| Polônia - Boletim ASA nº 102, set-out/2006 |
Silvio Tendler / Especial para ASA
Em
1967, durante a Guerra dos Seis Dias, uma equipe de cineastas
franceses encontrava-se em Cuba gravando com Fidel Castro uma seqüência
para o filme Longe do Vietnã.
A União Soviética pressionava o governo cubano a assinar uma
declaração condenando Israel. Fidel resistiu, com o argumento de
que Israel vivia uma situação semelhante à cubana, cercado por
inimigos poderosos. Naquela época, intelectuais progressistas do mundo inteiro saudavam Israel como o grande exemplo de democracia no Oriente Médio. Entre eles, o francês Jean Paul Sartre. Menos de 40 anos depois, estas lembranças deixaram um sabor de amargura e derrota. Quarenta anos, tão pouco tempo em termos históricos, impuseram ao Estado judeu uma posição de isolamento, por conta de equívocos geopolíticos. Aos poucos, Israel foi se isolando da simpatia mundial para ter sua imagem convertida na ponta-de-lança dos Estados Unidos. Israel tem de lutar para reencontrar seu projeto original, dos tempos em que era saudado como um exemplo de justiça social e democracia, semente de um socialismo humanista. A invasão do Líbano pelo exército israelense, a destruição da infra-estrutura daquele país e a morte de centenas de civis libaneses colocam mais uma vez Israel na berlinda, condenado em todas as partes do mundo. O apoio àqueles que acreditam em Israel como uma utopia justa e necessária se enfraquece. Apesar de ter sido uma resposta legítima ao ataque de um grupo que visa a destruição de Israel, e apesar dos enormes danos e baixas sofridos por sua população. A imagem deixada pela mídia é a de Israel como país agressor. Nós, judeus progressistas, condenamos a agressão praticada pelo Hezbolá, mas também condenamos a forma da reação militar israelense, que provocou grandes danos civis sem obter qualquer vitória expressiva contra o grupo terrorista. O punho de ferro de Israel certamente multiplicou as fileiras dos que incitam à sua destruição. As nossas posições críticas refletem uma grande preocupação quanto ao futuro do Estado judeu − mesmo que muitas vezes sejam mal interpretadas, tanto por amigos de Israel quanto por seus adversários. Este mundo maniqueísta não cede espaço para matizes diferenciados. Porém não podemos e não devemos silenciar. Devemos fortalecer nossos laços com os movimentos ideológicos que continuam a lutar por um mundo solidário e uma sociedade fraterna. Comunicar-nos para além de nossos círculos ilustrados e afins é o nosso desafio. Retomar o espaço perdido na formulação de propostas para recolocar o desenvolvimento numa perspectiva humanista deve ser nosso objetivo. Não fomos apenas nós que perdemos o rumo, mas também as esquerdas de uma maneira geral, que não estão encontrando respostas para fazer frente ao mundo perverso, dilacerante e predatório que está sendo erguido em nome da globalização. O que acontece hoje no Oriente Médio não está isolado do que acontece de pior no mundo: o triunfo dos fundamentalismos. E, muitas vezes, setores da esquerda equivocam-se, defendendo o fanatismo obscurantista como se fosse ideologia progressista. O fundamentalismo religioso e étnico foi ocupando os vácuos deixados pelo comunismo soviético e pela social democracia européia clássica. O fracasso do marxismo tal qual praticado pelo bloco soviético, e o das ideologias nacionalistas gerou uma incapacidade de responder às grandes questões do século 20. Pouco a pouco, a intolerância e os fundamentalismos se tornaram o motor dos retrocessos históricos. Sua disseminação − entre muçulmanos, judeus ou cristãos − está pautando tudo o que ocorre no mundo. Temos a obrigação de alertar o mundo sobre os riscos que o fundamentalismo representa em termos de retrocesso civilizatório. Devemos romper o círculo de fogo que nos isola, e passar à ofensiva, entendendo que a grande batalha que devemos vencer é a de reconquistar a opinião pública. Os conservadores acreditam que o poderio militar israelense, escorado no apoio norte-americano, será eficiente para assegurar o futuro de Israel. Nós, porém, não cremos que os interesses estratégicos dos EUA coincidirão para sempre com os de Israel. Brasileiros, judeus, árabes, todas as culturas e etnias, devemos lutar por um mundo harmônico, construído na base do respeito à pluralidade e à diversidade. Nossa luta por uma sociedade laica e democrática deve ser retomada. Lutemos, de verdade, pela construção de duas pátrias − Israel e Palestina − para dois povos. Que palestinos e judeus convivam por 25 anos, separados e em harmonia, e o entendimento resolverá todos os seus conflitos. A sanidade deve vencer a violência. Mas cada um de nós tem sua cota de responsabilidade para que vivamos num mundo melhor. SilvioTendler
é cineasta e ativista dos Amigos Brasileiros do Paz Agora.
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