Rosh Hashanah - Boletim ASA nº 108, set-out/2007

          B"H


Renovar a Vida     

Alexandre Leone / Especial para ASA

                               

         Walter Benjamim, filósofo judeu alemão que morreu em 1940 em virtude da perseguição nazista, escreveu em uma de suas obras mais belas, Rua de Mão Única: “Se, como fez uma vez Hillel com a doutrina judaica, se tivesse de enunciar a doutrina dos antigos com toda a concisão, em pé sobre uma perna, a sentença teria de dizer: ‘A Terra pertencerá unicamente aos que viverem das forças do cosmos.’” Segundo ele, os homens modernos perderam há muito sua capacidade de viver e celebrar as forças do cosmos. O distanciamento da natureza, em virtude da matematização da vida e do encantamento com a tecnologia − esse fetiche, que criou uma “segunda natureza” virtual e simulada −, tem levado os homens de nossa época a se tornarem a cada dia mais incapazes de perceber a dimensão cósmica de sua vida. Essa incapacidade se manifesta, por exemplo, na substituição do tempo cósmico, que é o tempo da natureza, o tempo do corpo e o tempo da vida, por um outro tempo, morto e linear, dos relógios e do cotidiano. O tempo cósmico é o da renovação; o tempo morto, por outro lado, é o do estresse e da permanente busca pelo segundo que escoa e não volta. O tempo morto é o tempo da máxima de nossa civilização: “Time is money”. O tempo cósmico, por outro lado, é o da contemplação e da criação.


          Em “Architecture of Time”, artigo escrito por Heschel em 1952, esse importante pensador afirma, concordando com Benjamin, que a civilização técnica é a conquista do espaço pelo homem moderno, conquista essa que, se por um lado, levou-o a ter um maior controle das forças da natureza, por outro, produziu na maioria de nós um pavor com relação ao tempo, que teima ainda em estar além de nosso controle. Diz Heschel que o espaço e as coisas espaciais, nós podemos possuir, mas o tempo não pode ser possuído, apenas vivenciado. O tempo − aqui tratamos do tempo cósmico − é sempre maior do que nós e, por isso, nos fascina ou nos apavora. O ser humano é, porém, um ser de tempo e espaço, e não pode viver apenas um desses aspectos da realidade, esquecendo-se do outro. 


           Segundo Heschel, o judaísmo é a religião que santifica o tempo, pois a Bíblia e os rabinos no Talmud ensinam que as coisas e os lugares não são sagrados em si mesmos, mas Deus santificou o tempo, santificando, por exemplo, o shabat. Heschel escreve: “A criação é a linguagem de Deus, o tempo é sua música, e as coisas espaciais, consoantes nessa canção. Santificar o tempo é pôr as vogais nessa canção em uníssono com Ele.” Santificar o tempo é saber celebrar seus ciclos, que são também os ciclos de nossa existência neste mundo.
Estamos prestes a experimentar o fim e o reinício de mais um ciclo. Rosh Hashaná, Iom Kipur e todos os Iamim Noraim são marcos importantes na passagem de um ciclo para o outro. Neste sentido, Rosh Hashaná, o “aniversário do Universo”, é um momento muito importante para nos harmonizarmos com o tempo cósmico. Essa harmonia almejada não é outra coisa senão a possibilidade de cada um de nós amadurecer. Notemos que isso não é simplesmente envelhecer, é antes poder tornar-se mais pleno e mais consciente. Amadurecer neste sentido é poder fazer um balanço de si mesmo, jogar fora cargas desnecessárias, e tornar-se mais leve, renovar-se. 

            O mês de Elul, que está para começar, é um ótimo momento no processo de preparação para as Grandes Festas que virão. O shofar é tocado, neste mês, após cada serviço matutino. De acordo com uma crença tradicional, Moshé instruiu os israelitas no deserto a fazerem isso durante todo o mês de Elul para que se lembrassem do pecado do bezerro de ouro que eles cometeram enquanto Moshé estava no alto do monte Sinai recebendo as segundas tábuas. O shofar é também, segundo a mística judaica, um instrumento que tocamos para “acordar” nossa alma dormente. Acordar a alma é o primeiro passo para a auto-renovação da vida.

             Leshaná tová ticatevu vetehatemu.

 

Alexandre Leone, mestre em Cultura Judaica pela USP, é o rabino do Centro Bnei Halutzim, em São Paulo.

 

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