Saudade - Boletim ASA nº 108, set-out/2007


Uma mulher de verdade

Noemi Acselrad / Especial para ASA

Em memória de Bertha Vitis Feferman
(17/9/1904- 22/6/2007)

                   

Foi-se a nossa última heroína! A última de uma geração de mulheres batalhadoras, imbuídas de um espírito de coletividade e solidariedade humana, capazes de abrir mão de seus interesses pessoais por um ideal.
Integrante da comunidade judaica progressista do Rio de Janeiro, dona Bertha foi uma das fundadoras da AFIB (Associação Feminina Israelita Brasileira). Esta associação se articulou durante o pós-guerra (início dos anos 1950), assumindo para si tarefas dirigidas às vítimas da catástrofe que se abatera sobre os vários povos da Europa e particularmente os judeus. Esse trabalho visava especialmente as crianças órfãs ou expatriadas (roupas, alimentos, finanças etc.).

Com o tempo, a AFIB dirigiu seu trabalho às crianças da comunidade judaica local, visando proporcionar-lhes um convívio sadio em contato com a natureza e a possibilidade de desenvolvimento social e cultural. Surgiu Kinderland, e ali foi possível, através de contato direto, uma original convivência entre diferentes gerações: crianças e adolescentes, jovens monitores, instrutores, coordenação e as famosas “senhoras da AFIB”. Foi aí que conheci dona Bertha, e, ao longo de muitas décadas, mantivemos um contato bastante rico, descobrindo interesses comuns para além do ideal comunitário, inclusive vínculos familiares: era grande amiga de dona Ita, minha sogra, e seus netos conviveram com meus filhos nas temporadas de férias em Kinderland.

As idéias socialistas faziam parte do seu cotidiano, e dona Bertha fazia questão de atribuir ao coletivo seus méritos e desempenhos pessoais. O domínio da língua portuguesa naturalmente a conduzia a funções de redação, revisões de textos e discursos.
Além do trabalho propriamente de organização e manutenção das colônias de férias, às vezes braçal, essas senhoras estenderam suas atividades culturais através dos círculos de leitura (leien craizn), onde se dedicavam à literatura dos clássicos da língua idish e a debates de temas da atualidade política mundial. Iniciativas significativas nesse campo levaram à fundação de um clube juvenil, além da Orquestra e do Coral Pró-Música, como continuidade das atividades iniciadas na Colônia.
A propósito, acompanhei um episódio que envolveu dona Bertha e mais duas companheiras (Mania Akcelrad e Doba Zonenshein). Com a diminuição progressiva dos seus integrantes e o conseqüente término dos leien craizn, Bertha, Mania e Doba, ainda cheias de entusiasmo e força vital, buscaram outra forma de se manterem em contato com atividades de ordem cultural. Foi-lhes sugerido procurar a Biblioteca Regional de Botafogo, que mantinha atividades para a terceira idade. Lá encontraram o grupo entretido com literatura amena e atividades lúdicas. Resolveram dar uma atualizada na programação. Em pouco tempo, o grupo estava empenhado na leitura e debate de temas sobre história, ciências, política e cultura. Ganharam o entusiasmo e reconhecimento dos demais freqüentadores e funcionários da Biblioteca.
Sua participação comunitária não se limitava à comunidade judaica ou progressista em particular. Seu grande desejo ou necessidade de contribuir num trabalho coletivo levou dona Bertha, já com idade bastante avançada, a participar da Associação de Moradores do Jardim Botânico, bairro onde morava e era bastante conhecida. Personagem ativa nas redondezas, recebeu destaque em uma entrevista que concedeu ao jornal do bairro.

Homenageada na Câmara dos Deputados, num reconhecimento pelo seu trabalho em Kinderland, discursou de improviso e impressionou todos os presentes com sua lucidez e sensibilidade, enaltecendo sempre o valor do trabalho coletivo, dizendo-se apenas uma representante de um grupo.

Por ocasião dos seus 100 anos, uma bela festa foi organizada por familiares e amigos. Várias pessoas fizeram uso da palavra, inclusive ela própria, atribuindo sua longevidade à prática da leitura como matéria e veículo do pensamento humano.
Bertha Feferman pensava muito. Pensou até as suas últimas semanas de vida. Pensou e externou seus pensamentos. Um dos seus pensamentos mais freqüentes foi: “Não posso subir os degraus da ASA para assistir às conferências; isto é um absurdo.”

  

Noemi Acselrad, psicóloga clínica, foi coordenadora da Kinderland entre 1966 e 1986

 

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