| A foto, a história - Boletim ASA nº 103, nov-dez/2006 |
Marina Lemle / Especial para ASA
Crédito: arquivo da família
Todos tinham bigode nessa tropa de soldados alemães da Primeira Guerra, mas a História mostrou que eles não eram tão iguais assim. Na primeira fila, à extrema direita, está meu bisavô, que, como todos ali, arriscou a vida pelo que acreditava ser o melhor para o país. Mas foi o próprio Estado alemão o responsável pelo seu assassinato. Espancado por guardas da SA em 25 de março de 1933, Arnold Rosenfeld foi, junto com outro cidadão judeu, a primeira vítima fatal do nazismo. Era
sábado de manhã e os judeus da cidade celebravam o Shabat
na sinagoga quando cerca de 20 guardas da SA - a
tropa de assalto de Hitler - chegaram de caminhão à
cidadezinha de Creglingen, no Sul da Alemanha. Os chamados
“camisas-pardas” invadiram a sinagoga, capturaram 16 homens e
trancaram as mulheres. Em filas, homens de todas as idades foram
levados à Prefeitura. No caminho, encontraram meu bisavô, que saía
do barbeiro em direção à sinagoga. Libertada do cárcere no templo, minha bisavó, Ida Rosenfeld, não podia imaginar o estado em que o marido chegaria em casa: agonizante, carregado por jovens também cheios de hematomas. Aos 53 anos, Arnold Rosenfeld faleceu na semana seguinte em um hospital na cidade próxima de Würzburg. A outra vítima fatal deste pogrom foi Hermann Stern, de 67 anos, que morreu no dia do ataque. A confirmação de que Rosenfeld e Stern foram os primeiros judeus exterminados pelo nazismo estava nos arquivos da polícia de Stuttgart. O documento comprobatório – um depoimento dado por meu bisavô ainda em sua casa, dois dias após o espancamento, à polícia da região – foi descoberto pelo historiador e teólogo Horst F. Rupp, professor da Universidade de Würzburg. Aqui vem outra surpresa: Rupp é neto de Karl Stahl, o principal líder nazista da cidade e articulador do pogrom. Segundo o próprio Rupp, tudo indica que foi o avô dele quem instigou a SA a fazer uma visita, listou e apontou os judeus do local. Stahl, que perdera uma perna na Primeira Guerra, chegou a ser julgado, em 1947, pela participação nos ataques. Condenado e preso, foi solto em 1951, sob condicional, e morreu em 1967, em conseqüência de uma série de doenças somadas a fraturas múltiplas decorrentes de uma queda no gelo. Rupp nasceu no pós-guerra, em 1949. Descobriu o envolvimento do avô no nazismo quase por acaso, quando achou sua sentença condenatória entre documentos guardados por sua mãe. Apesar do silêncio conveniente da família, resolveu investigar mais fundo a história, mesmo sabendo que isso poderia abalar as boas lembranças que tinha do avô. “É uma catástrofe reconhecer que o próprio avô foi um dos principais criminosos daquele pesadelo. O terreno dos fatos e o da perplexidade pessoal se confundem de uma forma inquietante”, registrou, em entrevista concedida a mim por e-mail para o site No Mínimo. Nos últimos sete anos, o judaísmo, seu legado e, mais especificamente, a história dos judeus de Creglignen, têm sido os principais temas de estudo de Rupp, e já renderam dois livros. Em setembro, ele e a esposa Bárbara foram visitar a filha Anna, que estuda na Argentina. “Eu não podia vir à América do Sul e não procurar conhecer você e sua família”, disse-me, ao justificar sua rápida passagem pelo Rio. Sabendo da sua vinda, ansiei colocá-lo frente a frente com a comunidade judaica, que poderia ter questionamentos relevantes não abordados por mim na entrevista. Felizmente, a diretoria da ASA “comprou” a idéia e, no dia 5 de setembro, com a ajuda magistral da jornalista Erika Franziska Herd Werneck, que fez as traduções, tivemos uma noite de debate profundo, direto e pacífico, um verdadeiro exercício da cultura de paz. Para ler mais sobre essa história e uma longa entrevista com Horst Rupp acesse www.nominimo.com.br, clique em Busca Avançada e digite Arnold Rosenfeld.
Marina Lemle é jornalista |
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