| Alimentação - Boletim ASA nº 107, jul-ago/2007 |
Marina Lemle / Especial para ASA
Em
15 anos de vegetarianismo e prática do jornalismo, esta é a
primeira vez que escrevo sobre minha opção de não comer animais.
Primeiro, porque é uma questão de foro íntimo; depois, porque
fujo de “certos” e “errados” radicais, preferindo
relativizar a pretender arbitrar; e, ainda, porque tenho pouca paciência
para ironias do tipo “e a alface não é um ser vivo?” (para
constar: sim, mas ela é de outro reino e não tem um sistema
nervoso que lhe faça sentir dor e medo, pelo menos nas formas em
que conhecemos). Falo
disso agora porque quero compartilhar a alegria que tive ao ficar
sabendo, através do texto de Jacques Gruman lido por ele e por mim
no recente pré-seder laico da ASA,
que, além dos judeus engajados em causas sociais, ambientais e dos
direitos humanos, existem judeus preocupados também com o bem-estar
de todos os bichos. Sempre
achei que a origem de minha opção estava na educação judaica
liberal/progressista, que cultivou em mim a eterna busca pela ética e me ensinou a
refletir sobre o significado dos rituais, símbolos e tradições. Segundo
a Torá, até a geração
de Noé toda a Humanidade era vegetariana. Depois do Dilúvio,
o consumo de carne foi autorizado. As interpretações da halahá,
a Lei Judaica, sobre se os humanos devem ou não comer animais, são
diversas e às vezes contraditórias. Embora todos concordem ser
proibido causar sofrimento aos animais, a Torá
afirma que eles são feitos para servir ao homem: "Que o homem
domine sobre os peixes, as aves e todos os animais" (Bereshit
1:26). De
acordo com o site do Beit Chabad do Brasil (www.chabad.org.br),
de vertente hassídica, “mais que visar nossa sobrevivência,
alimentar-se é um meio de trazer santidade a nossas vidas”. Isso
seria possível observando-se as leis da Torá.
“Pode-se comer carne desde que: o animal pertença a uma espécie
permitida; seja ritualmente abatido; tenha removidos os elementos não-kosher
(sangue e algumas gorduras e nervos); seja preparado sem misturar
carne e leite; e as bênçãos apropriadas sejam recitadas.” O
Beit Chabad ensina que a shehitá,
o abate ritual conforme a halahá,
deve ser feita com o mínimo de sofrimento para o animal,
examinando-se a lâmina meticulosamente para assegurar a morte mais
indolor possível. A caça de animais por esporte é proibida pelos
sábios. O
abate é um dos pontos
mais criticados pelos ativistas judeus vegetarianos. O site
HumaneKosher.com traz um vídeo chocante que mostra abusos de uma
das maiores indústrias americanas de comida kosher,
a AgriProcessors Inc. No vídeo, um boi é carregado por um
guindaste e posto num cubículo. Depois, em outro compartimento, o
animal leva um golpe impreciso de uma máquina, cai e se debate,
escorregando sobre uma poça de sangue. O abuso, denunciado em 2004
pelo New York Times, foi
minimizado pela União Ortodoxa, que considerou aceitáveis as técnicas
utilizadas. Os
“veggie Jews” defendem um novo kashrut,
baseado na dieta vegetariana. Para Richard Schwartz (www.jewishveg.com/schwartz/),
autor de livros e cursos sobre vegetarianismo, não se devem
considerar apenas os últimos minutos de vida do animal. “O que
dizer da tremenda dor e crueldade envolvidas em todo o processo de
criação e transporte dos animais? Se o consumo de carne não é
necessário e faz até mal para a saúde, como pode qualquer método
de abate ser
considerado humano?”, questiona. Para
a Cabalá, isso não é necessariamente uma contradição. Almas humanas que durante três encarnações só emitem
negatividade podem ter que reencarnar em níveis inferiores −
animal, vegetal ou até inanimado. Comer um animal que tenha
alma humana ajudaria a elevá-la de volta ao estado humano. Como
a geração de Noé era totalmente negativa, ali começou o processo
de almas humanas reencarnando em níveis inferiores, sendo esse o
motivo de a Humanidade deixar de ser vegetariana. A
tendência atual, que a própria Cabalá vê com simpatia, de
retorno ao vegetarianismo se explicaria pelo fato de estarmos no
final do processo de correção da Humanidade, não havendo mais
tantas almas humanas encarnadas em animais. Se a pessoa tiver a
capacidade de manter elevada sua consciência e elevar a “faísca
de Luz” dentro da carne, é bom comê-la, caso contrário, é
melhor não. Cabalisticamente, o ideal hoje seria ser vegetariano
durante a semana e, no Shabat ou nas festas − quando seria
mais fácil “elevar as faíscas” −, comer carne. Tendo
dito não à carne, mas sim ao judaísmo, os judeus vegetarianos se
viram na necessidade de adaptar rituais. Hoje existem hagadot de Pessach onde os símbolos animais são substituídos e
livros de receitas típicas, reformulados. A escritora
judia-vegetariana mais conhecida é Roberta
Kalechofsky. Em seus livros, ela dá razões ecológicas, econômicas,
éticas e de saúde para a adoção do vegetarianismo, boa
parte delas sob ótica judaica. “O
problema moderno da carne, para judeus e não judeus, vai além da
questão sobre como o animal foi abatido, estendendo-se às condições
industriais em que foi criado. Isso leva ao questionamento sobre se
as tradições da shechitá
e do kashrut estão obsoletas diante das formas modernas de criação”,
afirma Roberta. Judaísmo
é livre-arbítrio. Boa escolha.
|
| * * * [topo] |