EDITORIAL - Boletim ASA nº 105, mar-abr/2007


Pragas

            

           Conta a tradição do Pessach que Deus castigou os egípcios com dez pragas para forçá-los a libertar os hebreus. Olhando-as com atenção, percebe-se que algumas se assemelham a desastres ambientais. Invasão de gafanhotos e multiplicação descontrolada de rãs e piolhos podem indicar graves desequilíbrios no meio-ambiente. Como lembrou o jornalista Zuenir Ventura, quando o homem agride a natureza, o planeta não apenas reage: se vinga.

            Esta passagem da tradição judaica se conecta com a divulgação do quarto relatório de avaliação da saúde da atmosfera, produzido pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima). O órgão, criado pela ONU, congregou na tarefa 600 especialistas de 40 países. O diagnóstico é alarmante. O aquecimento da superfície da Terra, provocado especialmente pelo uso maciço de combustíveis fósseis (petróleo e gás natural), chegou a um ponto crítico. Mesmo que medidas drásticas reduzam as emissões de gases que causam o chamado efeito estufa, tempestades e secas serão cada vez mais freqüentes, furacões e tufões ficarão mais intensos e o nível do mar subirá pelos próximos dez séculos. A agricultura sofrerá efeitos devastadores. Estamos diante de uma possível catástrofe de dimensões ecológicas e humanas ora desconhecidas.

            Até a elaboração do relatório do IPCC, alguns meios científicos duvidavam da influência do homem nas grandes mudanças climáticas da Terra. Alegavam que estas faziam parte de ciclos inexoráveis. Agora, com a chancela da elite acadêmica de numerosas áreas do conhecimento, restam poucas dúvidas: o aquecimento global é, com enorme probabilidade, causado por atividades humanas. A cultura do desperdício e a exploração predatória dos recursos naturais estão aproximando o risco de extermínio de grandes massas humanas e extinção de numerosas espécies animais e vegetais.

            Não dá para esperar os quarenta anos que os hebreus teriam passado no deserto depois do cativeiro. É preciso enfrentar já a ganância que leva grandes indústrias a negarem o problema. Os Estados Unidos, que se recusaram a assinar o Protocolo de Kioto (que fixa metas para reduzir os gases aquecedores), têm apenas 5% da população mundial, mas produzem mais de um quarto dos poluentes que aquecem o planeta. Não querem enfrentar os magnatas da produção que lhes garantem poder político. Sem uma mobilização mundial urgente que reverta este quadro, não haverá Moisés que salve a insana esfera azul que habitamos.

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