| Entrevista - Boletim ASA nº 103, nov-dez/2006 |
Sérgio Niskier / Entrevista para ASA Com
uma agenda ambiciosa, a nova diretoria da Federação Israelita do
Estado do Rio de Janeiro (FIERJ), encabeçada pelo engenheiro civil
e de segurança Sérgio Niskier e pelos vices Lea Losinsky e Jayme
Salim Salomão, tomará posse no dia 6 de novembro. Às vésperas de
Rosh Hashaná, Sérgio recebeu este Boletim em seu escritório e, em
tom conciliador, assegurou que, na sua gestão, a ASA será ouvida
como as demais instituições. Falou do empobrecimento comunitário,
da fraca vida institucional, do censo, do anti-semitismo e da imagem
do Estado de Israel, entre outros temas. Leia, a seguir, a
entrevista. ASA – O que muda e o que continua na sua gestão? Sérgio Niskier – Não sou daqueles que precisam desmontar o que o antecessor fez. Eu aproveitarei 100% de qualquer coisa bacana que não só o Osias [Wurman, presidente em fim de mandato], mas a Federação Israelita, tenha construído ao longo de tantos anos. Um exemplo é o trabalho de mídia que ele fez, que tem uma estética muito bonita e um conteúdo que agradou à comunidade, basta ver as pesquisas. Vamos manter o programa de televisão e o boletim da FIERJ, mas para o trabalho de mídia ficar completo, vou tentar conseguir patrocínios para reabrir o programa de rádio. E vou integrar a imprensa judaica também, tanto a privada quanto a das instituições. Temos uma quantidade fantástica de boletins, incluindo o boletim da ASA, que precisam atingir não apenas os cadastros individuais, mas a comunidade como um todo. Sei que é uma ousadia, mas vou tentar. ASA – O que a ASA e as instituições em geral deverão fazer para garantir acesso à mídia da FIERJ? S.N. – Ela deve pedir o espaço. Certamente, a ASA tem algumas idéias que fogem um pouco do pensamento “oficial”. Mas, na nossa gestão, não haverá nenhum tipo de discriminação ao pensamento dentro da comunidade. Eu, desde que convidado, colocarei a Federação à disposição da ASA, estarei presente sempre que for possível, discordando sempre que precisar discordar, com o maior respeito e consideração. Não haverá nenhum tipo de restrição, está proibido isso. ASA – Você tem falado em reengenharia das instituições. O que é isso? S.N. – A reengenharia não é das instituições, mas da vida comunitária. Todas as instituições estão sofrendo muito com o enfraquecimento comunitário. As pessoas estão empobrecendo, estão saindo do convívio das instituições, estão tirando seus filhos das escolas ou sequer os estão matriculando. Ao mesmo tempo, temos um patrimônio imobiliário fantástico que, muitas vezes, é utilizado como locação para instituições fora da comunidade. Essa equação está errada. A nossa idéia, a exemplo do que foi feito em Buenos Aires sob os auspícios do Joint − ao qual já estou pedindo apoio −, é fazer um levantamento profundo da vida comunitária. Conhecendo as demandas da nossa comunidade, poderemos fazer um projeto de rearrumação das nossas instituições. Caso contrário, elas irão à falência por única e exclusiva incompetência nossa de lidar com o nosso enfraquecimento. ASA – Quais instituições serão visadas por essa reengenharia? S.N. – Quando terminarmos o processo de avaliação do levantamento e descobrirmos as demandas, o trabalho de planejamento não vai dizer “junta A com B, junta C com D”, porque esse é o paradigma errado, porque estaremos juntando fracassos. Temos é que saber de quantos clubes, escolas e sinagogas precisamos. No momento em que encontrarmos as demandas comunitárias, poderemos desenhar um retrato completo da comunidade para os próximos dez ou vinte anos, e os clubes, escolas e sinagogas tomarão as decisões. Não pode ser uma decisão de cúpula. É isso que joga tudo por água abaixo, porque vai-se lidar com vaidades, com feudos, com pensamentos estreitos. ASA – Como as instituições podem se planejar, se não temos o censo, que está sendo prometido há muitas gestões? S.N. – O censo é uma contagem. Se você não sabe onde a comunidade anda, como fazer essa contagem? O censo que já foi tentado não deu resultado porque as pessoas recebiam um questionário e ficavam com medo de responder, e isso dentro de um universo que já precisava ser revisto. O primeiro passo será atualizar o nosso cadastro. Vamos contratar uma pessoa para casar os cadastros de todas as instituições. A Federação vai disponibilizar o grande cadastro comunitário para todas as instituições, sem nenhuma restrição e sem nenhuma cobrança. É um trabalho difícil, que demanda recursos e é prévio ao censo. O censo, que é fundamental, vai sair num segundo momento e com a orientação de quem entende. E, com os estudos estatísticos, em vez de mandar responder a um questionário, visitaremos as pessoas, como um censo normal. Hoje, não se sabe exatamente onde anda a comunidade nem quais as suas necessidades. Dos 25 mil a 30 mil judeus que vivem no Rio, apenas seis mil têm ligação com as nossas instituições, se observarmos, por exemplo, o que ocorre em Iom Kipur. Portanto, 25 mil estão fora da vida comunitária. Os recursos, vou pedir ao Joint. Precisamos de um apoio financeiro relevante porque isso não é barato. Quero trabalhar junto com as escolas, junto com o ORT, vamos utilizar nossas próprias instituições para fazer um trabalho profissional. ASA – Como se chegou a esse número de 25 mil a 30 mil judeus? S.N. – O cadastro da Federação tem 14 mil endereços. Muitos são de casais cujos filhos já se mudaram, outros são institucionais. Descontando falecimentos e mudanças, vamos considerar cerca de 12 mil endereços que existem de verdade. Este número, podemos multiplicar por dois e pouco.
ASA – Como você pretende harmonizar o Executivo e o Deliberativo da Federação, que tiveram um relacionamento conflituoso nos últimos anos? S.N. – O conflito existe quando os dois querem brigar. A minha relação com o Conselho Deliberativo será de muito respeito e companheirismo. A vida institucional não é a cúpula, são as instituições. Eu não quero ensinar nada para ninguém, não sou um messias. Eu e o meu vice responderemos sempre a tudo o que as instituições perguntarem. Vai acabar essa história de o Conselho ter uma sede separada. O Conselho estará dentro da sede da Federação, com a estrutura administrativa à sua disposição. ASA - Você concorda com o uso da FIERJ como vitrine para ambições pessoais no terreno político-partidário? Tem alguma pretensão eleitoral fora da comunidade judaica? S.N. – Não tenho nenhuma pretensão a cargo político eletivo fora da comunidade. Se tivesse, diria. Não acho que se deva fazer uso indevido do cargo, mas é legítimo que um líder político com um trabalho comunitário relevante queira representá-la nos fóruns legislativos. Quem é contra isso é por despeito ou, talvez, por inveja. Errado é pedir voto para a comunidade sem ter prestado serviço a ela, é chegar de pára-quedas e dizer “eu represento esta comunidade”. ASA – A Federação tem assumido o papel do Consulado de Israel, depois que este fechou as portas no Rio. Qual será a sua postura nesta questão? S.N. – Esse é um tema muito polêmico. Existe uma relação concreta, instantânea, entre o que acontece no Estado de Israel e o que acontece na vida comunitária. A crise do Líbano, entre vários ataques verbais, várias ameaças telefônicas, gerou duas bombas contra a sinagoga de Campinas. Não devemos ter posições sectárias de avaliação do que o governo de Israel faz ou deixa de fazer e fechar os olhos ao que determinados partidos políticos têm feito aqui, de pregar o fim de Israel em ambientes universitários do mais alto nível, como a USP, A PUC, a UFRJ, e em sindicatos. Eu não faço parte do grupo que fecha os olhos a isso para ficar bem com os companheiros. Tenho tido posições muito claras a favor do Estado de Israel, independentemente do seu governo, porque não fazer isso é facilitar a importação do conflito, que já tomou conta do Brasil. O meu direito de defender o Estado de Israel é garantido pela Constituição brasileira. Ninguém ocupou o espaço do Consulado. O presidente da Federação escreveu alguns artigos no jornal em cima de situações concretas. Obviamente, eu terei posicionamentos diferentes porque eu sou diferente. Mas defender as posturas do Estado de Israel é defender a comunidade judaica dos ataques violentos que estamos recebendo, através da mídia, físicos, de todas as formas. ASA - Como você vê o problema do anti-semitismo no nosso Estado e de que maneira a Federação vai agir nesse campo? S.N. – O anti-semitismo, infelizmente, é crescente, só não enxerga quem não quer. Para combatê-lo, vamos utilizar todos os meios disponíveis: esclarecimentos, trabalho de educação, trabalho com a mídia e, especialmente, trabalho judicial. Vamos nos aproximar dos demais segmentos da sociedade, dos partidos políticos, dos diretórios acadêmicos. Isso, sim, foi esvaziado ao longo do tempo. A nossa comunidade perdeu − e isso já vem de longa data − a sua ação política. Nós já fomos mais ativos nos partidos políticos, nos centros acadêmicos, nas instituições de classe. ASA – Qual será a sua primeira medida como presidente da FIERJ? S.N. – No nível interno, dado o empobrecimento comunitário, vamos trabalhar pelo incremento das ações sociais. No externo, faremos um trabalho junto à mídia para combater de forma efetiva o ranço anti-semita que existe na sociedade como um todo. Já que recursos financeiros são uma coisa complicada, vamos investir muito trabalho na ação cultural. Este, sim, será o eixo do nosso trabalho político. ASA – Qual é a sua mensagem para os associados da ASA, para os leitores deste Boletim e para a comunidade judaica em geral? S.N. – Gostaria de dizer que tenho muito orgulho de, ao mesmo
tempo em que estamos assumindo a Federação, poder freqüentar as páginas
deste Boletim, que reputo um dos melhores da nossa comunidade. Aliás,
gostando ou não das posições que o Boletim defende, todos que o lêem
reconhecem a sua alta qualidade e o seu bom conteúdo. A nossa gestão
vai incentivar e amplificar ao máximo o pensamento comunitário
como um todo. Não haverá discriminação a nenhuma forma de
pensar. Eu espero que a ASA
continue participando de forma ativa no Conselho da Federação, com
suas críticas e contribuições dentro do ambiente comunitário.
Eu sinto falta disso, apesar da participação efetiva do Horácio
[Horácio Schechter, presidente da ASA], que não tem faltado a praticamente nenhuma reunião do
Conselho. Nossas portas estarão abertas para a ASA, até porque é de lá que eu venho. |
| * * * [topo] |