| Especial - Boletim ASA nº 102, set-out/2006 |
Luiz Fernando Gallego / Especial para ASA
Na coleção “Perfis Brasileiros”, da Editora Cia. das Letras, a biografia de Castro Alves, assinada pelo acadêmico Alberto Costa e Silva, diz que, em rascunhos, o artista pretendia escrever “um poema sobre a tragédia do povo judeu”. Mas, provavelmente, a questão do escravismo negro no Brasil Império era uma tragédia mais próxima da indignação dos humanistas da época − e o projeto se converteu no magnífico épico “Vozes D’África”, publicado em 1868. Os conhecidos versos apresentam uma revolta desesperada do continente africano contra um deus criador que, a despeito de sua alegada onipotência, consente na abominação da escravidão de seres humanos por seus semelhantes: “Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes? / Em que mundo, em que estrelas tu te escondes / Embuçado nos céus? /Há dois mil anos te mandei meu grito / Que, embalde, desde então corre o infinito... / Onde estás, Senhor Deus? ” Talvez um resquício da
idéia original de Castro Alves esteja presente no seguinte trecho: “Vi meu povo seguir qual Judeu maldito um trilho de perdição /
Depois vi minha prole desgraçada pelas garras da Europa - a
arrebatada – Amestrado Falcão.”
Setenta anos antes do evento conhecido sob o poético e
enganador nome de Noite de Cristais (referência às vidraças,
janelas e vitrinas de propriedade de judeus de Berlim, destruídas
pelas tropas de choque nazistas em 1938), o poeta brasileiro
antecipava, ao falar do destino indigno reservado aos negros
africanos, o que viria a ser a desgraça do futuro destino de
judeus, ciganos, comunistas e homossexuais nas garras dos campos de
extermínio europeus. Quase cem anos depois. o grande cineasta sueco Ingmar Bergman lançou uma seqüência de filmes que ficou conhecida como Trilogia do Silêncio de Deus, formada por Através de um Espelho, Luz de Inverno (ou Os Convidados para a Comunhão) e O Silêncio, todos disponíveis em dvd. Premiado (surpreendentemente para padrões atuais) com Oscar de filme estrangeiro em 1962, Através de um Espelho apresenta uma personagem que entra em surto psicótico numa ilha e é resgatada por um helicóptero-ambulância. Em sua alucinação, ela “vê” no helicóptero uma gigantesca aranha e diz: “Deus é uma aranha e nós somos moscas em sua teia.” Filho de um severo pastor protestante, Bergman tinha motivos pessoais e de revolta religiosa para questionar o “silêncio de Deus” e era acusado pela crítica de esquerda de ser um “alienado” por privilegiar tais temas; até que começou a inserir breves cenas da Guerra do Vietnã em curso e da 2ª Guerra Mundial em seus dramas existencialistas e psicológicos. Em 1968 ele rodou Vergonha, um filme sobre o horror de todas as guerras onde um personagem dizia: “E se tudo isso fosse um sonho de alguém que, quando acordasse e lembrasse o sonho, sentisse vergonha?” Adolescente, de 16 anos, em viagem à Alemanha, Bergman havia se deixado seduzir brevemente pela grandiosidade aparente do poderio nazista e expiava sua própria vergonha neste filme. Não satisfeito, na própria Alemanha ele filmou mais tarde O Ovo da Serpente incluindo cenas alusivas à já citada Noite de Cristais. Em 1927 Sigmund Freud escreveu um de seus famosos trabalhos sobre cultura e civilização, questionando o fenômeno religioso desde o título, O Futuro de uma Ilusão. Para ele, a consciência do desamparo humano e sua insignificância frente às forças hostis da natureza, a noção da finitude e o mal-estar das repressões sociais inerentes aos acordos e pactos civilizatórios de convivência fazem com que o homem idealize um deus-pai todo-poderoso que substitua os pais protetores da infância na vida adulta. A religião e seus deuses, criados à imagem e semelhança dos homens, seriam uma ilusão porque não carecem de confirmação, basta-lhes a crença, ainda que não nos defendam dos perigos naturais nem atenuem o mal-estar de nossa mescla de instintos com renúncias para a vida em comum. Sustentam-se n a promessa ilusória de não deixar sem resposta nossas angústias existenciais. Com estes exemplos quero mostrar que o desabafo do atual papa, Bento 16, ao visitar Auschwitz (“Por que, Deus, o Senhor Se calou? Como pode tolerar tudo isso? Onde estava o Senhor naqueles dias?”) foi algo, no mínimo, extemporâneo sob todos os ângulos − e nada original, surpreendendo apenas por sugerir um questionamento feito por um suposto representante de Deus na Terra. Pode-se supor que este Papa de nacionalidade germânica pretendeu uma retórica de atenuação da responsabilidade de seus antepassados conterrâneos ao atribuir os horrores executados nos campos de concentração à ausência de Deus. Católicos sérios, no entanto, sabem fazer parte de sua doutrina o conceito de “livre arbítrio”, ou seja, da responsabilidade individual sobre seus atos, atos que irão redundar, numa vida além-túmulo, em eterna redenção ou em eterna danação. O tema do “silêncio de Deus” já é antigo no século 21: um poeta brasileiro já tratava disso no século 19. E ao ser utilizado por um líder religioso acaba parecendo um péssimo e ineficiente álibi de características “projetivas”, ou seja, tentando atribuir a responsabilidade do horror nazi-fascista aos ombros de um Deus inabalável, inaccessível, surdo e mudo. Este mecanismo psicológico primitivo de “projeção” nem precisa das teorizações da psicanálise de Freud ou de Melanie Klein para ser identificado. Já é mais do que tempo do Vaticano abrir a todos os documentos sobre Pio 12 durante as trevas da 2ª Guerra Mundial para esclarecer as acusações de omissão feitas ao maior líder espiritual do Ocidente na época quanto à perseguição mortífera aos judeus. O que se sabe atualmente pode até revelar que houve inestimável auxílio pontual por parte de membros da Igreja Católica e mesmo de sua alta hierarquia a muitos perseguidos da comunidade judaica. Mas continuam em aberto os questionamentos ao único poder “multinacional” da época na pessoa do Papa Pio 12, que deixou de fazer qualquer pronunciamento contundente, como líder religioso que era, contra o anti-semitismo destrutivo que manchou aquele período. É mais do que hora de esclarecer o silêncio do papa e não o “silêncio de Deus”. Com a palavra final, nosso Castro Alves, ardoroso e engajado no protesto contra a opressão de negros, escravos, e – ainda que não o tenha concretizado em sua curta vida – de judeus e sua tragédia milenar. O humanismo não escolhe povos nem grupamentos humanos: dá voz aos infelizes como nos magníficos versos que selecionamos para concluir: “Não basta inda de dor, ó Deus terrível?! / É, pois, teu peito eterno, inexaurível / De vingança e rancor?... / E que é que fiz, Senhor? que torvo crime / Eu cometi jamais que assim me oprime / Teu gládio vingador?! (...) Cristo! embalde morreste sobre um monte / Teu sangue não lavou de minha fronte / A mancha original. / Ainda hoje são, por fado adverso, / Meus filhos — alimária do universo, / Eu — pasto universal... // Basta, Senhor! De teu potente braço / Role através dos astros e do espaço / Perdão p'ra os crimes meus! / Há dois mil anos eu soluço um grito... / escuta o brado meu lá no infinito, / Meu Deus! Senhor, meu Deus!...” Luiz Fernando Gallego
é psicanalista. |
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