| A foto, a história - Boletim ASA nº 106, mai-jun/2007 |
David Somberg / Especial para ASA
Durante o encontro de entidades progressistas em Montevidéu, no
final do ano passado, tomei conhecimento, num bate-papo com os
companheiros uruguaios, de um fato interessante.
Contaram eles que as disputas internas da comunidade judaica
de lá se refletiam de maneira pitoresca no cemitério!
Havendo um único cemitério judeu para todo o país,
localizado num município no entorno da capital, o mesmo estaria
todo loteado entre os diferentes grupos religiosos e geográficos,
“como uma maçã fatiada”.
Mais ainda: segundo um líder da Zhitlovski, ainda existe uma
área “roiter”, um “cemitério vermelho” onde, em algumas lápides,
em vez do Muguen Duvid, poderíamos ver foices e martelos...
Como ainda tinha alguns dias para “mochilar” pelo Uruguai
depois do encontro, resolvi − ainda que sob o risco de me
tornar uma espécie de correspondente do boletim da ASA para cemitérios na América Latina [ler “Cemitério de
Coro”, ASA
101] − que aquele
passeio valeria a pena. Como
nenhum dos uruguaios soube me informar exatamente como chegar lá de
ônibus, resolvi apelar para um quiosque do Ministério do Turismo
bem na avenida principal da cidade.
Pela troca de olhares das atendentes e a dificuldade das
mesmas em localizar o cemitério no mapa, percebi que o negócio era
longe. Após alguns
telefonemas, elas me deram as indicações e fui pegar o ônibus num
terminal intermunicipal próximo ao porto. O motorista me
disse que avisaria quando chegasse o ponto, mas que faltava bastante
ainda. Rodamos pouco mais de uma hora por uma estrada que corta a
periferia de Montevidéu, uma região empobrecida, com ruas de terra
batida e poucos prédios. Desci
no ponto indicado e caminhei na direção informada pelo motorista.
Achei o cemitério pequeno para ser o único do país, mas a
informação era aquela, e, como não havia com
quem falar, entrei para procurar.
Andei por todo o campo e achei estranha a grande quantidade
de sobrenomes latinos, já que a maior parte dos judeus uruguaios é
de origem ashquenazi.
Não tendo encontrado foices nem martelos, resolvi ver de
novo o cemitério por fora e percebi que aquele era o cemitério sefaradi. Ao lado dele é que há um outro, bem maior (portanto há
DOIS cemitérios judeus no país), onde deveriam estar os objetos da
minha curiosidade.
Entrei no cemitério e perguntei a um senhor com cara de
zelador se era verdade
que era tudo dividido. Ele
confirmou e me disse que havia uma parte dos húngaros, uma dos
poloneses, uma de seguidores do rabino Fulano, outra do rabino
Cicrano, e que cada “sub-área” possuía um funcionário específico
responsável. Perguntei
se ele então sabia de uma área para, digamos assim, os que não
eram de nenhuma sinagoga, assim meio de esquerda, onde havia uns túmulos
sem sinais religiosos. “Os
alemães”? Será que
chamavam de alemães por causa do ídish?
Na dúvida, eu disse que podia ser.
Andei até o local que o senhor me havia indicado e nada de
“hoz y martillo”.
Apareceu um rapaz mais jovem que me disse que o responsável
pelo “alemães”, assim que voltasse do almoço, poderia
me ajudar. Logo ele
apareceu e me mostrou que eu realmente estava na área alemã.
Ao lado dela, separada por um murinho baixo, os húngaros, próximo
deles os russos e ucranianos, tchecos, etc.
Pelas inscrições nas lápides eu ia identificando os
grupos. Perguntei então
se havia realmente uma área para, por assim dizer, os da
“esquerda”. “Me
disseram até que tem uns túmulos com la hoz-y-martillo”...
“Claro!
Ahi son puros comunistas!” E me mostrou a área onde tirei
a foto. Na verdade, são só dois túmulos com a foice-e-martelo, mas
ainda assim, algo bastante inusitado.
Me despedi do meu “guia” dizendo que achava que só ali
devia ter algo assim, ao que ele respondeu: “Que nada!
Dizem que em Buenos Aires é que tem um montão!”
Em outubro deste ano, o ICUF argentino vai comemorar seu
aniversário e convidou a ASA. Quem sabe eu acabo
me consolidando no “cargo”? |
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