| Estados Unidos - Boletim ASA nº 105, mar-abr/2007 |
Paul Mishner / Especial para ASA
O movimento progressista talvez tenha sido o predominante nas comunidades judaicas após a Segunda Guerra Mundial. A esquerda organizada era forte e, mesmo fora do movimento esquerdista, gozava de enorme simpatia na comunidade judaica. Isso tinha três aspectos. As reformas econômicas dos quatro governos de Franklin Roosevelt transformaram a comunidade judaica de trabalhadores pobres e marginalizados em uma comunidade de trabalhadores e profissionais de colarinho branco. Entre estas reformas, uma das mais significativas veio após a morte de Roosevelt. Denominada G.I. Bill, permitiu investimentos de milhões de dólares em educação secundária gratuita e em habitações de baixo custo para veteranos da guerra. O apoio da esquerda ao antifascismo rendeu-lhe mais simpatia, especialmente à medida que aumentava o conhecimento do que foi o genocídio contra os judeus na Europa. E, finalmente, o apoio dado então à fundação do Estado de Israel pela União Soviética e pela esquerda comunista nos Estados Unidos também aumentou a simpatia pela esquerda. Tudo isso continha elementos contraditórios que desafiavam o papel da esquerda na comunidade judaica entre 1945 e 1975. As duas questões mais importantes a impulsionar a comunidade judaica para a direita foram o Perigo Vermelho e a guerra árabe-israelense de 1967. Diferentemente da repressão política que caracterizou muitas das ditaduras militares na América Latina durante os anos 1960 e 1970, a ameaça do Perigo Vermelho nos EUA operou com precisão quase cirúrgica. As únicas pessoas realmente atingidas foram aquelas que tinham de fato ligação com a esquerda. Não houve um medo generalizado na população como um todo, e, nos grupos com forte presença da esquerda − por exemplo, nos sindicatos e na comunidade judaica −, aqueles que rompiam os vínculos com a esquerda e concordavam em repudiá-la de público freqüentemente eram recompensados. Na comunidade judaica aumentaram as chances de aderir à corrente majoritária da sociedade. O único custo era rejeitar as antigas simpatias pela esquerda. Como sempre houve uma tendência conservadora na comunidade judaica, e os socialdemocratas desejassem dissociar-se dos comunistas, muitos escolheram esse caminho. Além do mais, não significava aliar-se a uma ditadura fascista; significava apenas um pequeno desvio em direção à ala liberal do Partido Democrata, que era tão anticomunista quanto os republicanos. Dois outros processos ocorreram simultaneamente e contribuíram para esse desvio na orientação política da comunidade judaica. A enorme expansão do mercado de trabalho para os profissionais liberais e de colarinho branco, depois da Segunda Grande Guerra, combinada com a educação superior gratuita, favoreceram de forma desproporcional antigos esquerdistas judeus. Afinal, o sistema precisava de profissionais de origem operária que tivessem a instrução necessária para preencher esses novos empregos. Os judeus, especialmente os filhos de imigrantes operários, com seu treinamento ideológico na esquerda, figuravam entre os mais capazes para fazer a transição da classe operária para a dos profissionais liberais. Israel, como uma idéia e como uma presença política, teve um papel mais complicado. Ao longo dos anos 1950 e 1960 foi possível respaldar a visão de sionismo promulgada pela liderança sionista trabalhista em Israel e manter perspectivas esquerdistas a respeito de quase todos os assuntos. Israel era apresentado como um Estado socialdemocrata liberal, e, para os judeus nos EUA, dava-se uma ênfase demasiada ao papel dos kibutsim no desenvolvimento da sociedade israelense. É claro que as questões relacionadas aos palestinos estavam completamente ausentes dessa visão. A guerra de 1967 fraturou essa perspectiva. A corrente majoritária na comunidade judaica − os socialdemocratas − e seus aliados na ala liberal do Partido Democrata viram o conflito como uma guerra de defesa contra países extremistas e antidemocráticos. A esquerda, preocupada principalmente com a guerra no Vietnam , começou a simpatizar com os palestinos. Os judeus que continuaram comprometidos com uma perspectiva antiimperialista foram marginalizados da comunidade judaica. Ao mesmo tempo, o governo israelense e seus aliados nos EUA faziam campanha por uma visão unitária, não-crítica, de Israel dentro de cada organização e comunidade judaicas. Não significa que os judeus nos EUA tenham se inclinado para a direita em todas as questões. De fato, na maioria dos assuntos domésticos os judeus serviram como bastiões de organizações liberais e, geralmente, deram seus votos para os liberais. O Partido Democrata se tornou dogmaticamente comprometido com uma visão pró-sionista, ainda que conservando os votos de liberais e esquerdistas. Outra parte da campanha contra a esquerda dentro da comunidade judaica surgiu com o debate acerca da presença do anti-semitismo na URSS. Não que a esquerda americana fosse pró-soviética, pois não o era. Mas a campanha foi útil para desenvolver a visão de que não havia alternativas ao sionismo para a comunidade judaica. Esse padrão se manteve razoavelmente constante ao longo da guerra de 1973 e dos numerosos conflitos dos anos 1980. Mesmo em caso de oposição à política dos EUA no Oriente Médio − por exemplo, em relação à guerra no Kuait e à atual guerra no Iraque −, as simpatias pró-sionistas entre os liberais judeus freqüentemente obstruíram qualquer discussão sobre o papel de Israel nesses conflitos ou sobre a questão palestina como parte dos conflitos na região. Entretanto, em meados de 1980, novas vozes e novos pontos de vista surgiram dentro da comunidade judaica − vozes mais críticas da política israelense. A eleição de Menahem Béguin e o crescimento do poder da direita israelense (Likud) tornaram a identificação entre o Estado e o governo em Israel mais problemática. Além disso, as crescentes ligações entre muitos judeus nos EUA e a política israelense significava que os judeus estavam cientes dos debates que ocorriam em Israel. Ficou óbvio que havia mais vozes divergentes dentro de Israel do que dentro da comunidade judaica americana. Finalmente, a proposta de dois Estados, baseados nas fronteiras anteriores a 1967, respaldada não apenas pela esquerda israelense mas por importantes forças políticas palestinas, mostrava uma alternativa que permitia a continuação de Israel como um Estado judeu, em paz com seus vizinhos, e justiça para os palestinos. Surgiu uma nova esquerda judaica com raízes em três setores da comunidade judaica americana. Primeiro, a esquerda política (não só organizações como o Partido Comunista, mas a esquerda multifacetada que emergira das décadas de 1960 e 1970, freqüentemente não identificada com qualquer partido, ainda incluía muitos com bagagem judaica); segundo, judeus, freqüentemente com fortes laços com Israel, que, motivados por um desejo genuíno de paz no Oriente Médio, vieram a apoiar a solução de dois Estados e reconhecer a legitimidade de algumas reivindicações e preocupações palestinas. Finalmente, no fim dos anos 1990, jovens criados em lares e comunidades pró-israelenses economicamente estáveis e politicamente convencionais começaram a questionar as políticas israelenses. Era o resultado do envolvimento deles em lutas por justiça social − especialmente as que, nos anos 1980, se opunham à política americana na África do Sul e na América Central − ou em lutas domésticas contra o racismo e/ou a desigualdade econômica. Esses três setores voltaram a trabalhar juntos em novos tipos de organizações judaicas. A Judeus pela Justiça Racial e Econômica foi fundada com a intenção de ser uma voz em prol de um ativismo mais militante ligado à justiça social dentro da comunidade judaica. De lá também surgiram posturas mais críticas a respeito do Oriente Médio. Nos últimos anos, a Judeus contra a Ocupação preparou uma nova geração de ativistas para a luta pela paz no Oriente Médio. Esta organização vem patrocinando viagens a Israel e à Margem Ocidental, durante as quais jovens judeus dos EUA participam de atos não-violentos e, às vezes, de desobediência civil contra a destruição de casas palestinas por Israel. Rachel Corrie, estudante do Oregon morta ao tentar deter um buldôzer israelense, é um exemplo desse ativismo. Ao mesmo tempo, tem havido um esforço nesse novo contexto político para que jovens judeus retomem a cultura do movimento progressista judaico do passado. Alguns estão aprendendo ídish; a popularidade da música klézmer vem aumentando; e algumas instituições, como as shules [escolas, em ídish] que fizeram parte da esquerda judaica secular, estão sendo revividas. Deve-se observar a importância e a contínua vibração do Acampamento Kinderland. A Kinderland, cujas raízes remontam ao movimento comunista judaico da década de 1920, continua a prosperar e a atrair jovens de famílias judias, tanto da esquerda tradicional quanto da esquerda mais recente. Seus freqüentadores estão representados em quase todas as manifestações por justiça e paz na cidade de Nova York, ostentando faixas em ídish e inglês. Para o futuro, a questão continua complicada. Muitos esquerdistas judeus, tendo se afastado da comunidade judaica por causa do dogmatismo pró-israelense, e tendo muito a contribuir na comunidade maior, não se identificam como parte de uma esquerda especificamente judaica. Alguns consideram que a única razão para falar ou agir como judeus é a de garantir uma voz judaica para os direitos dos palestinos. Além do mais, para a esquerda permanece a questão: será a comunidade judaica um espaço útil para desenvolver um trabalho político? E, finalmente, apesar dos esforços pelo renascimento cultural, não está claro quão judaico o movimento progressista pode ser e quão progressista pode ser um movimento baseado numa comunidade pequena, razoavelmente próspera.
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