| Argentina - Boletim ASA nº 106, mai-jun/2007 |
Daniel Silber / Especial para ASA
A Argentina deve ao capitalismo o maior horror da sua História. Em
24 de março de 2006, 30 anos após o último golpe de Estado, a
sociedade inteira fez um balanço. Atos e mobilizações em todo o
país mostraram quão terrível havia sido aquele trágico
acontecimento. Olhando para trás, vimos em toda a sua dimensão não
um golpe a mais, porém um golpe diferente por suas características
e seus objetivos. Os responsáveis foram as genocidas Forças
Armadas e de Segurança (FFAAyS) e importantes setores civis que instigaram, aplaudiram,
acompanharam e participaram dessa espantosa etapa, que deixou a
nossa Pátria prostrada. Pretendiam convencer-nos das bondades de um
sistema social, econômico, político e cultural decadente e podre
até a medula, que só trouxe mais dores ao povo: essa é a essência
e o conteúdo do sistema capitalista e do modelo neoliberal.
Não é casual a sua autodenominação: Processo de
Reorganização Nacional. Um de seus objetivos fundamentais foi
redesenhar o país para impor o neoliberalismo, o que exigiu das
classes dominantes um novo tipo de metodologia: a aplicação feroz
do terrorismo de Estado. Não houve erros
nem excessos por parte da repressão, ao deixar um rastro de
mais de 30 mil irmãos
e irmãs que hoje não estão conosco. Houve uma metodologia sistemática
e cientificamente aplicada com o objetivo de implantar o terror no
mais profundo da sociedade para imobilizá-la e assim liquidar
qualquer resistência à imposição de seu projeto.
O genocídio começou com o tenebroso bando Aliança
Anticomunista Argentina (3 A), criada a partir do Ministério do
Bem-Estar Social por José López Rega (personagem próximo ao
presidente Perón), e prosseguiu com o golpe de Estado de 1976.
Nesse marco, a coletividade judaica recebeu a sua “cota”
de terror, inclusive incrementada pela tradicional formação ideológica
das FFAAyS, na qual o componente anti-semita e admirador do nazismo
era (?) de grande importância. Muitas testemunhas destacam sem
qualquer dúvida a atitude discriminatória no tipo de repressão
sofrido pelas vítimas judias. Os testemunhos das vítimas
sobreviventes e dos protagonistas que viveram de perto esse processo
são maciços e irrefutáveis.
As raízes do anti-semitismo nas FFAAyS estão na própria
História argentina. Propunha-se um silogismo simples, cuja matriz
perdura: revolucionário – russo – judeu . Ao prussianismo inicial
somou-se um novo condimento: o anticomunismo. A formação ideológica
das FFAAyS, simpáticas ao nazifascismo, foi completada, durante a
Guerra Fria, pela preparação recebida pela Escola Francesa −
desenvolvida na Indochina e na Argélia − e pela Doutrina da
Segurança Nacional da Escola das Américas, dos Estados Unidos.
A repressão paraestatal, da Semana Trágica (1919) até
hoje, tem uma continuidade política, ideológica, organizativa e
operacional: Liga Patriótica, Legião Cívica, Aliança Libertadora
Nacionalista, Taquara e 3 A têm em comum o seu conteúdo
antipopular, antioperário, católico reacionário e anti-semita.
Entre 1974 e 1976, a repressão ilegal esteve a cargo dos 3
A. Paralelamente, as FFAAyS realizavam diversas ações, entre elas
a “Operação Independência”, em Tucumán, uma verdadeira ocupação
militar que incluiu a violência ilegal. Dado o golpe de 1976, ambos
os subsistemas − o legal e o ilegal − integraram-se,
formando apenas um, sob a condução política e operacional das
FFAAyS.
No Nunca Mas,
informe realizado pela
Comissão Nacional para o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), há
um capítulo inteiro dedicado à coletividade judaica, que, durante
a ditadura fascista, sofreu de modo especialmente atroz, cruel e
desumano. Quantos de nós fomos golpeados, torturados, humilhados
unicamente por sermos judeus e de esquerda? A interminável lista de
presos desaparecidos é só uma amostra das características
nazistas do regime genocida e de suas essências últimas. Somem-se
a eles presos políticos
e exilados.
Estudos demográficos assinalam que, por volta de 1976,
viviam na Argentina uns 250 mil judeus, ou seja, 0,96% da população
da época, estimada em 26 milhões. Embora o número total de
desaparecidos não possa ser definido com exatidão, uma lista
provisória e incompleta, baseada exclusivamente em dados da CONADEP
(set/1984), informa sobre 1.296 casos de judeus vítimas da repressão,
que, sobre os 10.424
casos denunciados, representam 12,43%. Nunca
Mas cita, em seu Anexo, 8.956 casos não resolvidos de presos
desaparecidos, dos quais os judeus representariam 12,47%,
além de 15,62% das vítimas consideradas mortas em 1984.
O resultado provisório, sujeito a uma revisão mais
completa, assinala que passaram por campos clandestinos de detenção
da ditadura umas 1.900 vítimas judias cuja situação (vivo, morto,
desaparecido) se desconhece. As 1.296 vítimas judias permitem
avaliar com grande credibilidade o impacto da repressão
anti-semita. Integram a lista, em sua maioria, pessoas com
sobrenomes de origem ashquenazita, às quais foram acrescentados os
manifestamente sefaraditas, já que, salvo informações diretas, os
sobrenomes de origem espanhola mais comuns utilizados em alguns
casos pelos sefaraditas não puderam, momentaneamente, ser
determinados e considerados. Estes números mostram a particular
ferocidade com que foram tratados os presos de origem judaica.
Os testemunhos recolhidos por diversas organizações e
fontes, os depoimentos nos “Juízos da Verdade” e outras instâncias
judiciais, informações reunidas pelas organizações de direitos
humanos nos mostram como, também neste aspecto, a coletividade
judaica não é homogênea e atuou de maneira diferenciada.
Oficialmente, a DAIA (Delegação de Associações Israelitas
Argentinas, a maior entidade da comunidade e que se autoatribui a
função política do conjunto da coletividade) não questionou o
golpe de Estado nem a maciça violação aos direitos humanos, mesmo
que alguns de seus representantes no interior (por exemplo, em Córdoba)
tenham sido perseguidos, seqüestrados e torturados. Contudo, há
evidências de que colaborou indiretamente para salvar muitos
judeus, facilitando o exílio
deles em Israel.
O ICUF sofreu a violência de várias maneiras, antes e
depois do golpe. Em 1975, foi explodida a sede da Associação
Cultural Israelita de Tucumán; professoras primárias da Escola
I.L.Peretz de Villa Lynch foram seqüestradas e ameaçadas; bombas
foram colocadas no ICUF e na Escola Zhitlovsky; todas as entidades
foram alvos de intimidações (a Zumerland
de Córdoba teve de fechar as portas).
Em 1976, a repressão aumentou. Contudo, o ICUF participou
dos muitos atos de resistência do campo popular: a revista Tiempo,
cautelosa, porém firme
e permanentemente, fazia críticas
duras; elaborou-se um registro de desaparecidos judeus que
foi apresentado à CIDH em 1979, com todos os riscos que isso
implicava; as instituições continuaram abertas, com suas
atividades “normais” (Kinder, jovens, conferências, encontros,
filmes, teatro, Zumerland / Mercedes), apesar das ameaças e provocações
de todo tipo; cediam-se as sedes para as organizações de direitos
humanos.
Dezenas de pessoas que compõem o doloroso censo de presos
desaparecidos e assassinados costumavam freqüentar
ou haviam em algum momento freqüentado as nossas instituições,brincado
no Kinder ou na Colônia, cantado nos acampamentos, lido no shule
ou na biblioteca, integrado times esportivos, atuado nos teatros.
Tivemos companheiros assassinados e presos desaparecidos em quase
todas as nossas entidades (Mendoza, Córdoba, Rosário, Santa Fé,
Buenos Aires, Tucumán). Em Zumerland
das cidades de Mercedes, Córdoba e Santa Fé, placas
homenageiam a memória desses jovens. Uma lista muito incompleta nos
fala de mais de 40 deles. Procediam do amplo arco da esquerda
marxista e peronista. Certamente o nosso patrimônio cultural e
ideológico contribuiu para a sua formação e atuação política e
social. Também muitos de nós padecemos na prisão, nos exilamos
e/ou perdemos o emprego.
Estamos trabalhando para recuperar a memória de toda essa
geração, e para corrigir
e aumentar a lista em
poder da AMIA e da Associação de Detidos desaparecidos judeus. Faz
parte do nosso patrimônio cultural, da nossa luta antifascista,
pela libertação e construção de uma sociedade diferente desta em
que vivemos.
Não glorificamos nenhuma destas atitudes de resistência:
como herdeiros dos combatentes do Gueto de Varsóvia, era nossa
obrigação política e ética, e nós a cumprimos, muito embora se
fizesse alguma confusão e apesar da selvagem repressão
desencadeada nessa orgia de sangue e horror. Toda aquela barbárie
reforça a nossa especificidade e explica a nossa existência como
uma voz diferente no seio da comunidade.
Há atualmente uma reabertura e um grande esforço para levar
à prisão comum os responsáveis pela repressão.
Os julgamentos das Juntas Militares criaram esperanças, mas
não tardou para que as leis do Ponto Final, da Obediência
Devida e do Indulto parecessem selar um ciclo em que
a impunidade triunfaria. Os Juízos da Verdade e a anulação
dessas leis permitiram ampliar esse processo e pôr à disposição
da justiça centenas de repressores em nosso país e no exterior.
Isto é possível graças à constante mobilização popular
− acionando todas as organizações de direitos humanos e
movimentos sociais e políticos −, à pressão da comunidade
internacional e à atuação mais decidida do governo. Sem estes
elementos, os culpados continuariam andando à vontade pelas ruas.
A violação dos
direitos humanos não pode ficar impune:
seus responsáveis devem ser julgados e condenados. Os crimes
de lesa-humanidade não prescrevem. Daniel Silber, professor de História formado em Ciências Políticas,
é presidente do ICUF da Argentina. Foi preso em 1981, durante a ditadura. Tradução de S.M.G. |
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