Tijuca - Boletim ASA nº 105, mar-abr/2007


Quase um Shtetl

Esther Kuperman / Especial para ASA

          

          É cada vez mais difícil encontrar o passado de pé. Foi a sensação que tive ao ver o prédio do antigo Colégio Hebreu Brasileiro, na Tijuca, sendo demolido.  Quando terminei o Admissão no Scholem, minha primeira escola, meu pai sugeriu que eu fosse para o  Hebreu, onde ele tinha feito o antigo ginásio.

Logo senti a diferença: no Scholem se estudava ídish e História Judaica, que era chamada de Ídishe Gueshihte. Tudo ensinado pelas lérerques Basse e Etel. Nunca fazíamos bagunça nas aulas de ídish, especialmente nas  da lérerque Etel, que nos tratava com muita seriedade. Ela trazia pequenos textos escritos em roxo − porque rodados em mimeógrafo a álcool −, que colocávamos com capricho nos cadernos. Eram pequenas histórias, poesias, letras de música... Textos para complementar nosso aprendizado... Numa época em que ainda não se usava esta metodologia, nossa lérerque já fazia modernidades. Mas éramos ainda pequenos para entender o quanto  aquilo era  importante... Já, na aula de hebraico, estávamos sempre irrequietos e desatentos. Talvez porque a morá não usasse coque e óculos como a lérerque, ou talvez porque ao ivrit não fosse dada a importância que se dava ao ídish... Ou porque, em casa, ouvíamos frases ou até conversas inteiras em ídish, e o ivrit fosse, para nós, algo estrangeiro. Como saber?

No  Hebreu, o hebraico era fundamental; o ídish passou a ser secundário. Colegas que vinham do Hertzlia, outra escola judaica da Tijuca,  não sabiam quase nada de ídish, mas entendiam alguma coisa de hebraico. Pelo menos, bem melhor do que eu. As aulas de ídish,  ninguém levava muito a sério. Eu era a única da turma que fazia questão de ouvir o que o lérer dizia. Até porque ele era amigo do meu avô. Quando o lérer avisava que iria fazer o dictat, o barulho era tão grande que mal se ouvia sua voz. Ele sempre fechava o dictat com um a punkt. Mas poucos anotavam a frase em que ele pretendia colocar o ponto final. Ao contrário, nas aulas de hebraico, os alunos prestavam atenção e escreviam o que a morá dizia. Havia também  História Judaica e  Moledet (algo como uma geografia de Israel). Para os  adiantados em hebraico – o que não era o meu caso –,  História Judaica era dada em ivrit; para os “atrasados”,  em português.  Foi no Hebreu que aprendi hebraico e Moledet.

Quando acabavam as aulas, no final da manhã, saíamos para tomar sorvete de baunilha no Bob’s. O sorvete derretia rápido, mas dava tempo pra comentar os  acontecimentos do fim de semana. Aí nos dividíamos novamente.  Não mais em “adiantados” ou “atrasados”, mas entre os que freqüentavam o Hashomer e o Dror. Havia também o pessoal do Bnei Akiva, mas  eram minoria.  Hashomer e Dror tinham suas sedes – ou quenim - nas imediações da praça Saens Pena e eram uma espécie de continuação da escola: muitos de nossos madrihim davam aulas de hebraico no Hebreu. Assim, havia sempre algo a contar e razões para cultivar a eterna rivalidade entre os que pertenciam aos diferentes movimentos.

 Os que freqüentávamos Hashomer e  Dror quase não íamos às atividades do Monte Sinai.  Mal dava tempo pra um pulinho na piscina do clube. Nossa vida era voltada para o quen e para a escola. Quem não estava nas tnuot ia ao Monte Sinai, onde bailes e eventos  marcavam as principais festas judaicas. Mas no clube não havia aquele padrão “halutz” que era a tônica nos movimentos juvenis. O estilo era outro. Talvez por isso  não tivéssemos tempo para freqüentar os bailes do clube. Nos movimentos, dançávamos e cantávamos em roda e usávamos quase sempre roupas iguais: quando não era a blusa branca do Shabat, era a eterna blusa azul (hultsá khulá).  A calça jeans e o tênis eram inevitáveis! Simplicidade, despojamento. Era o que chamávamos de “valores juvenis”.

Na Tijuca do final dos anos 1960, cabiam todas as tendências do judaísmo. Era um bairro judeu completo: escolas, clubes, movimentos, sinagogas, açougues onde se podia comprar carne kasher, e até a Policlínica Israelita. Nossos pais  sabiam quais eram as lojas cujos donos eram judeus. Havia algumas notórias, como a Casa Queiroz, que, apesar do nome, pertencia à família Cohen. Minha avó fazia questão de comprar sapatos por lá. Um perfeito shtetl...

Andar pela Tijuca hoje é como estar em outro lugar. Acabaram-se os colégios, a Casa Queiroz fechou, os movimentos juvenis estão na zona sul ou perderam muitos dos seus freqüentadores. Muitos judeus foram para a zona sul ou para a Barra. Restou muito pouco daquilo que tínhamos nos anos 60. Até os prédios onde funcionavam algumas destas instituições foram demolidos. O Monte Sinai ainda está por lá, resistindo. Mas o bairro deixou de parecer um shtetl. Talvez a Tijuca seja hoje, para nós, os tijucanos daqueles tempos, uma terra estranha.

 

Esther Kuperman, historiadora, é colaboradora do Boletim ASA

 

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