Tijuca - Boletim ASA nº 105, mar-abr/2007


Meu Shtetl

Mauro Band / Especial para ASA

          

          Leandro Konder escreveu que “memória são referências do nosso caminho de vida”. Uma boa parte das minhas foi adquirida na Tijuca, bairro de forte presença da colônia judaica da zona norte, na vasta área que começa na Rua Uruguai e termina na Matoso, repleto de praças, colégios, hospitais, e de gente orgulhosa de morar num dos melhores lugares da cidade. 

Falar em Tijuca é falar na Praça Saens Pena, ou, simplesmente, Praça, como nos referimos ao centro nervoso do bairro. Foi lá que comecei a conhecer o mundo por intermédio das galerias, das grandes lojas e das salas de cinema. De  mãos dadas com meu pai, saí do cinema Olinda após ver um filme de Silvio Cesar, cantor famoso do início dos anos 1960. Até hoje me lembro do frio que sentia quando passava na calçada do Metro Tijuca, e das matinês dos filmes de Walt Disney, às 10  da manhã. Os cinemas Bruni,  Britânia,  Tijuca,  Carioca, América e Art-Palácio completavam uma Saens Pena viva e pujante. O Palheta servia de referência para os transeuntes e o Bob´s da General Roca era meu ponto favorito para comer sanduíches e tomar sorvete com meus pais, irmãos, tios e primos.

            A Tijuca judaica tomou conta de mim aos poucos. Na minha infância, havia duas sinagogas − nas ruas Afonso Pena e Ibituruna − onde encontrava meus avós paternos em festas religiosas. Gostava de ir na de Simhat Torá, pois, além de ganhar a bandeira de Israel, comia uma deliciosa maçã caramelada! Bem, isso passou, a Tijuca se transformou e eu cresci. Mas nenhuma mudança  apagou  o que sinto pelo “meu” quarteirão, aquele quadrado  limitado pelas ruas Mariz e Barros, São Francisco Xavier, Heitor Beltrão e Professor Gabizo. Eu explico: minha família saíra do Rio Comprido  para a São Francisco, ao lado do Monte Sinai e atrás do Colégio Scholem Aleichem. Ali era a minha cidade, o meu shtetl.

Naquele tempo, o Monte era tudo: os jogos de futebol, as festas noturnas, os encontros com os colegas do Scholem e do Hebreu Brasileiro, com primos, tios e amigos. Além de  natação, vôlei e futebol, aprendi a viver em sociedade e a jogar para o time, a fazer parte de uma equipe, a lutar por um ideal. O Monte Sinai é uma exitosa instituição judaica em que meus pais, avós e outros idealistas me ensinaram a força e permanência de um ambiente e de um pensamento judaico. Foi lá que meus professores de esporte me ajudaram a crescer e aprender o sabor da vida. A saudade que tenho desses tempos me leva longe e me faz lembrar  figuras queridas. Minhas homenagens a José Bercowitch, o Zé Careca, meu professor de judô. O que ele mais me ensinou foi  a garra, a raça, a gana de ir atrás do meu sonho.

Do outro lado do quarteirão, na Professor Gabizo, 211, existia o melhor colégio do mundo! Só quem estudou no Scholem sabe do que falo. Num período politicamente conturbado, o Scholem nos apresentava as alternativas possíveis para mentes dispostas a conhecer idéias diferentes. Não posso me esquecer das diversas peças de teatro encenadas por pais, sob o comando de Eugênia Levy,  de O bravo soldado Schweik,  de teor judaico, dirigida por Orlando Codá, e das representações, por alunos, de textos importantes da dramaturgia. Lembro-me de um cantor e compositor iniciante, um tal de Luis Gonzaga Júnior, numa apresentação intimista para nós, freqüentadores do cineclube das sextas à noite. O Scholem pulsava esperança, alegria, afeto e amizade. Se hoje trabalho na ASA e me envolvo com questões judaicas, devo-o às discussões a que assisti e às informações que obtive dos ótimos professores que por lá passaram. Nada disso, porém, seria possível se não fosse a figura do professor Moisés Genes. Inteligente, hábil no trato com os alunos, infatigável no ideal de formar homens e mulheres para o mundo, sabia que a qualidade do ensino do colégio devia ser perseguida com tenacidade, suor e luta. Minhas homenagens a ele, a quem devo tanto.

Os cinemas sumiram, assim como a Sloper e a Mesbla. As galerias não têm tanta importância, nem o Bob’s. O Monte Sinai se mantém na qualidade de catalisador da coletividade judaica do bairro, mas o Scholem não mais existe. Quando ando pelas ruas daquele quarteirão e reconheço algo que me leva no tempo, meus olhos ficam úmidos por que lembro a minha infância e juventude, a época em que era inocente e pouco conhecia do mundo. Hoje, quando busco forças para enfrentar os desafios diários de sobreviver em um mundo difícil, sinto-me mais confiante, pois me recordo daquelas referências. Tive a sorte de viver num shtetl, cercado por quatro ruas lindas, cada uma ao seu estilo, que me proporcionou tantas alegrias e emoções, naquela Tijuca que não volta mais, mas que vive nos corações e nas mentes de saudosos moradores.

 

Mauro Band é vice-presidente da ASA e tijucano de coração.

 

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