| Venezuela - Boletim ASA nº 101, jul-ago/2006 |
David Somberg / Especial para ASA
A
pequena e simpática cidade de Santana de Coro, declarada Patrimônio
Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1993, abriga o cemitério
judeu mais antigo do continente ainda em atividade. A cidade, no
Estado venezuelano de Falcón, foi fundada em 1527 e recebeu o
primeiro grupo de judeus a entrar oficialmente na Venezuela livre no
ano de 1821. Em 1830, a comunidade judaica de Coro era composta de
19 famílias sefaraditas, que, vindas da ilha holandesa de Curaçao,
formaram a primeira comunidade judaica de que se tem notícia na América
Hispânica liberada. Já havia judeus em Caracas e Maracaibo desde o
século 17, mas o grupo que migrou para Coro foi a primeira leva
migratória organizada a seguir para a nascente República
Venezuelana. Contribuíram
para a fixação do grupo as boas relações mantidas entre líderes
da comunidade judaica de Curaçao e o libertador Simón Bolívar.
Durante a consolidação da independência e após a queda da
Primeira República, Bolívar e suas irmãs foram obrigados a sair
da Venezuela e seu primeiro refúgio foi a casa dos irmãos Ricardo
e Abraham Mesa, na ilha holandesa. Também era amigo de Bolívar um
importante comerciante chamado Mordejai Ricardo. Estes e outros líderes
apoiaram política e economicamente o Exército Libertador e há
inclusive referências a judeus como Juan Bartolomé De Sola, Benjamín
Henríquez e Samuel Henríquez, que se alistaram no Exército
Patriota e lutaram ao lado de Bolívar. Na
segunda metade do século 19, David Abraham Senior, próspero
comerciante da cidade, funda em sua casa uma sala para orações,
que será a primeira sinagoga da Venezuela. A casa foi comprada de
um outro comerciante judeu chamado José Henríquez, em 30 de julho
de 1852, e a sinagoga funcionou ali até os anos 1880. Em 1986 a
casa foi vendida ao governo venezuelano e em 3 de agosto de 1997 o
governo regional inaugura a Casa de Oração Hebréia, que funciona
dentro do Museu de Arte Alberto Henríquez. A antiga sinagoga não
possui mais o mobiliário original, mas vale a visita, não apenas
pela importância histórica do local, mas também pela conversa com
o senhor Pedro Ruiz, atual responsável por ela e conhecedor
profundo da história dos judeus de Santana de Coro. Hoje
não há mais comunidade judaica na cidade, mas os nomes das
primeiras famílias sefaraditas a se fixarem no país são comuns
entre os falconianos. A própria restauração do cemitério nos
anos 1970 deu-se sob o mandato do governador José Curiel. Uma
testemunha interessante da assimilação da comunidade local é uma
parte do próprio cemitério conhecida como Rincón de los Angeles,
por possuir túmulos ornados com estátuas de figuras humanas, o que
não é usual em cemitérios judeus.
Entrada do Cemitério O "Rincón de los Angeles"
A Sinagoga de Coro Sr. Pedro Ruiz
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