| Purim - Boletim ASA nº 105, mar-abr/2007 |
Davy Bogomoletz / Especial para ASA 1 – O povo judeu, o
oprimido histórico, comemora mais “dias da independência” que
qualquer outro. Pessach e Hanucá são “festas
da independência”. Shavuot
é uma “festa do estabelecimento da nação” (visto que a
“Constituição” hebraica, a Torá,
foi promulgada nesse dia). Purim, também, é uma espécie de “dia
da independência”, ou, no mínimo, um “dia da libertação”.
Somando tudo, somos o povo mais “livre” da história... 2 – A história de Purim
é contada no Livro de Ester,
um dos últimos a ser incluído na Bíblia
hebraica. Nele, nada há que possa ser chamado de “sagrado”. Não
há menção à divindade que, em todos os demais livros, é a
“personagem central” da narrativa. Há até hipóteses de que o
livro não passaria de “conto popular” destinado apenas a
inventar um fundo histórico para um “carnaval” importado de
outros povos. 3 – O clima do livro o
assemelha a um filme de ação, ou então a uma novela das dez, como
se dizia antigamente (na época em que as crianças iam dormir
cedo...) De todos os livros da Bíblia
hebraica, talvez seja o que mais facilmente poderia ser transformado
num enredo de escola de samba. E, a propósito, deu origem a um
velho costume, infelizmente esquecido, de nesse dia, na sinagoga,
cantar-se o “Samba do rabino doido”: os eruditos mais bem
humorados davam, em Purim, “aulas” extremamente engraçadas,
entrelaçando raciocínios malucos
com explicações delirantes,
em tom extremamente sério,
como se estivessem desfiando uma
verdadeira reflexão talmúdica... 4 - No Livro
de Ester conta-se a primeira rebeldia de uma esposa contra o jugo de
seu marido. Vashti, a rainha da Pérsia e da Média, desobedeceu
explicitamente a uma ordem de Assuero, o rei, e os conselheiros
deste apressaram-se a exigir sua cabeça alegando que, se a própria
rainha desobedecia ao rei em pessoa, e nada lhe acontecesse, o que
seria deles, pobres mortais, quando chegassem em casa?... Assim,
devidamente castigada a rainha por sua audácia, diz o livro
explicitamente, “todas as mulheres darão valor a seus maridos,
sejam grandes (poderosos) ou pequenos (joões ninguém)” (cap. 1;
20)... Vashti, a rainha desobediente, tornou-se um ícone do
movimento feminista. 5 – Expulsa
a rainha, o rei manda fazer um concurso de beleza nacional para
escolher a sua nova esposa. E a vencedora é... Ester, sobrinha de
Mordehai (Mardoqueu). Ela logo assume a preferência dos
organizadores do concurso, por sua extrema obediência! (cap.
2; 15, 16) 6 – Entre o episódio da
expulsão da rainha e o dia em que Ester é levada para o julgamento
do rei passam-se quatro anos – o que dá uma idéia do cuidado com
que, naquela época, era realizado um concurso de beleza... (cap. 2;
17). Além do mais, ao rei não bastava olhar para a moça para
decidir quão bela era ela. Levava a noite inteira examinando-a
(cap. 2; 14). Como eram criteriosos os persas... 7 – O rei se apaixona
por Ester e a nomeia rainha de toda a Pérsia. 8 – Detalhe: Ester não
contou a ninguém sua origem judaica, por ordem de seu tio Mardoqueu
(cap. 2; 10). Essa omissão deliberada é repetida adiante, no
versículo 20. E todos sabem que, quando a Bíblia
repete uma coisa, é porque naquela época não havia recursos gráficos
para colocar negrito ou itálico para realçar a sua importância. 9 – Corta para
Mardoqueu, “sentado à porta do rei”, isto é, nomeado (sem
ingerência alguma de
Ester, claro, todas as CPIs da época a inocentaram!) alto funcionário
pouco depois da coroação... Fade off. 10 – Alojamento dos
seguranças do palácio: dois funcionários de médio escalão, da
guarda do rei, sentindo-se prejudicados, tramam o assassinato do
rei. Corta para Mardoqueu no furgão cheio de aparelhos eletrônicos,
perto do palácio, ouvindo a conversa deles pelo microfone secreto
instalado no alojamento. 11 – Mardoqueu conta
para Ester, que sopra no ouvido do rei e menciona Mardoqueu como sua fonte. O lucro da operação foi repartido entre os dois (cap. 2;
22). 12 – Corta para os porões
do palácio. Duas figuras em pau de arara: eles confessaram. Corta
para a forca: dois corpos caem pesadamente, com um baque surdo. Nos
Arquivos Reais, funcionários
com longas penas de pavão registram todo o episódio. 13 – Bem à frente no
tempo, Hamán, o agagita, é nomeado primeiro-ministro. Ele passeia
pelo palácio, outro pavão (as penas usadas pelos escribas foram
tiradas do rabo dele...), e todos se curvam à sua passagem – menos
Mardoqueu. Instado a se explicar, responde enigmaticamente:
“Eu sou judeu” (cap. 3; 4). Na ala esquerda do palácio, cambistas
aceitam apostas sobre o tempo que Mardoqueu vai sobreviver depois
dessa... 14 – Hamán fica sabendo
– e imagina um comício em Nurenberg com Hitler esbravejando e a
multidão incalculável delirando... 15 – Alto comando persa
(todos cheios de medalhas) reunido em torno de uma enorme mesa, com
Hamán, de bigodinho, na presidência. Assinam o protocolo de
Swansee. 16 – Sorteia-se o dia 13
do mês de Adar como o Dia do Extermínio dos Judeus. 17 – Hamán explica para
o rei que um tal de povo judeu não obedece às Leis do Reino, tem
uma religião própria, em suma, traidores! (Detalhe para a
boca espumante de Hamán quando pronuncia a palavra...) Oferece ao
rei uma enorme soma em dinheiro em troca da licença para acabar com
eles. O rei, que não vê motivos para discordar,
distraidamente oferece a Hamán o anel real para
com ele selar o decreto de extermínio. Novamente os escribas, desta
vez escrevendo editos que serão entregues a agentes vestidos de
preto, pilotando motocicletas poderosas e capacetes com viseiras
escuras, que levarão as ordens para a matança a todos os cantos do
reino. 18 – Mardoqueu, ao saber
de tudo, rasga suas roupas, veste um saco e joga cinzas da lareira
sobre a cabeça. Close do rosto desesperado – à semelhança de O
grito, de Münch. Em seguida, vai
até o palácio. Guardas barram sua entrada – está vestido de
modo inadequado. 19 – Mardoqueu manda
para Ester uma cópia do
panfleto, com a instrução de ela pedir
clemência ao rei. 20 - Na
melhor tradição das Mil e uma noites, Ester
convida o rei, e também Hamán, para um banquete, ao fim do qual os
convida para outro, e depois outro. Hamán sai do banquete meio bêbado,
feliz da vida, mas fica furioso ao ver Mardoqueu sentado no pátio,
sem se levantar nem se curvar à sua passagem. 21 – Hamán em casa
choraminga. Diz que de nada adianta ser o primeiro do reino e ter
sido convidado ao banquete da rainha, enquanto Mardoqueu, o judeu,
fica sentado no portão e não se curva à sua passagem. Diz-lhe Zéresh,
sua esposa: “Façamos uma árvore de 50 metros de altura e
penduremos nela esse judeu nojento.” Hamán gosta, e faz a árvore
(cap. 5; 17). 22 – Naquela mesma
noite, o rei manda trazerem as Crônicas
do Reino para serem
lidas à sua frente. Logo chegam ao episódio dos dois assassinos
executados depois da informação prestada por Mardoqueu. O rei
pergunta como recompensar Mardoqueu, mas ninguém diz nada. E
Hamán tinha vindo ao palácio para contar ao rei que pretendia
pendurar Mardoqueu na árvore. O
rei manda chamá-lo e pergunta: “O que fazer a alguém a quem o
rei deseja exaltar?” Hamán, pensando que “alguém” é ele próprio,
diz: “Que seja vestido com roupas do rei, e que monte num cavalo
do rei, e um dos ministros vá à sua frente gritando: ‘Assim faz
o rei a quem ele quer exaltar’.” Então o rei diz a Hamán:
“Corre, pega a roupa e o cavalo, e dá-os a Mardoqueu, o judeu
sentado no portão.” Close para a cara de desespero
de Hamán, como a cara de Gary Cooper em Matar
ou Morrer, quando descobre que ninguém da cidade irá ajudá-lo
a enfrentar os bandidos que vêm chegando. 23 – Cenas
do desfile de Mardoqueu pela cidade, com a multidão delirando, e
Hamán conduzindo o cavalo e gritando a frase famosa. Apoteose. 24 – Casa de Hamán. A
mulher dele e seus
amigos o enterram de vez: “Se da estirpe dos judeus é esse
Mardoqueu, diante de quem começaste a cair, tu não poderás com
ele. Acabarás derrotado a seus pés.” Nesse momento, os eunucos
do rei chegam para levar Hamán ao banquete da rainha. Música lúgubre
ao fundo. 25 – Grande clímax: no
banquete, o rei novamente pergunta a Ester o que ela deseja, e até
a metade do reino lhe será dada. Ester, engolindo em seco, sobe ao
palco, pega o microfone e começa o discurso, lembrando o discurso
da Fada Madrinha ao final de Shreck
2: “Se é do
agrado do rei, peço que me sejam dadas a minha alma, e as almas do
meu povo. Porque fomos vendidos, eu e meu povo, para nos exterminar,
matar e eliminar. E se como escravos fôssemos vendidos, eu me
calaria, pois não seria problema digno de incomodar o rei.” 26 – Cena de clipe de
filme de ação. O rei começa a falar: “Disse então o rei
Assuero a Ester, a
rainha (trovejando – imaginemos Pavarotti furioso ao extremo):
‘Quem é esse cujo
coração o levou a assim fazer?’ Ester responde, no mesmo tom:
‘Um homem cruel e malvado, Hamán, esse homem atroz.’ Rosto de
Hamán, apavorado (agora ele com cara de O
grito). O rei se levanta furioso (derrubando a cadeira e virando
a mesa) e sai do banquete para o jardim. Hamán se joga sobre o
leito da rainha para pedir clemência. O rei volta do jardim e
encontra Hamán debruçado sobre o leito da rainha, e diz (subindo
ainda mais o tom, se isso é possível): “O que ????? Conquistar a
rainha também pretendes, e comigo dentro de casa ?????” (cap. 6;
8) Close para o rosto agora estraçalhado de Hamán. 27 – Segreda um dos
eunucos: “Rei, esse cara arrumou um poste de 50 metros no jardim
de sua casa para pendurar Mardoqueu, aquele que salvou sua vida.”
Resposta imediata do rei: “Pendurem-no nele.” 28 – Sucessão rápida:
cenas do enforcamento de Hamán, com a multidão exultando. Cena de
Ester contando ao rei seu parentesco com Mardoqueu. Do rei dando a
Mardoqueu o anel que
tirou de Hamán. De Mardoqueu recebendo as chaves da casa (e os
bens) de Hamán. De Ester pedindo clemência aos pés do rei, para
que este revogue o decreto de Hamán.
Motociclistas (agora de branco) levando pelas mesmas estradas
poeirentas o novo decreto. Cenas de judeus, de espadas e lanças em
riste, dando o troco aos partidários de Hamán. Cena de folhinha na
parede de uma casa humilde (com ilustração bem brega, mas
politicamente correta: um gatinho e um cachorrinho juntos, ou algo
assim), onde se vê nitidamente o dia 13 do mês de Adar. Cenas de
judeus dançando hôira nas
ruas de Susa, a capital da Pérsia e da Média. Música apoteótica
final (de preferência Ierushaláim shel zaháv, depende do
preço dos direitos), e fade out sobre os festejos dos judeus.
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