Beco da mãe - Boletim ASA nº 106, mai-jun/2007


Além do Holocausto

Henrique Veltman / Especial para ASA

                   

Uma coisa puxa outra: leio no Boletim 105 a respeito da palestra do professor Rubim Aquino, aí na ASA, sobre o filme Noite e neblina, do Alain Resnais. Foi um sucesso, relata o Boletim.

E aí, me lembro: em 25 de abril de 1974, eu estava na CIP, aqui em São Paulo, para a exibição desse Noite e neblina, quando faria uma palestra e debateria o filme de Resnais, o Holocausto & adjacências com jovens de movimentos sionistas, Chazit, Dror, Hashomer.

Minutos antes do horário combinado, senti uma forte queimação no peito e um ativista da Chazit, o Jorge, me levou primeiro ao bar da esquina e, em seguida, a um posto médico que havia na Rua da Consolação. Lá, o plantonista, um nissei de má catadura, diagnosticou um problema estomacal e me mandou pra casa. Fiquei devendo a palestra e encarando, horas depois, um belíssimo enfarte do miocárdio. O médico, claro, bobeou.

E sobrou para o jornalista Oscar Nimitz, atônito, que se virou como pôde pra manter o programa com a garotada.

O mal à espreita.

Mas, se eu tivesse feito a palestra, teria dito que o filme foi feito para comemorar o décimo  aniversário da liberação dos campos, em 1945, ao final da guerra. Resnais teve a idéia de viajar para os locais onde funcionaram os principais lagers, como Auschwitz e Sachsenhausen, e filmá-los em película colorida. O choque das imagens bucólicas – amplos gramados verdes sob céu azul – com o horror dos cadáveres que repousavam nos mesmos lugares, cinzentos e sem vida, apenas alguns anos antes, cria a idéia que percorre todo o filme: o mal está à espreita, em qualquer lugar, a qualquer tempo. É preciso estar sempre atento para que ele não engolfe as cores do mundo.

Resnais confessou que sempre pensou em Noite e neblina como uma sutil condenação à decisão francesa de invadir a Argélia, fato ocorrido na época do lançamento do filme. Embora não haja qualquer menção a isso durante a película, a idéia se encaixa perfeitamente no texto delicado, mas firme e cortante, de Cayrol. Sim, é um filme sobre o Holocausto, e está repleto de imagens da brutalidade inimaginável dos campos de concentração (pilhas de cadáveres mutilados, paredes de câmaras de gás arranhadas pelas unhas dos prisioneiros à beira da morte). Mas o filme não deseja simplesmente impressionar através da violência. Ele está além do Holocausto

É da combinação de três fatores que resulta a beleza de Noite e neblina: o contraste entre imagens da guerra e do pós-guerra, a doçura cortante do poema de Jean Cayrol e a delicadeza da música melancólica de Hanns Eisler. Ou seja, este não é um documentário jornalístico, frio e objetivo. Pelo contrário. Imagem, som e texto compõem uma espécie de sinfonia audiovisual que, na palavras de François Truffaut, é uma “aula de História cruel, mas merecida”. É isso.

Bom que a ASA tenha promovido a sua exibição e o debate. Bom seria que escolas, judaicas ou não, clubes e associações, aproveitando o DVD que agora está disponível, tratassem de promover seguidas e repetidas exibições do filme.

Como diria minha saudosa mãe, dona Rachel, “nunca esqueceremos”.

Henrique Veltman, carioca, 70 anos, é casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América.

 

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