A foto, a história - Boletim ASA nº 107, jul-ago/2007


A saga da família Grabois

Victória Grabois / Especial para ASA

                   

           No início do século 20, a jovem Dora Kaplan, de apenas 16 anos, natural de Odessa, principal centro cultural da Ucrânia, casa-se com o jovem Augustin Grabois, de Kishinev, capital da Bessarábia, atual República da Moldávia. Dora pertencia à típica família  judaica descrita por Isaac Babel no clássico Contos de Odessa.

Segundo uma das versões da história da família Grabois, uma jovem russa teria casado com um francês soldado de Napoleão Bonaparte e se mudado para a França. Após a morte do marido, ela teria retornado à Rússia com cinco filhos e se estabelecido em Kishinev. Essa jovem seria a mãe de Augustin.

 O nome Kishinev ficou associado à violência anti-semita quando, em abril de 1903, turbas enfurecidas assassinaram judeus e invadiram casas e lojas. Esse episódio é conhecido como o primeiro pogrom do século 20 e mudou o curso da história dos judeus russos.

No final do século 19 e início do século 20, a política de  terror   disseminada pelo governo dos tsares fez dispersar a família Grabois. Uma parte foge para os Estados Unidos, outra, para a Europa Ocidental, e alguns  para a Argentina, como Augustin e Dora.

Em 1905,  já com a primeira filha, Helena, o casal se fixa em Buenos Aires,  onde nasceram Bernardo, Jayme e Maria. Após cinco anos, Augustin resolve  fixar residência em São Paulo. Em 1912 nasce Maurício e, um ano depois,  José, o caçula.

O velho Augustin, vendendo roupa de porta em porta, segue seu espírito aventureiro. Reúne a mulher e os filhos e se muda para Belém. Mas a situação financeira  precária o impele a buscar  um novo  abrigo,  Recife, onde a colônia judaica era numerosa.

Em 1923,  a família se muda para Salvador, bairro de Nazaré, onde a maioria dos judeus oriundos da Europa Central havia se estabelecido.           Maurício e José ingressam no Ginásio da Bahia. Brilhantes, destacam-se dos demais alunos.

Nesse colégio, Maurício, sofreu forte influência do diretor, Bernardino José de Souza, um profundo conhecedor da realidade nacional. Também estudaram no Ginásio da Bahia Carlos Marighellla, Jacob Gorender, Mário Alves, Glauber Rocha, João Ubaldo Ribeiro, Antônio Carlos Magalhães, entre outros.

Já na Faculdade de Medicina, Bernardo, Jayme e Maria lecionavam para os colegas com dificuldade no aprendizado,  tornando-se conhecidos professores na colônia judaica de Salvador.

Certo dia, Augustin pediu à mulher que queimasse uns papéis, e ela, sem perceber,  queimou as certidões dos filhos brasileiros,  chamuscando as dos  argentinos.  Augustin foi, então, ao cartório,   registrou novamente os dois filhos brasileiros e aproveitou para aumentar a idade do caçula, José. Os dois filhos menores tornaram-se baianos.

Em 1930, a família muda-se para o Rio de Janeiro, deixando, em Salvador, Helena, que se casa com Nathan Fidelman, um jovem da comunidade judaica.

Os filhos de Augustin e Dora conseguem suplantar todas as dificuldades e se formam em Medicina, com exceção de Maurício e Helena.

Maurício ingressa no Partido Comunista do Brasil antes de completar 20 anos, em 1932, quando aluno da escola militar. Desde então dedicou sua vida por inteiro à atividade partidária. Deputado comunista nas eleições de dezembro de 1945, foi líder da bancada do Partido na Câmara Federal de 1946 a 1948, quando teve o  mandato cassado.

Seguindo a trajetória do irmão, Jayme e Maria também se tornam membros do PC. Nessa época, Jayme funda com outros colegas  o Instituto de Psicologia da Universidade do Brasil, sendo nomeado para a direção. Logo é afastado por ser irmão do “deputado vermelho”.

Maurício foi um dos mais atuantes comunistas brasileiros e sempre lutou  contra as injustiças sociais.  Junto com outros companheiros do PC do B, deu o melhor de suas energias revolucionárias na preparação da luta e na resistência armada do Araguaia. Foi comandante da Guerrilha e morreu nas matas do sul do Pará,  em 1973, junto com seu filho André.

 Como a maioria dos seus ancestrais, sempre expulsos dos mais diversos países devido à perseguição e discriminação contra o povo judeu, Augustin, camponês, russo e judeu, deixou para os filhos o maior patrimônio, a educação. Trabalhava como mascate, mas,  em algumas ocasiões, tentou abrir pequenas lojas para melhorar de vida. Como não tinha capital de giro, os estabelecimentos fechavam com a mesma freqüência com que abriam. Cansado e muito abalado com a morte do filho José, aos 21 anos, recém-formado em Medicina, o velho lutador  falece em 1937.

Dora, uma típica mulher judia, vivia para o lar: cozinhava, lavava e passava, controlava a educação dos filhos e respeitava os preceitos da religião. Faleceu em 1948, a milhares de quilômetros da sua  Odessa.  Augustin e Dora deixaram-nos como exemplo o espírito de solidariedade e os valores fundamentais de uma família típica judia. 

 

Victória Grabois é professora e vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ.

 

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