Oriente Médio - Boletim ASA nº 108, set-out/2007


Hamas, a nova Israel

Bradley Burston / Haaretz

        Imagine uma guerra-relâmpago no Oriente Médio. Um exército inferior em efetivo e em armamentos derruba com facilidade um inimigo há longo tempo entrincheirado.  Humilhados, os antigos soberanos desaparecem.  Os vitoriosos, tendo que administrar o território recém-conquistado, no primeiro momento, exultam. Logo, no entanto, percebem que o jeito como o mundo os encara mudou.  Seus amigos no exterior não os vêem mais como oprimidos, corajosos, incorruptíveis. Seus admiradores não mais os consideram puros na sua dedicação, claros nos seus objetivos, inovadores e eficientes em suas ações.

        De fato, mal eles assumem, organizações de direitos humanos os denunciam como ocupantes brutais e aplicam às suas políticas militares a pecha de crimes de guerra. A comunidade internacional − até países antes simpáticos − distancia-se progressivamente deles. A guerra e suas repercussões dividem o povo em dois campos políticos irreconciliáveis.   Estamos falando da Israel que emergiu em junho de 1967? 

         Não, esse é o Hamas, que conquistou Gaza exatamente quatro décadas depois. O Hamas está repetindo parte da História de Israel e de suas peculiaridades.  O partido do vencedor − uma bem azeitada máquina espartana que costumava compensar com dedicação o que lhe faltava em aparência, que falava ao mundo com voz clara e uma visão firme, que atendia às necessidades de seu povo ainda que num estado do bem-estar social improvisado − é agora uma unidade estilhaçada, ocupada em manter o seu governo. A corrupção, inimiga em passado recente, e a insensibilidade com a situação das pessoas comuns já se insinuaram.  Princípios, narrativas, credos há muito estabelecidos vão sendo revistos. Há uma nova dissensão. Os linhas-duras domésticos e na diáspora exigem que a Terra Santa jamais seja partilhada, e que o outro lado nunca seja formalmente reconhecido. Pragmáticos domésticos e na diáspora começam a se mexer em direção ao reconhecimento do inimigo e à partilha em dois Estados, um, israelense, outro, palestino.

          O Hamas acha-se numa terrível encruzilhada − tentado, como Israel após a Guerra dos Seis Dias, a resistir a todo caminho difícil, esperando pelo melhor ou, pelo menos, que nada piore −, dependurado num poder cujo objetivo máximo deixou de ser claro.
Como Israel, o Hamas precisa pagar o preço do que, no Orient Médio, é considerado vitória. O Hamas tem sido o senhor de um dos mais desafiadores territórios do mundo, uma ruína econômica, um pesadelo do bem-estar social, do qual até mesmo os irmãos palestinos da Margem Ocidental se compadecem.  Mais: o Hamas está começando a demonstrar um pouco da mesma falta de sutileza na tomada de decisões, na estratégia de longo prazo, e mesmo nas relações públicas, que se tornou uma marca da Israel pós-1967.
Portanto, eis algumas sugestões para o Hamas, baseadas no que deu errado, e certo, nos últimos 40 anos, quando a conquista tomou conta das nossas vidas em Israel.

          1- Vocês deixaram de ser um movimento clandestino. Parem de agir como se fossem. Comecem a falar e a agir em uníssono, como fariam se fossem um membro pleno da comunidade das nações. Procurem corrigir o racha no seu povo, reconhecendo o consenso a favor de uma solução permanente, por meio de um compromisso, em vez de servir de instrumento aos militantes inflexíveis, deturpadores das Escrituras, e seus delírios de vitória total, um ideal impossível.
Resistam à tentação de dar peso demais às opiniões de seus militares, de acreditar que um Estado não declarado pode permanecer indefinidamente ingovernado e que seres humanos podem aceitar indefinidamente um estado de guerra permanente, com a privação, o luto e o desalento a ele inerentes. 

          2- Parem de se deleitar com a condição de pária. Ouçam os seus críticos. Eles podem ter bons argumentos. Só porque o mundo inteiro parece estar contra vocês não significa que vocês estejam fazendo algo certo.
Tapear o inimigo? Aproximem-se dele. Vocês ofereceram um cessar-fogo de 50 anos. É um passo positivo. Agora, tentem fazer a mesma oferta sem novas promessas de destruir Israel.

          3- O mundo lhes deve. E daí? Claro, o mundo lhes deve por causa do seu sofrimento, das suas privações, da perda de sua pátria, e do seu sustento e das suas propriedades.
Na prática, é assim que funciona: o mundo deve a muita gente. Talvez por isso o mundo não pague as suas dívidas morais.
Agora é com vocês. O Fatah é corrupto demais, decadente demais, quebrado demais para criar uma Palestina de verdade. Uma Palestina independente não surgirá de uma derrota militar cataclísmica de Israel, mas de uma amarga e inteligente acomodação diplomática que dê a cada lado o máximo que ele pode esperar em circunstâncias impossíveis.

          4- O outro lado é um fato. Aceitem-no como algo permanente. Golda Meir rejeitou a idéia de um povo palestino, Meir Kahane e Rehavam Zeevi alimentaram o sonho de expulsar o povo palestino. Vocês continuam aqui.
Nós também. Ambos os lados fazem leituras diferentes de milhares de anos de História, mas a moral é a mesma. Ambos farão absolutamente qualquer coisa para permanecer aqui.
Talvez, um dia, cheguemos ao ponto até de fazer a paz.

 

Tradução de S.M.G.

 

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