Cinema - Boletim ASA nº 104, jan-fev/2007


Memória resistente

Jacques Gruman / Especial para ASA

          Já ouviram dizer que Buenos Aires tem mais livrarias do que em todo o Brasil? Parece exagero de algum hermano ufanista, mas andar pela Rua Corrientes, no centro da capital portenha, desconcerta. É uma livraria atrás da outra, numa rua enorme. O tapete de papel vai até o bairro do Once, antigo reduto da comunidade judaica argentina. Lá, com um pouquinho de sorte, dá para encontrar velhas edições em espanhol das obras dos escritores clássicos em língua ídish. Selo do ICUF na lombada, quase setenta anos de pé na estrada.


          Na Rua Santa Fé, um banquete. A filial da livraria El Ateneo, construída num magnífico prédio de 1919 onde funcionou um cinema, é uma grande celebração visual e tátil. Ao lado de livros, centenas de CDs de música latino-americana, símbolo de uma curiosidade (ou será identidade?) cultural que não cultivamos por aqui. No meio de milhares de títulos, uma descoberta: muitas obras sobre o período da sanguinária ditadura militar que devastou a Argentina entre 1976 e 1983. Nossos vizinhos não apagaram a memória do horror, nem simularam uma impossível conciliação com os assassinos e torturadores. Ao contrário: estão fazendo, de forma ampla, sofrida e democrática, um balanço daqueles anos trágicos. Reivindicam justiça. 
Há, pelo menos, três títulos recentes do jornalista Horácio Verbitsky que abordam episódios cortantes da ditadura e alcançaram grandes tiragens. Em El Vuelo, o prestigiado colunista do diário Página 12 registra, a partir do depoimento de um oficial da Marinha, a rotina dos vôos semanais macabros, em que presos políticos eram sedados, amarrados a pesos e arremessados de aviões, ainda vivos, ao Rio da Prata. Calcula-se que entre 1.500 e 2 mil foram mortos desta forma. Um capelão, ouvindo a confissão assustada de um soldado convocado para os vôos, confortou-o dizendo que, na medida em que os presos estavam inconscientes no momento em que eram arremessados dos aviões, aquela era “uma forma cristã de morte”. Já em El Silencio e Doble Juego, Verbitsky mexe num vespeiro: as relações entre a Igreja Católica argentina e a ditadura. Desce ao inferno da ESMA, a sinistra Escola de Mecânica da Armada, principal centro de tortura, e desvenda o arco de silêncio e, muitas vezes, de cumplicidade ativa de setores graúdos do clero católico argentino com a selvageria dos aparelhos de repressão.


          Os argentinos não se conformaram com a impunidade dos torturadores, assassinos e seus mandantes. No final dos anos 80, o então presidente Raul Alfonsín patrocinou as leis do Ponto Final e da Obediência Devida. Com elas, se protegiam os militares de sanções legais contra a repressão selvagem que organizaram e executaram. Depois de grandes pressões populares, o juiz federal Gabriel Cavallo declarou nulas, em 2001, ambas as leis, o que foi mais tarde referendado pela Câmara Federal. Estava aberto o caminho para a punição dos que violaram sistematicamente os direitos mais básicos de milhares de cidadãos argentinos. Dava-se uma esperança de justiça aos familiares dos 30 mil desaparecidos entre 1976 e 1983. Tal como já acontecera em Nuremberg, em 1945, os carrascos não podiam mais se esconder atrás de memorandos e do cumprimento automático de ordens. Os documentos dos órgãos de repressão foram abertos ao público. Parece que o último compasso deste tango será tocado pelas vítimas.
O Chile e o Uruguai, como a Argentina, amargaram regimes militares filofascistas nos anos 1970. Perseguições e assassinatos políticos e censura às manifestações culturais e à imprensa entraram no cotidiano de chilenos e uruguaios. Depois de um longo período de impunidade, os tribunais começam a julgar os crimes cometidos pelos que desonraram suas fardas. Também nestes países não se confundiu redemocratização com perdão e esquecimento.

          No Brasil, sopra um vento diferente. Há relativamente pouca bibliografia sobre os chamados anos de chumbo. Os documentos que registram a ação dos órgãos de segurança entre 1964 e 1985 continuam só parcialmente abertos para consulta. Existe uma espécie de silêncio consentido pela sociedade sobre os traumas sociais e políticos nascidos com a ditadura militar. O ex-ministro Delfim Netto, signatário do Ato Institucional número 5 (promulgado em 13.12.68, deu poderes discricionários ao presidente da República, fechou o Congresso por um ano, cassou e suspendeu por dez anos os direitos políticos dos dissidentes, cerceou a liberdade de reunião e expressão) e maquiador de índices econômicos para “legitimar” arrochos salariais, é incensado pelo atual governo, apenas formalmente de esquerda, que elogia seu “bom senso”. É tratado como um economista respeitável, afogando-se o passado. Um escárnio para a memória democrática do nosso país. 

          Outro algoz notório, o ministro da Educação do governo Médici, Jarbas Passarinho, é recebido por órgãos da mídia com um respeito que não merece. Foi ele o inspirador e executor do Decreto-Lei 477, que cerceou duramente, nos anos 1970, o movimento estudantil. Estudantes podiam ser sumariamente expulsos das universidades em caso de suspeita de atuação política. Por que a reverência a alguém com este passado tirânico? 

          Passarinho foi, recentemente, protagonista de um episódio lamentável. Discursou como orador principal num banquete em homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do Doi-Codi, centro de tortura do Exército onde foi assassinado, por exemplo, o jornalista Vladimir Herzog. Cerca de 200 oficiais de alta patente da reserva, entre eles 70 generais, faziam um desagravo àquele que, sob o codinome de dr. Tibiriçá, chefiou, durante quase cinco anos, as seções de tortura no prédio da rua Tutóia. O motivo? Cinco vítimas dos torturadores entraram com ação na Justiça cível, pedindo que se reconheça o coronel Ustra como o responsável pelos martírios. Não se reivindica punição, apenas o registro da responsabilidade. José Carlos Dias, advogado criminalista que defendeu perseguidos políticos pela ditadura, afirma que o coronel Ustra “terá sido dos mais violentos repressores do regime militar imposto ao país”. É a essa figura que Passarinho, coronel reformado, presta solidariedade. Na imprensa, o assunto teve pouco destaque. Na sociedade, é como se não existisse. Nossa memória é curta, seletiva. Justiça ? Ora, para que mexer em “águas passadas”? 

          O muro do esquecimento foi arranhado por um belo filme. O ano em que meus pais saíram de férias admite muitos olhares. É um filme sobre a violência ditatorial? Sem dúvida, mas quando saí do cinema, tive a convicção de que assistira ao primeiro filme judaico brasileiro (exceto, claro, os documentários sobre os judeus). Não porque nele aparecem personagens com nomes e roupas “típicos”. Certidão de nascimento não cria, sozinha, judaísmo. O que importa é que há um amplo e sensível recorte nas células que, de forma complexa e mutante, transmitem formas de identidade judaica. Shlomo é o imigrante, o exilado, o que perdeu referências visuais, afetivas, familiares. Fecha-se em melancolia e resiste a estabelecer contatos fora da rotina. Afinal, o medo da ruptura, que banha sua história, inibe a intimidade. Ser íntimo é admitir uma possível perda, que dói muito. Aos poucos, as vantagens do vínculo, da troca afetuosa, vencem o medo e ele abraça o furacão juvenil que havia invadido sua vida. Age de forma discreta, mas determinada. Quantos judeus, machucados pela rejeição, não são como Shlomo? Quantos entre nós lutam entre o apelo do gueto, confortável porque conhecido, e a aventura do novo?

          Judeus na sinagoga? Sim, mas também fora dela, na luta contra a ditadura. Falando ídish? Claro, mas cada vez mais em português, o som das novas gerações. Ídishe mames engordando os filhotes? Certamente, mas também a turma grudada na televisão torcendo para a seleção brasileira e, no campinho de terra batida, jogando contra os italianos. Casamento misto, trabalho nas confecções (quase um destino para um povo forçado a deslocar-se constantemente). Em cada cena, Cao Hamburger mostra a geléia geral dos judeus reais. Está longe, muito longe, dos clichês puristas e das caricaturas. Senti-me parte daquela tela.

          No finzinho, uma seqüência antológica. O menino Mauro se despede de Shlomo (que lhe devolve um tímido mas revelador abraço) e parte com a mãe para o exílio. Pensa em voz alta mais ou menos o seguinte: “Exílio é um lugar tão longe que meu pai, sempre atrasado, não aparece nunca.” Forma delicada de lidar com a morte, lembrança preciosa dos que desapareceram para sempre nos porões da ditadura, esperança numa chegada que precisa ser construída. 


Jacques Gruman é diretor da ASA e colaborador deste Boletim.          

 

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