EDITORIAL - Boletim ASA nº 107, jul-ago/2007


Contra a maré
                                 

         Neste número, estamos publicando matéria sobre a comunidade judaica no Uruguai durante a ditadura militar naquele país (1973/1985). Junto com a edição anterior, que mostrou a situação dos judeus argentinos no período ditatorial de 1976 a 83, completamos um pequeno painel sobre as comunidades judaicas vizinhas em ambiente de repressão político-cultural.

         Durante cerca de 20 anos, da década de 1960 à de 1980, a América Latina foi varrida por golpes militares, que perseguiram, não raro com extrema violência, dissidentes políticos, lideranças sindicais e rebeldes culturais. Apoiados por classes médias preocupadas com o avanço das idéias socialistas e pela garantia logística, militar e financeira do imperialismo, os regimes ditatoriais deixaram um rastro de dor e desequilíbrios de toda ordem. Multiplicou-se a corrupção e se agravou a concentração de renda.

         Não houve anti-semitismo institucional durante as ditaduras. Os judeus perseguidos pelos agentes da repressão o foram por sua militância libertária e não pela origem étnica ou religiosa. Enquadram-se no mesmo caso dos frades beneditinos que, no Brasil, foram presos e torturados pela ligação com a guerrilha urbana, não por seu credo religioso. Entidades judaicas progressistas foram vigiadas e censuradas, sua imprensa, destruída.

         Recentemente, a Congregação Judaica do Brasil, com apoio da ASA, homenageou judeus que lutaram contra a ditadura militar no Brasil (1964/1985). Embora se possa questionar o vínculo real com o judaísmo de muitos dos homenageados, o ato foi importante para registrar – e respeitar − a heterogeneidade dentro da comunidade judaica brasileira. Aqueles judeus de esquerda, ou simplesmente os que se insurgiram contra as arbitrariedades dos generais, têm lugar na memória e na história dos ishuvim. Não se deve ignorá-los, e a narrativa de sua trajetória deveria integrar o currículo de nossas escolas.

 

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