| Israel - Boletim ASA nº 107, jul-ago/2007 |
Bernardo Sorj / Especial para ASA
Os
40 anos de ocupação e colonização da Faixa de Gaza, da Cisjordânia
e do Golan representam uma grande
ferida aberta, perpetuada pelo
Estado de Israel contra
si mesmo e, por extensão, contra o povo judeu. A ilusão,
inicialmente dos governos trabalhistas e posteriormente dos
de direita, de que seria possível manter indefinidamente o
controle desses territórios e colonizá-los graças
à polaridade do mundo na época da Guerra Fria, levou a uma situação
de deterioração moral e que fragiliza
a democracia, de
atos ilegais, de desperdício de enormes recursos econômicos, de distorção
da capacidade estratégico-militar,
de perda
de vidas, de
desvio do objetivo de
construção de um Estado majoritariamente judeu e do
abandono desnecessário do apoio da opinião pública internacional.
Observe-se
que esta lista não inclui os enormes custos que a ocupação teve
para o povo palestino. Não que eles não devam ser contabilizados.
Mas o meu argumento é propositalmente autocentrado: a ocupação e
a colonização foram nefastas para aqueles que se sentem totalmente
comprometidos e têm como preocupação central o destino do Estado
de Israel. A
ocupação é imoral, desumaniza e embrutece, pois ela só se
sustenta pelo esforço permanente de opressão do ocupado. A
ocupação atenta
contra a democracia, transformando parte da população em não-cidadãos,
sobre os quais todo arbítrio é possível, e fortalece internamente
minorias radicais e fanáticas que se consideram acima da lei. A
ocupação é ilegal, pois desconhece todas as decisões da
comunidade internacional e fere o princípio da autodeterminação
dos povos, sobre o qual se construiu a ordem internacional após a
Segunda Guerra Mundial. A
ocupação representa um desperdício enorme de recursos econômicos
na construção de infra-estruturas,
moradias e segurança para os colonos, enquanto, no Estado de
Israel, parte crescente da população vive na pobreza, e os serviços
públicos e a assistência social
se deterioram. A
ocupação transformou parte do Exército de Israel em polícia
repressiva, desviando-o de seu papel de defesa contra ataques de exércitos
inimigos e diminuindo sua capacidade estratégico-militar. A
ocupação coloca em xeque a construção de um Estado com maioria judia,
pois, caso ela seja permanente,
transformará a população judia numa minoria. A
ocupação significou a perda inútil de inúmeras vidas humanas,
uma vez que elas não foram sacrificadas em defesa da pátria. A
ocupação levou de forma desnecessária a uma enorme queda do apoio
da opinião pública internacional, já que seus objetivos são
indefensáveis e sua possibilidade de concretização, insustentável. A
ocupação e a colonização criaram um enorme dilema moral e político
para os judeus do mundo, que reconhecem
a importância do
Estado de Israel e se identificam com seu destino.
Críticos da política de ocupação, ao mesmo tempo, não
querem fazer o jogo do inimigo, daqueles que têm posições
claramente anti-semitas e/ou não aceitam o direito à existência
de um Estado judeu convivendo lado a lado com um Estado palestino.
Tachados por alguns líderes comunitários como judeus
movidos por auto-ódio, todos os que lutam — em Israel e na Diáspora
— contra a ocupação, sem ilusões românticas sobre as
dificuldades a percorrer no caminho da paz ou sobre as intenções
de muitas lideranças árabes, na verdade estão imbuídos de um
profundo amor por Israel e pelo seu destino. Os
judeus que ousam criticar a política externa dos governos de
Israel, no lugar de sofrerem da
síndrome do auto-ódio, contribuem para a
consolidação do Estado
de Israel. Sem dúvida,
existem críticos irresponsáveis ou míopes, mas isto também vale
para a atitude de muitos líderes comunitários que apóiam
incondicionalmente a política dos governos israelenses, cuja
cegueira, oportunismo e irresponsabilidade podem ter enormes custos
para Israel e o povo judeu. |
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