Ciência x religião - Boletim ASA nº 107, jul-ago/2007


Ser judeu, ser cientista

Isaías Raw / Especial para ASA

                               

         Vivi minha infância no Bom Retiro.  Meu pai foi o primeiro diretor do Colégio Renascença e nos criou com uma total liberdade.  Éramos judeus, fizemos bar-mitsvá, íamos à sinagoga só em Rosh Hashaná e Iom Kipur. 

         A pergunta sempre volta a cada um de nós: o que é ser judeu?   É ser discriminado por uma minoria radical de outra religião, ou por outro judeu  que mantém os costumes do gueto?  Ambos tentam impor dogmas incompatíveis com a racionalidade e a cultura científica de uma sociedade que evolui continuamente.

         Ser judeu é sentir-se judeu, criando  uma conduta, baseada na ética judaica-cristã-maometana, que permita viver em Sociedade, esta Sociedade que  convive com a selvageria de perseguir e matar aqueles com quem não se identifica social e culturalmente, e nem mesmo por interesses econômicos. Longe da Inquisição, das Cruzadas, da revanche islâmica que conquistou a Península Ibérica (mas que respeitou judeus e cristãos), da escravidão e dos pogroms, minha geração teve a  consciência do genocídio nazista (que hoje se repete, com outras minorias,  por outros  algozes).  Os maiores reforços, eu recebi não  da Sinagoga, mas quando enviado, em 1963, para recuperar créditos da Polônia para a Universidade de Brasília. Ao ser levado aos campos de concentração, por caminhos forrados de ossos humanos, pude ver os fornos e montanhas de óculos. Sinto-me judeu cada vez que ouço o  Survivor of Warsaw, de Schoenberg, com o narrador contando one, two, three....Shmá Israel!

         Sempre quis, em sendo cientista, um privilégio que a Sociedade concede pagando salários e financiando os laboratórios, desde que submetamos projetos razoáveis, para julgamento por pares anônimos.  A ciência é uma atividade coletiva do Homem.  Você  escreve e submete a uma revista aquilo que descobre. Outros cientistas, incógnitos,  revisam  seu artigo, e, se as conclusões aparentarem ser corretas, aprovam sua publicação.  O seu artigo é lido por numerosos cientistas, de quaisquer países, que, assumindo serem suas conclusões  corretas, prevêem outras possíveis conclusões, que serão ou não confirmadas por experimentos cuidadosamente realizados.    É  um interminável processo de reanálise até  as conclusões serem aceitas, sempre sujeitas à confirmação ou não por outros cientistas.  A objetividade da ciência difere fundamentalmente da visão religiosa. Nesta,  é freqüente imaginar  que um livro só,  lido diariamente, contém toda a eterna verdade.   Entretanto, não difere da contribuição fundamental que as religiões trouxeram ao homem comum: a ética com a verdade.

         Como os rabinos, somos professores. Pesquisar é uma atividade coletiva, e o cientista tem que formar discípulos,  que espera sejam mais competentes do que ele mesmo.  Mais ainda, cabe ao cientista analisar e levar  para toda a população o que chega a ele, diferenciando o que é comprovado de inverdades dos que procuram doutrinar. Temos que educar os jovens a julgar informações e pensar independentemente, o que contrasta com a educação religiosa.

         Às vezes, ditadores (sejam militares, reis e até lideres religiosos) tentam cercear a busca da verdade objetiva descoberta pela pesquisa científica.  Cientistas são perseguidos (como eu, em 1964, quando não conseguiram evitar que fosse o primeiro professor judeu na Faculdade de Medicina da USP), exilados, mortos.  Em nome da ditadura comunista, Lysenko mandou matar e desterrar importantes geneticistas que acreditavam no melhoramento genético e na evolução, desta forma impedindo a melhoria da produção agrícola (como, em nome da preservação, os grupos tentam repetir). 

         Não existe conflito entre Ciência e Religião, tomando religião na sua mais alta acepção.  O conflito ocorre quando, em nome da religião,  tenta-se cercear a conquista de novos conhecimentos, proibir o uso de preservativos que evite a transmissão de doenças e a concepção de filhos não desejados,  ou  impedir o uso de ovos e embriões na busca de progressos para o tratamento de problemas de saúde. Sabemos que a Terra impõe limites.  A procriação irrestrita e a luxúria de parte da Humanidade podem levar à exterminação da vida e do Homem. Para evitá-lo,  só usando os conhecimentos científicos adquiridos e a tecnologia deles decorrente.  Os cientistas não podem funcionar aceitando que “Deus é fiel” àqueles que morrem ao nascer (2 milhões por ano!),  nascem com  deficiências graves, ou sofrem para morrer prematuramente, simplesmente  porque cumprem o desígnio de um deus injusto, ou aceitam tratamentos pseudo-científicos, não raramente empurrados por uma pseudo-religião.   Buscamos a verdade, que, ao contrário de nos ofender, ajuda-nos a conviver com a incerteza de uma vida finita, transmitindo aos nossos descendentes o que aprendemos.

 

Isaias Raw é presidente da Fundação Butantan.

 

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