Erich Fromm - Boletim ASA nº 106, mai-jun/2007


Marx: um profeta?

Edgar Leite Castro / Especial para ASA

                   

Perry Anderson escreveu (em Considerações sobre o marxismo ocidental) que uma das preocupações dos pensadores marxistas do pós-guerra era a busca das origens filosóficas do pensamento de Marx. No entanto, levando em conta que nessas raízes, nos dizeres de Anderson, havia “a esmagadora presença” de “motivos idealistas ou religiosos”, em sua maioria os intelectuais foram cautelosos ao abordar o assunto. Normalmente, limitaram suas proposições ao entorno de Marx ou a filiações e influências mais ou menos evidentes.

Assim, alguns, como Lukács, Marcuse e Adorno, reafirmaram a importância do pensamento de Hegel na gênese do marxismo. Sartre valorizou Kierkegaard. Della Volpe apontou para Aristóteles, Galileu e Hume. Gramsci, para Maquiavel. Colletti, para Kant e Rousseau. Uma abordagem especialmente singular, e talvez dissonante, foi a de Althusser. Provavelmente influenciado por Plekanov, o filósofo francês, (em Ler O capital), sustentou que Marx não podia ser entendido sem a consideração da “filosofia de Espinosa”, autor, “provavelmente”, da “maior revolução filosófica de todos os tempos”.

O aprofundamento realizado por Althusser de entender Marx como herdeiro de Espinosa foi duramente criticado. Um outro eminente historiador do marxismo, Martin Jay, (em Marxismo e totalidade), asseverou que, embora Marx tivesse lido Espinosa “com entusiasmo” em 1841, “atraído pela sua crítica liberal da religião e da censura”, logo buscou a linhagem do seu materialismo nos filósofos iluministas franceses. Jay era da opinião, compartilhada por Anderson, de que o pensamento de Espinosa, repousado na crença da eternidade do mundo e desprovido de uma dimensão histórica, muito pouco contribuíra ao marxismo.

Parece assim que a maior parte dos marxistas, com a exceção de Althusser e talvez de Della Volpe e Gramsci, hesitava em aprofundar linhagens intelectuais pré-marxistas anteriores ao século 18. Talvez porque entendiam que Marx era, acima de tudo, fruto do Iluminismo ou porque também consideravam que era difícil localizar as sementes do materialismo marxista em sistemas de pensamento entranhados de religião. Por isso Galileu e Maquiavel podiam ser aceitos, mas dificilmente Espinosa.

Aparentemente, a mais radical das abordagens sobre o tema foi a de Erich Fromm (1900-1980). Fromm nasceu em uma família de judeus ortodoxos e foi, assumidamente, marcado pelos estudos talmúdicos de sua juventude. Marxista e materialista na maturidade, procurou unir o pensamento de Freud ao de Marx. Tornou-se crítico do sistema capitalista ocidental, mas também do autoritarismo e da burocracia do então chamado “socialismo real”. Fromm entendia o marxismo como um sistema de pensamento libertador e realizador das potencialidades historicamente reprimidas do ser humano.

Em Concepção marxista do homem, de 1961, Fromm acrescentou sua opinião ao debate em torno das origens do marxismo. Escreveu então que “a meta de Marx, o socialismo baseado em sua teoria do homem, é essencialmente o messianismo profético expresso em linguagem do século 19”. Essa colocação transcendeu os limites genealógicos e as barreiras filosóficas admissíveis pelo marxismo ocidental. Fromm sustentou que as raízes do pensamento de Marx estavam fundadas em parâmetros estabelecidos pelo “messianismo profético”, ou presentes na literatura profética judaica.

É provável que Fromm tivesse em mente certas dimensões da pregação política profética. Primeiro, a afirmativa da universalidade da condição humana. Segundo, a tese da responsabilidade social pelos rumos da História. Terceiro, a opinião de que a História possui uma dinâmica reacionária, isto é, as tragédias que se abatem sobre os homens são reações a ações humanas. Mas quarto, principalmente, a defesa de que atos revolucionários, isto é, tomadas súbitas de consciência, interrompem os ciclos circulares e reacionários e criam as condições para o advento da utopia.

Para os que criticavam a filiação de Marx a Espinosa de Althusser, a tese de Fromm pareceria com certeza ainda mais inaceitável. O pensamento profético parte do princípio de que Deus é o senhor da História. No entanto, Fromm via ali a exteriorização de uma demanda histórica crucial, tão permanente quanto a ação transformadora do trabalho na História, que era a da luta contra a opressão social, pela justiça.

Para Althusser, grande parte dos problemas existentes entre o exercício da consciência humana e a presença de Deus, herdados da literatura profética, teria sido solucionado por Espinosa.  Este, ao fundir o divino e o natural, abriu caminho para o materialismo de Marx. Tal possibilidade realizaria talvez uma aproximação remota entre Althusser e Fromm. A diferença é que, segundo Fromm, o pensamento de Marx conteria em si não apenas uma desagregação da metafísica judaica, personificada por Espinosa, mas valores e princípios históricos do judaísmo. Para Fromm, através do marxismo o judaísmo, mais uma vez, falava ao mundo de sua existência, propostas e grandeza.

 

Edgard Leite Castro é professor da UERJ e integrante do Conselho Diretor da ARI.

 

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