Kinderland - Boletim ASA nº 106, mai-jun/2007


Judaísmo e função social

Bruno Bondarovsky e Daniel Levy de Alvarenga / Especial para ASA

                   

A temporada 2007 da Colônia de Férias Kinderland de 2007  recebeu 260 crianças e adolescentes, além de uma equipe de 40 voluntários entre monitores, auxiliares e coordenadores. Devido à grande procura,  fomos obrigados a criar uma lista de espera com muitos interessados. Qual é o papel da Kinderland na nossa comunidade?

A Kinderland sempre foi palco para os artistas da liberdade e para os sedentos por democracia. Mas o que fazer quando a democracia já não é novidade nem tampouco escassa? O que ensinar para crianças e jovens que conhecem a liberdade de expressão e o poder do dinheiro? Que vivem em um país onde reina a impunidade, prevalece o desrespeito, exalta-se a esperteza, espanta-se com a honestidade e desvaloriza-se o conhecimento? Que convivem com a desigualdade social, moram ao lado da miséria e sobrevivem aos bandidos como se todos estes fossem apenas dados imutáveis da época atual? As respostas devem estar claras em nossas atitudes e na programação das nossas atividades.

Os princípios da Kinderland não mudaram, mas o aspecto deles que deve ser trabalhado mudou, e muito. Se respeito às diferenças significava não zombar do colega, hoje é não se calar quando o colega é zombado por quem quer que seja; se preocupação ecológica era entender e conhecer a natureza, hoje é o "agir crítico" no cotidiano, de forma a evitar impactos e contribuir para a conservação do meio ambiente; se a solidariedade era a colaboração mútua, hoje é partilhar um sentimento de interdependência e tomar para si questões comuns.

Os princípios da Kinderland espelham alguns valores do judaísmo – valores que, apesar de universais,  não são encontrados em abundância. E seria um equívoco dizer que a Humanidade tem  compromisso com estes valores ou os carrega como a chave para um mundo melhor.  Há dois mil anos, cada povo tinha suas leis, sua religião, sua história e seu pedaço de terra ou seu caminho. Era fácil distinguir valores. Mas, desde o Império Romano e a universalização das religiões, começando pelas de origem cristãs, e, recentemente, com a formação dos  países, não é tarefa fácil atribuir valores a um universo de pessoas. Cada país é berço de muitas religiões e culturas. Cada religião tomou muitas formas. Se no passado havia muitos pagãos, hoje multiplicam-se os ateus e agnósticos, oriundos muitas vezes de pensamentos ideológicos opostos. Poucos grupos preservaram suas raízes e sua unidade, entre eles algumas irmandades, povos que vivem isolados, descendentes de tribos indígenas e sociedades africanas, algumas civilizações orientais e, certamente, os judeus.

Como trazemos isso para a realidade brasileira? Ora, a história do Brasil é recheada de falcatruas, dissimulações e meias verdades. Sempre houve o jeitinho, o conhecimento e a indicação. Venera-se a Lei de Gérson. Cultuam-se os privilégios e os benefícios de uns à custa do suor de outros. Tanto se fez que hoje está tudo estampado aos quatro cantos em todos os meios de comunicação. Um mar de lama sem tamanho; um pântano que lentamente tomou conta das nossas instituições oficiais e, de uma hora para outra, nos demos conta de que não há para onde nadar. Aqueles que não compactuam com as práticas vigentes, apesar de moral e às vezes até legalmente condenadas, ficam ilhados neste pântano à procura de seus pares. As crianças se perdem na busca de exemplos a seguir em meio a tantos paradoxos e contradições. É precisamente nesse momento que as pequenas comunidades podem exercer as suas virtudes. Seja pela solidariedade, pela crença na justiça equânime, pela tradição democrática ou pelo respeito às diferenças, a comunidade judaica tem que ser um pouso seguro para seus integrantes. Uma referência para suas crianças. Um exemplo para a sociedade.

 

É na Kinderland que tudo volta a fazer sentido. Lá, as regras são claras, conhecidas e respeitadas. O tempo é livre, mas há um horário a ser seguido. As opções são muitas e escolhas devem ser feitas todo o tempo. A criação de uns propicia o lazer e o aprendizado de outros. Há solidariedade nas obrigações e cumplicidade nos objetivos. O espaço é organizado. A natureza impõe sua força e encanta com seu charme. Lá, você vê as conseqüências de suas atitudes, certas e erradas. Muito se ri, muito se chora. Muito se pensa, muito se vive. No passado, a Colônia de Férias Kinderland apontava para um mundo melhor, mais democrático e com maior liberdade. Os jovens e as crianças podiam, por quinze dias, vivenciar o futuro e construir  este código orientador de seus atos. Muito nos alegra este reencontro com a nossa função social:  apontar com segurança novamente para um mundo de liberdade com responsabilidade, de respeito e ética, e aprumar a bússola interna de cada criança e de cada jovem que passa pela colônia. Essa é a nossa contribuição para a comunidade. Essa é a nossa forma de defender o judaísmo e seus valores universais.

 

Daniel Alvarenga é presidente e Bruno Bondarovsky é diretor de Patrimônio da Kinderland.

 

*
*  *

[topo]