| Judeus da Leopoldina - Boletim ASA nº 104, jan-fev/2007 |
Heliete Vaitsman / Especial para ASA
Se Samuel Rawet tivesse vivido na França, ou na Irlanda, ou na Itália, haveria placas de bronze e ônibus de turistas literários à porta das casas de sua infância e juventude. Em Olaria, Rio de Janeiro, Brasil, o “writer’s writer” hoje motivo de teses acadêmicas, o engenheiro calculista que participou da construção de Brasília, o erudito leitor de Buber e Spinoza que se proclamava suburbano é um ilustre desconhecido. Ficcionista, ensaísta e dramaturgo de linguagem densa, Rawet estreou - com crônicas, críticas teatrais, editoriais e contos inéditos em livro - na revista O Espelho, do Grêmio Cultural e Recreativo Stefan Zweig, que funcionava no Centro Israelita dos Subúrbios da Leopoldina. O material foi uma das gratas descobertas da pesquisa em que se baseia o livro Judeus da Leopoldina (edição Museu Judaico do Rio de Janeiro, 2006).
Vindo de Klimontow, Polônia, em companhia da mãe e dos irmãos, Rawet desembarcou no cais do porto ao som de Cidade Maravilhosa, em julho de 1936. Tinha 7 anos e se alfabetizara em ídish. O pai, Pesach Moishe Rawet, era clientéltchik, como a maioria dos chefes das cerca de 300 famílias judias, sobretudo russas e polonesas, que se estabeleceram em Olaria, Ramos, Bonsucesso, Penha e arredores, a partir de 1928 (muitos monopolizaram o comércio de móveis e roupas da região nos anos 40-60).
Os imigrantes respeitavam as tradições, como a ida à sinagoga em Iom Kipur, o brit milá dos filhos e o casamento religioso. A vida era simples, recorda Mindla Clara Rawet (hoje Apelbaum):
“Moramos em várias ruas de Olaria - Andorinhas, Lígia, Leonídia, e numa vila da Juvenal Galeno, em frente ao shil [a sinagoga Ahavat Shalom, até hoje funcionando aos sábados]. Eram casas pequenas, de dois quartos, os pais dormiam num quarto, os meninos em outro e eu, a única menina, ficava no sofá da sala. Isso era comum, eu não conhecia uma criança que tivesse um quarto só para ela. E quando chegavam visitas, por mais apertada que a família ficasse, sempre havia lugar.”
Apesar dos fortes laços comunitários, o estranhamento sentido pelo menino Szmil/Samuel foi profundo, ampliado pelo apelido incômodo que deu título a Gringuinho. Relato de exclusão irremissível incluído em Os cem melhores contos brasileiros do século (Editora Objetiva, seleção de Ítalo Moriconi), foi publicado pela primeira vez em Contos do imigrante, em 1955, quando o autor tinha apenas 26 anos, e republicado pela última em 2004, em Contos e novelas reunidos (Ed. Civilização Brasileira, 2004)
Mais tarde, o fosso transposto seria motivo de orgulho: “Sou fundamentalmente suburbano. Eu aprendi português nas ruas, apanhando e falando errado, e acho essa a melhor pedagogia. Eu aprendi tudo na rua”, disse Rawet em entrevista ao escritor Flávio Moreira da Costa (Correio da Manhã, 18/6/1972). Ao declarar este pertencimento, numa época em que já se afastara do meio de origem (com o qual romperia drasticamente em 1977, 7 anos antes de falecer, solitário, em Brasília), Rawet remetia-se a um tempo e um entorno que não viria a idealizar, ao contrário de outros antigos moradores, cuja memória da Leopoldina é de convivência amena e afeto compartilhado.
Rawet participou ativamente do Grêmio Stefan Zweig, criado em 1942, tendo sido seu diretor cultural no final dos anos 1940, início dos 1950. Integrava a Turma da Mão Unida, composta de 5 amigos: além dele, Moysés Jacob Klar, Chaim Pitcowski, Walter Suster e Moisés Beigelman. Os jovens judeus da Leopoldina (como os dos grêmios do Méier, Madureira, Nilópolis e Niterói) mantinham intensa vida social e comunitária, inteiramente laica. Organizavam torneios de vôlei, futebol de salão e pingue-pongue, piqueniques, passeios, festas, bailes; também se preocupavam com o anti-semitismo e, ao mesmo tempo em que acolhiam as campanhas em prol do novo Estado de Israel, defendiam-se das críticas dos sionistas, que preferiam ver as energias de rapazes e moças canalizadas para a aliá. Em O Espelho, Rawet tomou posição a favor de tudo o que divulgasse a cultura judaica. “Nada mais justo que aqueles que aqui estão radicados se organizem para manter escolas, seus clubes, seus jornais. Não se esqueçam os sionistas que a única entidade que até hoje vem mantendo pontualmente um grupo teatral judaico é a Biblioteca Scholem Aleichem. E eles devem bem saber o que representa essa forma animada de transmissão de cultura”, escreveu em novembro de 1950. Antes de ser o autor festejado por nomes como Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Hélio Pólvora e Gilda Salem Szklo, o rapazinho da Leopoldina afiava as palavras às vésperas de alçar vôo.
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