Israel - Boletim ASA nº 106, mai-jun/2007


Novo Oriente Médio?

Gershon Knispel / Especial para ASA

Como quem deixou de abotoar o botão inferior da camisa e se surpreende ao descobrir o engano quando chega ao colarinho, assim nós, os israelenses, nos encontramos desolados diante da crise que, pela primeira vez, coloca em dúvida nossa existência como nação judaica.

A linha desenhada por Theodor Herzl para a realização de seu sonho no “Altneuland” deveria se ligar de alguma forma ao eixo palestino quando, para sua surpresa, constatou, em sua viagem à “Terra Prometida”, que ela não estava deserta. Estava habitada por um povo árabe − “herdeiros autênticos de nossos antepassados, que continuavam a morar em suas terras, seus dirigentes adotaram um caminho de vida, uma forma de se integrar organicamente na paisagem bíblica do país. Nós contribuiremos com a tecnologia e a industrialização avançada que traremos da Europa, como dote”. Assim, nas palavras do profeta do Estado, poderemos concretizar os nossos sonhos.

O desconhecimento absoluto, por parte das primeiras ondas de imigrantes que chegaram da Europa Oriental, do legado de  Herzl trouxe a vitória da linha ativista de Ben Gurion − “criar à força fatos consumados no terreno”.

A operação “trabalho hebraico” de Ben Gurion, que teve início no começo dos anos 20, desempregou milhares de agricultores, pavimentadores de estradas e operários de construção árabes. Quando o solo pátrio começou a fugir debaixo de seus pés, movimentos de libertação nacional palestina foram a resposta ao sionismo agressivo, que se transformou no movimento de libertação judaico com aspirações expansionistas declaradas.

Fracassaram os esforços desesperados dos líderes sionistas moderados da Alemanha, à frente dos quais se encontravam os professores Martin Buber e Gershom Shalom, de desviar o rumo para a cooperação herzliana, de fazer um pacto com os dirigentes árabe-palestinos para lutar contra o inimigo comum: o colonialismo do mandato britânico (1918-1948).  Chegaram tarde demais, quando os adeptos de Ben Gurion já haviam consolidado suas posições. A mentalidade dos “guetos”, muito característica deles, o fechamento atrás de muralhas se sobrepôs à concepção humanista, aberta, dos judeus alemães assimilacionistas, promotores do Pacto de Paz, que preferiam a coexistência pacífica com os palestinos, num país binacional.

 O movimento sionista,  cuja bandeira era a luta contra o colonialismo britânico e que pregava a igualdade social a todos os seus cidadãos, sem diferença de religião, raça e sexo, transformou-se no bastião de Washington, hoje sua aliada mais fiel no Orient Médio.

Há anos os diários e semanários israelenses passaram a publicar, às vésperas  do Dia da Independência, uma pesquisa entre os 50 mais eminentes intelectuais, artistas, comentaristas políticos, sociólogos, economistas e jornalistas sobre as conquistas e os erros dos governos de Israel. A conclusão unânime é de que a ocupação é o erro mais grave desde a Guerra dos Seis Dias,  que em junho vai comemorar 40 anos.

Israel  desconhece os limites da partilha (1947) e expande constantemente suas fronteiras muito além das fronteiras do armistício, que já representaram uma grande vantagem em relação aos limites da partilha. Em 1956,  uniu-se à Inglaterra e à França na “Operação  Sinai”, com a intenção de impedir que os líderes da revolta militar que derrubou o rei Faruk nacionalizassem o Canal de Suez. Israel foi obrigado a se alinhar com os Estados Unidos, que, juntamente com  a União Soviética, deram o ultimato de evacuar imediatamente o Sinai. Desde então Israel é um aliado capitulado dos Estados Unidos.

 Kissinger usou a Guerra do Iom Kipur, em 1973, para obrigar o revisionista Beguin a assinar um tratado com Sadat. Com base no princípio de “territórios em troca da paz”, o Sinai foi devolvido integralmente. A paz resiste precariamente  há exatamente 30 anos.

Em Israel, políticos e militares que, na ativa, tiveram grande popularidade, pregaram, no final de suas carreiras, longe da mesa governamental, o fim da ocupação e o retorno às “fronteiras do bom senso” – as linhas de 1967.

 Ben Gurion, que alguns meses antes de morrer conclamou a abrir mão da Jerusalém Antiga em troca da paz, foi chamado de “senil”. Moshé Dayan confessou, em seu leito de morte, que o erro de sua vida foi a ordem de conquistar, no sexto dia de lutas da Guerra dos Seis Dias, as colinas do Golan, conquista que impedia, segundo ele, um acordo de paz permanente com a Síria. Dele disseram: “Perdeu o segundo olho, ficou cego para enxergar a realidade.” Beguin, traído, enclausurou-se por anos em sua casa,  de onde saiu no caixão.

Rabin, que teve a inteligência de conduzir, com seu colega palestino Iasser Arafat, ao acordo de paz em Camp David, em 1994, tornou-se “o primeiro soldado da paz tombado”. Assassinou-o um judeu fanático, influenciado pelas instigações de  Bibi Netaniahu e Ariel Sharon, que  denominaram Rabin “traidor”.  Bibi venceu Peres nas eleições e começou o isolamento de Arafat no seu quartel de Ramala, onde ficou cercado durante três anos até a sua morte misteriosa. Com ele morreu o sonho de Oslo.

Jovens palestinos, que lançavam pedras e coquetéis molotov na tentativa de impedir que soldados penetrassem nos acampamentos de refugiados, começaram a surgir com coletes explosivos, causando a morte de centenas de israelenses inocentes.

Também as muralhas gigantescas que sufocam os palestinos,  impedindo que levem uma vida normal,  encontraram uma resposta: foguetes Kassam, de fabricação caseira, passaram a semear  pânico nas cidades do sul de Israel. Encobertos por longos túneis, os jovens penetram por baixo das posições e abrigos de concreto, os explodem, matam os soldados e levam os sobreviventes como reféns para trocá-los por milhares de palestinos que apodrecem nas prisões e acampamentos de prisioneiros em Israel.

A 2ª Guerra do Líbano demonstrou claramente que não há solução militar para o prolongado conflito. No princípio da guerra, a porcentagem dos que a apoiaram alcançou 83%; hoje, os que se opõem a ela chegam a 93%. E Olmert ficou somente com 1,5% de apoio.

Para entender esta mudança radical, ocorrida em apenas alguns meses, vamos aos fatos: com aviões F-16, helicópteros Apache equipados de sofisticados foguetes, e   bombas de fragmentação, proibidas pela Convenção de Genebra,  o chefe das Forças Armadas, Dan Halutz, começou uma blitzkrieg arrasadora. A maior parte da infra- estrutura civil no Líbano foi destruída, bairros residenciais em Beirute desmoronaram sobre seus moradores, aldeias inteiras no sul do país se tornaram ruínas e  das ruínas foram retirados centenas de corpos de  inocentes, na maioria crianças, mulheres e velhos. O Hezbolá enganou o famoso serviço de informação do Exército de Defesa de Israel (Mossad). Por uma rede de incontáveis túneis subterrâneos transportou munições e combatentes para grutas de onde mísseis e Katiushas eram lançados e chegaram a atingir Haifa,  para surpresa  até  do comando de informações israelenses. Inclusive de nosso lado começou a se multiplicar o número de vítimas dos foguetes, cidades do norte foram abandonadas, fugindo seus habitantes para o sul do país. Ficou claro que o apoio político e militar de Washington é inconsistente.

Os países que invadiram o Afeganistão e o Iraque arrastam consigo seus aliados. A derrubada de Sadam Hussein causou a renovação da aliança Irã-Iraque. O fundamentalismo cresce e ameaça a hegemonia ocidental no que resta de seus satélites entre os países árabes. O Hamas aumentou a sua força, quando a maioria dos palestinos leigos depositou nele um voto de protesto contra a ocupação que se prolonga.

O Chefe das Forças Armadas foi demitido, Olmert e Perets oscilam entre uma comissão de inquérito e outra, e hoje não há presidente, ministro ou deputado − dos importantes − que não tenha uma caixa de Pandora pendurada nas  costas! Diariamente são convocados a novas investigações, alguns deles já em processo judicial, demitidos e apelando.

O lendário líder da esquerda israelense Moshé Sné costumava conclamar a que se  fendesse a muralha de ódio dos países árabes que estavam à nossa espreita, que se  ampliasse qualquer rachadura  para conversar com quem quer que fosse e  sair do círculo de ódio,  desfazendo essa frente ameaçadora.

Mas a liderança israelense continua a permitir a criação de novos assentamentos nos territórios e expandir os já existentes.

As punições coletivas, as mortes nos campos de refugiados, em Gaza e em Ramala unem os que, ainda ontem, eram adversários.   Sunitas, xiitas, curdos, laicos e fundamentalistas, na reunião da Liga Árabe que se realiza no momento em que escrevo estas linhas,  levam suas posições ao extremo e se apresentam  unificados.

Do outro lado, vê-se um governo derrotado, com alternativas ainda piores. Segundo as últimas pesquisas de opinião pública,  os partidos do centro encolhem: Kadima, 12 mandatos (31), e Trabalhista, 12-13 (21).

Em compensação, o Likud chega a 35  (13) e o partido russo de Avigdor Liberman, a 16. As idéias da “transferência” e da “Israel completa” manterão a sua força. A coalizão montada por eles colocará uma lápide final no sonho de Hertzl de uma “Pátria dos Judeus”. Os demógrafos  alertam que dentro de 10 a 15 anos Israel perderá a maioria judaica.

Enredo 1 – Não dar direito de voto aos árabes – “apartheid” – colocará Israel na mesma linha que a África do Sul do passado, ocasionando um aprofundamento do linchamento político.

Enredo 2 – Transferir / expulsar os árabes dos limites da Israel completa não é plausível na realidade do século 21.

Enredo 3 – Dar direito de voto a todos os  cidadãos eliminará o sonho de um Estado Judeu, pois restará uma minoria judaica, como nos outros países do mundo. Receita certa para voltar aos “dias gloriosos de Massada” – suicídio coletivo dos fanáticos, enquanto estamos encarcerados dentro das muralhas que construímos com nossas próprias mãos.

Tudo começou de um botão que entrou numa casa errada. Assim nos desviamos, perdemos nosso rumo e rolamos no precipício.

Haverá quem possa deter?

Gershon Knispel é artista plástico.

 

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