| Israel - Boletim ASA nº 107, jul-ago/2007 |
Larissa Grau / Especial para ASA
1967.
O mundo seguia dividido entre capitalistas e comunistas, e os
Estados Unidos lutavam no Vietnã. Nos cinemas, uma mulher casada
seduzia um jovem recém-saído da universidade em A
primeira noite de um homem. Perto de Cussac, na França, um
menino e sua irmã, de 13 e 9 anos, cuidavam do rebanho quando viram
quatro extraterrestres ao lado de uma nave espacial. No Brasil, começava
o plano econômico “milagre brasileiro”. Che Guevara foi
assassinado no povoado de Higueras. O presidente do Brasil era Costa
e Silva e nas ruas do país rodava o DKW. No Oriente Médio, foi
deflagrada uma guerra que durou 132 horas, teve um custo alto em
vidas e, há quem diga, ainda não está terminada. Um conflito que
redesenhou o mapa do Oriente Médio e que, encravado em um
insignificante período histórico de seis dias, está
irremediavelmente conectado aos fatos passados, sendo, em um ato
contínuo, a porta de entrada para muitos acontecimentos futuros que
seriam dele, conseqüências. A
história se escreve por linhas tortas. Lança seus dados e o
destino é modificado. O massacre dos atletas israelenses nas Olimpíadas
de Munique, a Guerra do Iom Kipur, as intifadas,
a guerra civil no Líbano e a guerra contra o Hezbolá
conectam-se, cada qual a seu modo, com os idos
de junho de 1967. Para os judeus, seu nome é Guerra dos Seis
Dias; para os árabes, sucintamente, é a Guerra de Junho de 67. Este
conflito foi o clímax de uma tensão que aumentava desde a criação
do Estado de Israel, em 1948, e a recusa dos vizinhos em reconhecer
seu direito à existência. Ao fim da guerra, Jerusalém Oriental,
antes sob o domínio jordaniano, se encontrava, depois de dois mil
anos, em mãos israelenses. Para muitos, um milagre realizado não só
pelas mãos dos homens, mas pela intervenção divina, que havia
retornado aos judeus o que restara do antigo Templo. Gaza, território
egípcio, foi ocupada por Israel, assim como as colinas sírias do
Golã, transformadas em zona de segurança estratégica. Porém, o
problema dos refugiados palestinos, iniciado na Guerra da
Independência, se agravara. Muito árabes palestinos não aceitaram
a oferta israelense de permanecerem sob a bandeira azul e branca e,
somente para o sul do Líbano, foram cerca de 120 mil − um
contingente, entretanto, não absorvido
por nenhum país árabe. A identidade palestina foi forjada neste
vazio de não se pertencer a lugar nenhum. Descobriram, a ferro e
fogo, que não eram libaneses, egípcios, jordanianos ou sírios. Um
destino oposto ao dos 500 mil refugiados judeus, vítimas
da mesma guerra e que foram expulsos do Iêmen, Egito, Líbano,
Tunísia, Marrocos, Líbia, Síria e Iraque e integrados ao Estado
judaico. Entre os palestinos, um milhão e 200 mil decidiram ficar,
alguns como árabe-israelenses, outros, nas regiões de Gaza e
Cisjordânia. O
frágil equilíbrio entre cristãos e muçulmanos do Líbano foi
quebrado por essa migração em massa de palestinos e pela entrada
de xiitas ao norte, fronteira com a Síria. Em 1975, a situação se
tornou insustentável. Culminou com uma guerra civil que duraria 25 anos. O sul do Líbano
abrigava, então, cerca
de 300 mil palestinos e a Organização pela Libertação da
Palestina, de Iasser Arafat, que escolheu o terror visando a
completa destruição do Estado de Israel. Em
1978, ataques e represálias eram recorrentes no sul do Líbano. O
seqüestro realizado pela OLP de um ônibus escolar, entre Haifa e
Tel Aviv, culminou com a morte de 34 crianças e a primeira invasão
israelense ao país vizinho. Resoluções da ONU exigiram a retirada
israelense e um cessar fogo. Tropas da ONU se deslocaram para a região.
Israel deixou o sul do Líbano, porém retornou quatro anos mais
tarde. Tropas sírias invadiram o norte e tropas israelenses, o sul,
para expulsar a OLP. Esta se transferiu para a Tunísia e em seu vácuo
surgiu o Hezbolá para lutar contra Israel. Em Gaza e na Cisjordânia,
fundou-se o Hamas, que utiliza as mesmas armas e estratégias do
outro grupo extremista, defendendo o mesmo princípio radical da não
existência de Israel. No seio desses grupos, surge um outro fenômeno,
que se tornaria a marca da região: o terrorismo suicida. 2000.
Israel deixa o Líbano, cumprindo outra resolução da ONU que também
previa o desarmamento das milícias da região. Ainda
sob ocupação síria, o Líbano permite a presença do
Hezbolá e de seus clérigos radicais. E em 2006,
a história se repete. Um outro seqüestro dá origem a uma
nova incursão, outra resolução, o envio de tropas da ONU e um
futuro incerto no Oriente Médio. Aspectos que forjaram as outras
guerras forjam os conflitos contemporâneos. Naqueles
idos de 1967, a euforia
pela rápida vitória de um único e pequeno país sobre todos os
seus grandes inimigos fez com que israelenses acreditassem em sua
invencibilidade. Haviam feito a guerra em seis dias e no sétimo
poderiam descansar. Não houve descanso. As premissas daquela guerra
ainda estão longe de terminar.
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