| Uruguai - Boletim ASA nº 107, jul-ago/2007 |
Isac Gliksberg / Especial para ASA
Como acontece há doze
anos, uma multidão de mais de 50 mil pessoas caminhou
silenciosamente pela avenida principal da cidade de Montevidéu, no
último dia 20 de maio, um domingo, carregando cartazes com
palavras-de-ordem que exigiam verdade, justiça e nunca mais
terrorismo de Estado, além de fotos de cada um dos presos
desaparecidos durante a ditadura militar no Uruguai, com a pergunta
“Onde estão?”.
Entre os manifestantes encontrava-se um importante grupo de
jovens e adultos pertencentes à comunidade judaica, portando um
cartaz que dizia “Movimento Judaico-Progressista Zhitlovsky
Presente”, além de muitos outros que participaram do protesto
silencioso em caráter pessoal.
Na madrugada de 27 de junho de 1973, tropas e carros de
combate do Exército Nacional uruguaio cercaram o Palácio
Legislativo, sede do Poder Legislativo do Uruguai, invadiram-no e
desalojaram quem ali se encontrava. Senadores e deputados que tinham
conhecimento da iminência do golpe de Estado já haviam retirado
seus utensílios e bens e se afastado do lugar. Alguns, nessa mesma
madrugada, seguiram para o exílio, enquanto outros passaram à
clandestinidade.
Nesse mesmo dia, mal se soube da instauração do regime
militar − que no Uruguai foi denominado cívico-militar,
devido à participação de civis no governo de fato −, a
Central de Trabalhadores convocou a população para uma paralisação
geral, ocupando todos os locais de trabalho. Esta teve a duração
heróica de 15 dias.
Aquele 27 de junho de 1973 dava início a um dos períodos
mais trágicos, mais dramáticos e mais repressivos que a República
Oriental do Uruguai conheceu, ao longo de toda a sua História
− uma ditadura cívico-militar que, por sua ferocidade, não
se distinguiu em nada das outras ditaduras instauradas naquele tempo
na região. Para a grande maioria da população do país, começaram
onze anos de enfrentamentos, por todas as vias possíveis, dentro do
território nacional assim como a partir do exílio, contra o regime
autoritário.
O que aconteceu nesse período com os judeus como
coletividade? De que
forma enfrentaram o regime autoritário, se é que o enfrentaram?
Para responder a estas duas perguntas, é preciso encarar o tema a
partir de dois pontos de vista: 1) o comunitário e institucional;
2) o particular e individual.
Em termos gerais, a comunidade judaica, profundamente democrática,
opôs-se de imediato à
ditadura − embora não toda ela, do ponto de vista
institucional e individual, tenha se comportado da mesma maneira,
porque, entre outras coisas, a ditadura teve a “habilidade” de não
atuar por igual sobre todas as instituições.
A Associação Cultural Israelita Dr. Jaime Zhitlovsky, onde
se agrupava e ainda se agrupa o Movimento Judaico Progressista
(Icufista) do Uruguai, foi fechada, bem como o seu órgão de
imprensa, o jornal em ídish Unzer
Fraint, que existia há mais de 35 anos. Um de seus redatores
havia sido, durante mais de uma década, o autor destas linhas. Esse
jornal nunca mais viu a luz, e a Associação Zhitlovsky viu-se
impedida de utilizar sua ampla sede, conhecida como Palácio
Zhitlovsky, até a abertura
democrática do país.
Também desapareceu o Banco Israelita del Uruguay, cuja
diretoria esteve integrada, desde a fundação, nos anos 1920, por
ativistas do movimento progressista judaico.
As organizações sionistas halutsianas Hashomer Hatzair,
Mordejai Anilevitch e outras opuseram-se
ao regime autoritário, desde a sua instauração.
Deve-se sublinhar o papel humanitário desempenhado pelo então
embaixador de Israel no Uruguai, Matalon, já falecido, que
interveio pessoalmente junto às autoridades cívico-militares para
obter a liberdade e saída para Israel de muitos presos políticos
judeus.
O Comitê Central Israelita, integrado pelas instituições
sionistas do país, opôs-se sempre à ditadura, cuidando para
evitar a suspensão de seu funcionamento
pelas autoridades militares.
No plano individual, deve-se assinalar que, lamentavelmente,
houve − escassos, muito poucos − judeus que aderiram à
ditadura. Foi o caso do administrador de empresas e economista Moisés
Cohen, ministro da Economia e Finanças do chamado “Processo Cívico-Militar”
durante um longo período e que ocupou outros cargos no governo de
fato.
Entre os presos desaparecidos figura Eduardo Bleier, secretário
de Finanças do Partido Comunista Uruguaio. E entre as centenas de
judeus uruguaios presos e torturados por uma ditadura que tinha,
entre outros, um claro viés anti-semita, achavam-se o secretário
do Partido Comunista e deputado nacional Jaime Perez, o engenheiro
Wladimir Turianski (deputado pelo PC), Leon Lev (comunista e
ex-aluno das Escolas Judaicas Progressistas, de cuja Juventude foi
membro), Raúl Feldman (pertencente à Juventude do Zhitlovsky, que
precisou exilar-se em Buenos Aires, onde foi assassinado pela
ditadura argentina), o escritor Mauricio Rosencoff (dirigente do
movimento guerrilheiro Tupamaros e que foi um dos nove ou dez reféns
da ditadura mais torturados, assim como Jaime Perez), junto com
centenas de homens e mulheres, trabalhadoras, donas de casa,
profissionais e estudantes universitárias judias, que sofreram da
mesma forma que as vítimas não judias. Por tudo isso, e por muito mais, centenas de judeus desfilaram no
domingo 20 de maio, lado a lado com dezenas de milhares de cidadãos
não judeus, exigindo “Nunca mais terrorismo de Estado no
Uruguai”. Isac
Gliksberg,
engenheiro, é diretor de Imprensa e Difusão do Laboratório Tecnológico
do Uruguai e escreve para diversas publicações.
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