiosos e o fundo lingüístico castelhano. Os lingüistas convencionaram dividir a história da língua sefaradi em três partes: Sefarad 1, referente à Espanha medieval; Sefarad 2, correspondente aos primeiros lugares de assentamento, após a expulsão; e Sefarad 3, resultante dos movimentos migratórios iniciados em meados do século 19. Quando se fala nos oito séculos que durou a ocupação árabe, faz-se freqüentemente referência a uma Espanha muçulmana e a uma Espanha cristã. Mas nunca ou quase nunca se fala de uma Espanha judia. Embora os judeus nunca tivessem tido um território que lhes pertencesse de pleno direito, é mais verdadeiro dizer-se que a Espanha judia não é outra coisa senão toda a Espanha. Desde tempos remotos e até os últimos anos do século 15 houve, em todo o território peninsular, comunidades de judeus. Na Espanha, foram os visigodos os que mais tempo permaneceram (cerca de 300 anos). Durante a época visigótica, a língua latina continuou a ser o meio de expressão mais geral na Península, já que os invasores abandonaram o próprio idioma, adotando o dos vencidos, muito superiores a eles em número e cultura. O latim vulgar, acrescido de vocábulos germânicos ou concretamente visigóticos, evoluiu tão rapidamente que, por volta do século 7, já oferece a forma de uma língua romance rudimentar. Língua romance é a denominação dada às modificações regionais do latim vulgar, das quais derivaram as línguas neolatinas. O movimento de Reconquista antiislâmico, que havia começado já em 718, favoreceu a formação de núcleos cristãos no norte e no noroeste, proporcionando a formação dos seguintes dialetos, todos de origem latina: o galego, o leonês, o castelhano, o navarro-aragonês e o catalão. Acrescente-se a eles o moçárabe. Enquanto o árabe era a língua da administração e da cultura, o moçárabe era usado em família pelos cristãos e judeus que viviam em ambiente árabe. Com a Reconquista, o moçárabe foi desaparecendo, não só pela migração para regiões cristianizadas, como também pelo abandono voluntário e pela adoção do castelhano. No século 11, o castelhano começou a expandir-se, dominando os outros dialetos nos séculos seguintes. Estudos recentes demonstram que, já no século 10, havia começado nas comunidades de Sefarad 1 o processo de integração ao romance e de abandono do uso do hebraico. Carmen Hernández González, em Un viaje por Sefarad: la fortuna del judeoespañol , nos informa que, da segunda metade do século 13 até o momento da expulsão, a população judia usava o mesmo sistema lingüístico da população não-judia, com seus modismos próprios culturais e com as diferentes variações regionais: o galego; o catalão, com a variante valenciana; o castelhano, com a variante andaluza; e o navarro-aragonês. O hebraico, só o conhecia uma minoria erudita que tinha acesso aos estudos rabínicos; os demais o utilizavam para meldar, ou seja, para as orações e para os termos relacionados com a liturgia, costumes, festividades e conceitos do mundo da ética judia. Podemos, então, dizer que os judeus de Sefarad 1 falavam os mesmos dialetos de seus vizinhos, entremeando sua fala com termos hebraicos, quando se referiam a costumes judaicos, ou empregando expressões próprias. Após a expulsão, levaram seu idioma para o espaço geográfico e cultural que os lingüistas chamam de Sefarad 2. Muitos partiram para Portugal, de onde foram expulsos em 1497, dirigindo-se para os Países Baixos ou para o sul da França ou para a Itália. Outro grupo, muito numeroso, foi acolhido pelo Império Otomano, ao qual pertenciam os atuais países: Turquia, Grécia, Albânia, Bulgária, Romênia, Bósnia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Eslovênia, Macedônia, Bulgária e a parte sul da Romênia, além de todo o norte da África, pelo lado da Argélia, Tunísia e Líbia. No auge de seu poder, também integravam esse Império partes da Hungria e da Rússia; Iraque, Síria, Cáucaso, Palestina, Egito e parte da Arábia. Outros emigraram para o norte da África, cruzando o Estreito de Gibraltar e o mar de Alborán. Em todos esses países, a língua foi se enriquecendo com novas palavras, mantendo, no entanto, as raízes ibéricas combinadas com as de tradição hebraica. Do progressivo afastamento dessas duas comunidades originaram-se dois grupos lingüísticos: o oriental e o do norte da África. A haquetia surgiu do encontro entre o fundo lingüístico comum trazido da Península e o árabe dialetal marroquino, com alguns empréstimos do berbere, do português, do francês e do inglês. Alegria Bendelac, da Penn State University, opina que a história dessa formação e suas modalidades exatas ainda não foram pesquisadas devidamente e teme que isso nunca ocorra, por falta de documentos suficientes. A partir de meados do século 19, uma série de reveses resultou em novas migrações, configurando-se o espaço geográfico-histórico-cultural denominado Sefarad 3. Em 1860, por causa da guerra entre a Espanha e o Marrocos, ocorreu a primeira grande migração, que prosseguiu com regularidade até 1914. Entre 1918 e 1939 também houve grandes movimentos migratórios. No entanto, apesar de dispersos em muitos países, os sefaradis sentiram o perigo do desaparecimento do judeu-espanhol e vêm lutando para preservar sua cultura, seus valores, sua tradição e sua língua. Formaram comunidades novas, ativas e unidas, principalmente em Madri, Paris, Buenos Aires, Caracas, Lima, Toronto, Montreal e Israel. No Brasil, grupos de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul vêm se esforçando em manter a riqueza cultural sefaradi, principalmente por meio da música.
|
| * * * [topo] |