Negacionismo - Boletim ASA nº 105, mar-abr/2007


Carta a Ahmadinejad

Mahmud Al-Safadi

          

          Senhor presidente,  desde que  foi eleito, acompanho as suas declarações com grande interesse. Mas estou furioso com a sua insistência em alegar que o Holocausto nunca ocorreu e com as suas dúvidas em relação ao número de judeus assassinados nos campos de extermínio e de concentração, nos massacres organizados e nas câmaras de gás.

             O senhor fez essas declarações sem conhecer realmente a indústria nazista da morte.  Ler os trabalhos de alguns negacionistas lhe parece suficiente. Creio que um homem na sua posição não deveria cometer um erro tão enorme. Como o senhor e milhões de pessoas no mundo, entre as quais inúmeros palestinos e árabes, eu também estava convencido de que os judeus exageravam e mentiam a respeito do Holocausto.

            Tive a oportunidade, em decorrência do meu longo encarceramento, de ler livros e artigos que as nossas normas sociais e ideologia tornaram inacessíveis para nós fora da prisão. Descobri fatos e posições que contradiziam a mim e a  muitos palestinos. Li relatos de sobreviventes do Holocausto e da ocupação nazista escritos por pessoas de diferentes nacionalidades, judeus e não-judeus. Quanto mais  lia, mais  percebia que o Holocausto foi realmente um fato histórico e mais  me conscientizava da dimensão monumental do crime cometido pela Alemanha nazista contra os judeus, outros grupos sociais e nacionais e a Humanidade em geral. Descobri que a Alemanha nazista ambicionava fundar uma “nova ordem mundial”, dominada pela “pura raça ariana” por meio da aniquilação física de “raças impuras” e da escravização de outras nações. Descobri que diversas instituições oficiais “normais” − repartições, sistemas judiciários, autoridades médicas e educacionais, prefeituras, companhias ferroviárias e outras − participaram   na implementação dessa nova ordem mundial.

            Seja qual for o número de vítimas, judias e não-judias, o crime é monumental.  Quem negar esse fato não deve se espantar se outros negarem os sofrimentos e as perseguições infligidos ao seu próprio povo por líderes tirânicos ou ocupantes estrangeiros. Terão sido centenas de milhares de testemunhos  sobre campos de morte, câmaras de gás, guetos e assassinatos em massa cometidos pelo exército alemão, dezenas de milhares de trabalhos de pesquisa baseados em documentos alemães, numerosos filmes (alguns feitos por soldados alemães), terá sido toda essa massa de evidências completamente fabricada?

            Pode tudo isso ser resumido simplesmente como um complô imperialista-sionista? Terão sido as confissões de oficiais nazistas de alta patente sobre o seu papel pessoal no projeto de extermínio de nações inteiras apenas fruto da imaginação de algum espírito perturbado?

            E todos os fatos heróicos dos povos submetidos à ocupação alemã − entre os quais os primeiros foram os russos, poloneses e iugoslavos − serão apenas mentiras e grossos exageros?  Os russos continuam a celebrar sua vitória sobre a Alemanha nazista e a lembrar milhões de seus compatriotas civis e militares que perderam a vida nessa luta. Também eles estão mentindo?

             O senhor divide o mundo em dois campos: os imperialistas-sionistas, que fabricaram o mito do Holocausto, e os adversários do imperialismo, que conhecem a verdade e revelaram o complô. Talvez pense que negar o Holocausto o coloca na vanguarda do mundo muçulmano e  é  útil no combate ao imperialismo americano e à hegemonia ocidental. Ao fazê-lo, o senhor  presta um grande desserviço a lutas populares por todo o mundo. No melhor dos casos, cobre o seu povo e a si próprio de ridículo aos olhos de forças políticas que rejeitam o imperialismo mas não podem levar as suas idéias e argumentos a sério, porque o senhor nega obsessivamente a existência de um período histórico abundantemente documentado e estudado, cujas conseqüências são ainda hoje sentidas e discutidas.

            No pior dos casos, o senhor enfraquece as forças políticas, sociais e intelectuais que, na Europa e nos Estados Unidos, rejeitam a política de confrontação e guerra levada a cabo por George Bush, mas são forçadas a concluir que o senhor, também, prejudica o mundo com a sua negação do genocídio e  o seu programa nuclear.

Talvez o senhor veja a negação do Holocausto como uma expressão de apoio aos palestinos. Aí também o senhor erra. Nós lutamos pela nossa existência e por nossos direitos e contra a injustiça histórica que nos foi imposta em 1948. Nós não alcançaremos a vitória e a independência negando o genocídio cometido contra o povo judeu, ainda que as forças que hoje ocupam o nosso país e nos desalojam façam parte do povo judeu.

 

Mahmud Al-Safadi esteve 18 anos preso em Israel por pertencer à Frente Popular para a Libertação da Palestina e por participar da Primeira Intifada.

Publicado no boletim virtual do grupo pacifista Jewish Voice for Peace. Tradução de S.M.G.

 

 

*
*  *

[topo]