| Beco da mãe - Boletim ASA nº 107, jul-ago/2007 |
Henrique Veltman / Especial para ASA
Schmílikel
Gónev (Samuquinha Ladrão, em ídish), assim ele era
conhecido na Praça Onze e arredores. Durante muitos anos, foi o
protótipo do luftmentsh,
vivendo de vento. Até o dia em que descobriu as estampilhas. Há
40 anos, o sistema tributário brasileiro era estruturado em torno
das estampilhas. Havia estampilhas federais, estaduais e municipais,
e as diretrizes da política fiscal concentravam-se em disciplinar
− arduamente − a hierarquia dos formatos das estampilhas
e a tropicalidade das suas cores. Naquele tempo, graças aos diversos valores dos selos –
cada um de uma cor −, o
chamado sistema tributário era um carnaval. Só havia confusão,
muito papel colorido. As
estampilhas desapareceram como forma do pagamento de tributos. Mas
deixaram suas marcas. Quem ainda tiver móveis antigos poderá ver
atrás dos armários e embaixo das cadeiras as estampilhas aplicadas
pelos fabricantes. Sapatos, também. Quando se adquiria um par de
sapatos, a primeira coisa que se fazia era retirar a estampilha que
vinha colada numa das solas. Nas escolas, quando o aluno chegava com
sapato novo, os colegas pisavam-no “para tirar o selo”.
“Tirar o selo” era isso. Voltemos
ao Schmílikel Gónev. Ele descobriu, um dia, a sua grande chance
comercial: vender estampilhas pela metade (ou menos ainda) do seu
valor de face. Arrumou uma tipografia onde os selos (falsos, é
claro) passaram a ser impressos, e fez grande e duradouro sucesso na
praça carioca! Claro,
volta e meia ele tinha problemas com a polícia e com a fiscalização.
Mas, ontem como hoje, sempre se dá um jeito, e nosso
gónev não se apertou. Quando
morreu, a família publicou o tradicional anúncio fúnebre no
jornal. Debaixo de seu nome verdadeiro, em itálico, a observação
necessária: Schmílikel Gónev. Do contrário, ninguém saberia quem era esse
tal de Samuel... Descanse
em paz. Henrique Veltman,
carioca, 71 anos, é casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América. |
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