Beco da mãe - Boletim ASA nº 105, mar-abr/2007


Galena e Nós no rádio

Henrique Veltman / Especial para ASA

          

            Schmílikel, o Gónev:

            Schmílikel Gónev, assim ele era conhecido na Praça Onze e arredores. Durante muitos anos foi o protótipo do luftmentsh, vivendo de vento. Até o dia em que descobriu as estampilhas.

Há 40 anos, o sistema tributário brasileiro era estruturado em torno das estampilhas. Havia estampilhas federais, estaduais e municipais, e as diretrizes da política fiscal concentravam-se em disciplinar − arduamente − a hierarquia dos formatos das estampilhas e a tropicalidade das suas cores.  Naquele tempo, graças aos diversos valores dos selos – cada um de uma cor −,  o chamado sistema tributário era um carnaval. Só havia confusão, muito papel colorido.

As estampilhas desapareceram como forma do pagamento de tributos. Mas deixaram suas marcas. Quem ainda tiver móveis antigos poderá ver atrás dos armários e embaixo das cadeiras as estampilhas aplicadas pelos fabricantes. Sapatos, também. Quando se adquiria um par de sapatos, a primeira coisa que se fazia era retirar a estampilha que vinha colada numa das solas. Nas escolas, quando o aluno chegava com sapato novo, os colegas pisavam-no “para tirar o selo”.  “Tirar o selo” era isso.

Voltemos ao Schmílikel Gónev. Ele descobriu, um dia, a sua grande chance comercial: vender estampilhas pela metade (ou menos ainda) do seu valor de face. Arrumou uma tipografia onde os selos (falsos, é claro) passaram a ser impressos, e fez grande e duradouro sucesso na praça carioca!

Claro, volta e meia ele tinha problemas com a polícia e com a fiscalização. Mas, ontem como hoje, sempre se dá um jeito, e nosso gónev não se apertou.

Quando morreu, a família publicou o tradicional anúncio fúnebre no jornal. Debaixo de seu nome verdadeiro, em itálico, a observação necessária: Schmílikel Gónev. Do contrário, ninguém saberia quem era esse tal de Samuel...

Descanse em paz.

 

Galena, quem lembra? 

Vocês já ouviram falar dos rádios galena?

Isso remete aos primórdios da era do rádio, época em que Marconi e outros pioneiros efetuavam testes com emissões de ondas radiofônicas, as hertzianas. Uma boa parte dos galenas era de construção caseira, fabricada no início do século 20. O rádio de galena básico se resume a uma bobina, um capacitor, um cristal de galena (daí o nome), um fone de ouvido de alta impedância, (2.000 ohms no mínimo), uma antena e um fio terra.
Os acessórios ficavam por conta de cada montador, que incrementava seu aparelho com os mais variados componentes. O mais conhecido era o "bigode de gato", usado para procurar a melhor localização na pedra de galena, momento em que se conseguia ouvir a estação. Este bigode de gato era formado por um arame de aço muito fino em forma de espiral.  Fixado em uma base móvel, geralmente de madeira,  tinha um pequeno cabo para manipular a peça.         

 A operação deste rádio era extremamente simples, mas de resultados nem sempre  satisfatórios, pois não possuía etapas de amplificação de sinal. Era muito usado em locais onde não se dispunha de energia elétrica ou outra fonte de tensão.
           O galena foi muito útil aos soldados na Segunda Guerra: pequeno, bastava esticar um fio com uns 20 ou 30 metros para se captar estações situadas a milhares de quilômetros.

 

Meu galena

Meu pai, Chico, no início de sua aventura brasileira, nos anos 1920, “adotou” um brasileirinho que o ajudava no seu dia-a-dia. O Moura foi educado por ele, estudou até o Científico, sabia tudo de mecânica. Me deu de presente, quando eu tinha meus sete anos, um rádio galena (roubamos o fone de um telefone público).

Eu e meu rádio fomos o sucesso da hora no Beco da Mãe.

Moura falava ídish perfeitamente, sabia tudo da culinária judaica. Fez carreira na Aeronáutica, foi cassado pela revolução de 1964, depois reintegrado e aposentado. Casou, teve filhos e netos. Uma figura maravilhosa. Meu querido irmão negro, Amaro Moura Cysneiros, Z’L.

 

Nós no rádio

Nós já estávamos no ginásio, mas não posso garantir o ano. O que sei é que nós, basicamente o Fraim e eu (e sempre mais alguns hebreus, como o Bines, o Gerson e outros), aliviávamos a crônica falta de dinheiro freqüentando alguns programas de auditório, como o de João de Freitas no Rádio Clube do Brasil (no Rádio Clube, é como os locutores anunciavam) e a Rádio Seqüência G-3, do Paulo Gracindo, na Rua da Carioca, no cine Ideal (hoje em dia, vejo matérias dizendo que era no cine Íris, na mesma rua. Não me lembro disso).

Como é que a gente ganhava dinheiro? Ora, havia nesses programas Perguntas & Respostas. No do João de Freitas, o Jonjoca, o esquema era sofisticado. Se você acertasse as perguntas, ia subindo para o Paraíso. Se errasse, Purgatório e Inferno... E nossa participação era dinheiro em caixa. Nós sabíamos tudo. E terminávamos a noite com pelo menos 50 cruzeirinhos no bolso...

No programa do Paulo Gracindo o esquema era diferente. Ele chamava um candidato ao palco e, se ele não soubesse a resposta, pedia ao auditório. E nove vezes em dez, nós já tínhamos a resposta na ponta da língua.  Coisas como “cite uma obra de Eça de Queiroz” ou “quem descobriu a penicilina”. Chegou o dia, inclusive, em que fomos educadamente colocados para fora do programa. “Só dá vocês, meninos! Chega, né?”

 

Henrique Veltman, carioca, 70 anos, é casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América.

 

*
*  *

[topo]